Alice lutou para acordar de um sonho caótico, com a testa ardendo em febre e a garganta tão seca como se tivesse sido queimada pelo fogo.
Ela se esforçou para sustentar o corpo, mas assim que seus pés tocaram o chão frio, sua visão escureceu por um instante. A chuva que tomara na noite anterior, afinal, resultara em uma febre alta.
Apoiando-se na parede, ela caminhou hesitantemente em direção à sala, mas estacou bruscamente ao virar o corredor.
Arthur estava sentado no sofá, segurando um bebê enrolado em mantas. A luz da manhã atravessava as cortinas e recaía sobre ele, tornando suas feições tão suaves que pareciam quase sagradas.
Ele ninava o recém-nascido com doçura, acariciando com os dedos o rostinho enrugado da criança com cautela, como se segurasse um tesouro frágil.
"Meu bem, você acordou?"
Arthur ergueu os olhos, que estavam vermelhos como se ele tivesse passado a noite inteira em claro.
Ele caminhou rapidamente em direção a ela com o bebê nos braços e, com a mão livre, tocou naturalmente a testa dela, franzindo o cenho de imediato:
"Como sua febre está tão alta? Vou chamar um médico agora mesmo...".
Alice evitou o toque dele e perguntou com a voz rouca:
"De quem é esse bebê?".
Os dedos de Arthur congelaram no ar. Após alguns segundos de silêncio, ele subitamente se ajoelhou com um joelho no chão e, ao olhar para ela, seus olhos se encheram de lágrimas:
"Você se lembra do Daniel? Meu irmão que trabalhava como médico sem fronteiras...".
O pomo de Adão dele saltou e sua voz soou embargada:
"Ele... faleceu na zona de guerra. A esposa não suportou o choque e, após dar à luz, cometeu... suicídio".
Alice olhou para os cílios trêmulos dele e sentiu vontade de rir.
Daniel?
Aquele amigo que supostamente crescera com ele, alguém que ela nunca conhecera, mas que sempre era mencionado como um escudo quando Arthur "viajava a trabalho". Acontece que ele ainda servia para ser o pai de um filho ilegítimo.
"Meu bem, vamos adotá-lo." Arthur estendeu a criança em direção a ela; o bebê dormia profundamente, com o rostinho rosado e a curvatura do nariz idêntica à de Diana. "Eu sei que você sempre gostou de crianças...", ele continuou com um tom de voz cada vez mais suave e persuasivo, "ele pode ser criado na casa dos meus pais por enquanto, não vai nos atrapalhar. Só quero dar um nome a ele...".
As unhas de Alice se cravaram profundamente na palma de sua mão.
Que ridículo. Ele usava até a "bondade" como uma corrente para enganá-la. Era como se recusar a proposta a tornasse uma mulher fria e cruel, enquanto aceitar seria prova de sua "generosidade e ternura".
Arthur subitamente segurou a mão dela, acariciando com o polegar a aliança em seu anelar: "O médico disse... que seria difícil para você engravidar agora".
Ele ergueu o olhar, onde a culpa e a manipulação se fundiam perfeitamente: "Vamos considerar que esta criança é um presente enviado pelos céus para nós, pode ser?".
Alice encarou aquele rosto familiar e ao mesmo tempo estranho, lembrando-se subitamente de seu nonagésimo sétimo suicídio.
Naquela vez, o sistema a jogara em um poço de gelo e, sob um frio de trinta graus abaixo de zero, ela ouvira o som do estalo de seu próprio sangue congelando. Naquele momento, ela não chorou.
Mas agora, uma lágrima caiu sem aviso sobre o rosto do bebê. A criança franziu o cenho, mas não acordou.
Arthur apressou-se em secar a lágrima, com um tom de voz sofrido:
"Não chore, meu bem, meu coração fica despedaçado. Se você não quiser, não adotaremos, está bem? Eu o levo para um orfanato e ele que se vire...".
"Por que quis adotar de repente?", ela perguntou baixinho.
"Porque...", Arthur hesitou por um instante e então sua voz soou embargada, "eu quero ter uma família completa com você".
Alice de repente começou a rir alto, rindo tanto que as lágrimas não paravam de correr.
"Está bem."
Ela secou o rastro de água nos olhos e estendeu as mãos para receber o bebê.
"A partir de hoje, ele será nosso filho".
Arthur a abraçou como se tivesse tirado um grande peso das costas: "Lice, obrigado...".
Ela não retribuiu o abraço, apenas baixou a cabeça para olhar o bebê em seus braços. Quanta ironia: ela estava "adotando" o filho ilegítimo de seu próprio marido com a amante.
"Mas eu tenho uma condição." Ela o afastou e apontou para o bebê: "Já que é uma adoção, precisamos fazer os trâmites legais. Amanhã mesmo iremos ao cartório registrar as informações da mãe biológica como 'falecida'".
O sorriso de Arthur congelou.
Naquela noite, Alice ficou do lado de fora do quarto do bebê, ouvindo Arthur falar ao telefone em voz baixa: "Diana, os trâmites precisam ser feitos... sim, sua identidade terá que ser registrada como 'morta'...". Do outro lado da linha, o choro de Diana era agudo e doloroso.
Alice virou-se para partir e o sistema subitamente se manifestou: [Hospedeira, você claramente poderia desmascará-lo].
Ela olhou para o próprio reflexo no vidro da janela, com o rosto pálido como um fantasma, e sorriu.
"Uma certidão de óbito tem valor legal. Quando eu partir, Diana certamente voltará para o lado do filho. Quero que ela passe o resto da vida sendo apenas a madrasta, sem nunca poder ser a mãe biológica. Considere isso como... minha última vingança".