《Cem Ciclos de Dor: O Preço do Seu Amor》Capítulo 2

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Alice estava parada do lado de fora da cozinha e, através da fresta da porta entreaberta, viu Arthur diante do fogão.

Seus dedos longos seguravam uma colher de ébano, mexendo suavemente a medicina em uma panela de barro.

O vapor subia, embaçando seu perfil, mas não conseguia esconder a concentração em seus olhos — aquela expressão era a mais familiar para ela.

Antigamente, essa dedicação pertencia apenas a ela.

Ela se lembrou de três anos atrás, logo quando retornou, quando seus problemas gástricos eram tão graves que ela chegava a vomitar sangue devido à alimentação irregular por longos períodos.

Arthur a levou aos melhores médicos durante a noite, mas nada parecia funcionar. Depois, ele desapareceu por dez dias inteiros.

Quando reapareceu, seus joelhos estavam em carne viva e suas mãos cobertas de bolhas de queimadura, mas ele trazia uma tigela de canja de arroz cor de âmbar, levando-a cuidadosamente aos lábios dela: "Lice, bebe isso e a dor vai passar".

Só mais tarde ela soube que ele havia ido para as montanhas profundas atrás de uma linhagem de mestres em medicina tradicional, onde ficou ajoelhado por sete dias e sete noites para ser aceito como discípulo.

O ancião, com sessenta anos de prática médica, disse a ela depois: "Nunca vi um aluno tão louco — para curar seu estômago completamente, ele aprendeu sobre mil tipos de ervas em seis meses e ficou três dias e três noites sem pregar o olho só para esperar por aquela tigela da essência mais pura da canja".

Desde então, não importa o quão tarde ele chegasse em casa, a geladeira sempre tinha pratos medicinais preparados por ele.

No bloco de notas do celular dele, havia um caderno inteiro intitulado "Notas Alimentares da Lice", registrando detalhadamente cada ingrediente proibido, cada episódio de dor gástrica e até qual erva calmante adicionar em momentos de oscilação emocional.

"Eu vou cuidar do seu estômago", dizia ele, com um brilho nos olhos mais forte que as estrelas.

Ping.

Uma gota caiu nas costas da mão de Alice, e só então ela percebeu que estava chorando.

Na cozinha, o celular de Arthur tocou de repente. Ele limpou as mãos e atendeu, com uma voz tão gentil que chegava a ser irritante: "Diana, o remédio está quase pronto... sim, adicionei poria, não está amargo".

O estômago de Alice se contorceu em uma dor aguda instantânea.

Do outro lado da linha, a voz suave de Diana podia ser ouvida vagamente:

"Arthur, o bebê acabou de acordar, com certeza está sentindo falta do papai... tudo bem se você estiver ocupado, eu e o bebê conseguimos dar um jeito sozinhos...".

Arthur imediatamente suavizou o tom: "Não se mexa, eu vou para aí agora mesmo".

Enquanto desligava o fogo, ele discou para Alice.

"Meu bem, surgiu uma reunião internacional de emergência hoje, o cliente exigiu uma conversa presencial que precisa ser resolvida agora, não vou poder ir para casa jantar com você...".

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"Pedi para a empregada usar os ingredientes que preparei ontem para fazer aquela canja de galinha com ginseng que você gosta, mas por favor, não chegue perto da cozinha para não ligar o gás sem querer... não lave a louça, eu ficaria com o coração partido... seja boazinha em casa, coma tudo e não esqueça de me mandar uma foto da tigela vazia...".

Do outro lado, Arthur continuava tagarelando como sempre, com recomendações minuciosas, tratando-a como uma criança que nunca cresce.

Alice segurava o celular, ouvindo em silêncio e, depois de um longo tempo, um sorriso frio surgiu em seus lábios.

"Certo, eu entendi", respondeu ela baixinho, com uma voz excessivamente obediente.

"Eu sabia que meu amor era a pessoa mais compreensiva do mundo, não se preocupe, volto logo para ficar com você assim que a reunião acabar. O que você quer de compensação? Que tal eu comprar aquele seu bolinho favorito?".

Após desligar, ela encarou a tela escura com o olhar gelado.

— Como ele conseguia ser tão gentil mesmo mentindo.

Ela viu Arthur desligar o telefone e sentar-se calmamente à beira da cama, segurando uma tigela de sopa medicinal fumegante, soprando-a cuidadosamente antes de levá-la aos lábios de Diana.

"Beba devagar, cuidado para não se queimar." Sua voz era tão doce que parecia transbordar ternura.

Diana estava apoiada fracamente nos travesseiros, mas com um sorriso satisfeito no rosto.

Ela segurou levemente o pulso de Arthur, dizendo de forma manhosa: "Arthur, você está cansado? Quer descansar um pouco?".

"Não estou cansado." Arthur baixou a cabeça e ofereceu outra colherada: "Você acabou de ter o bebê, seu corpo ainda não se recuperou, precisa ser bem cuidada".

As unhas de Alice se cravaram profundamente em sua palma, mas ela não sentia dor.

Ela observou Arthur alimentar pacientemente Diana com toda a tigela e depois limpar cuidadosamente o canto da boca dela, com movimentos tão suaves como se estivesse lidando com uma joia preciosa.

Antigamente, essa ternura pertencia apenas a ela.

Diana de repente suspirou e disse baixinho: "Arthur, é melhor você voltar para ficar com a Alice esta noite... ela sozinha em casa, será que vai ficar triste?".

Arthur hesitou por um momento, aproximou-se de Diana com um olhar profundo.

"Você realmente quer que eu volte para ficar com ela?".

Um brilho de hesitação passou pelos olhos de Diana, misturado com uma ponta de mágoa.

"Quem não sabe que você é quem mais detesta ver a Alice chorar...".

Arthur subitamente abraçou Diana com possessividade: "De agora em diante, não me empurre mais para outra mulher, você precisa lembrar que você é mais importante".

Alice estava parada do lado de fora, sentindo o coração ser apertado como se por uma mão invisível.

— Outra mulher?.

Acontece que, aos olhos dele, ela já havia se tornado a outra.

Lá fora, uma chuva torrencial começou a cair de repente. Alice saiu caminhando pela rua, deixando as gotas a atingirem, como se não pudesse sentir dor alguma.

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Seu coração estava mais desolado que aquela tempestade. Ela caminhou sob a chuva por duas horas antes de voltar para casa vindo do hospital.

A canja de galinha com ginseng sobre a mesa já estava gelada; ela nem olhou. Sua cabeça doía intensamente devido à chuva e, quando estava prestes a jogar a canja fora, ouviu o som do destravamento por impressão digital.

Arthur entrou, viu o que ela estava fazendo e imediatamente foi até ela, abraçando-a com preocupação.

"Por que ainda não foi dormir?" Arthur tirou o casaco, com o tom de voz carregado de cansaço, mas ainda zeloso: "A canja esfriou, não tome mais, vou esquentar um copo de leite para você".

Alice ergueu os olhos para ele, sentindo uma tontura, e perguntou suavemente: "A reunião foi bem?".

Arthur hesitou por um instante e confirmou com a cabeça: "Sim, resolvida".

Ela não disse mais nada, apenas o observou ir para a cozinha, aquecer o leite com habilidade e pegar o pote de mel para adicionar uma colherinha — ele sabia que ela gostava de algo doce antes de dormir.

Com a chuva de hoje, sua cabeça estava realmente pesada; ela sabia que provavelmente estava com febre baixa.

Se fosse no passado, Arthur teria percebido imediatamente, a carregaria nos braços até a cama e ficaria ao lado dela, observando sua temperatura baixar gradualmente.

Mas agora, toda a atenção dele estava na tela do celular.

Uma mensagem de Diana: 【O bebê acordou e não para de chorar, talvez esteja sentindo falta do papai...】.

Arthur imediatamente largou o leite e respondeu rápido: 【Vou para aí agora mesmo】.

Alice o viu vestir o casaco apressadamente e não pôde deixar de sorrir: "Outra reunião?".

Arthur congelou, aproximou-se com culpa para beijar Alice, mas ela virou o rosto. O beijo dele caiu apenas em seus cabelos, o que também a deixou extremamente enojada.

"Lice, desculpe, esse projeto é muito importante. Quando terminar, levo você para as Maldivas, seu lugar favorito... quer comer bolo de castanha amanhã? Eu compro e faço para você...".

Alice apenas disse baixinho: "Cuidado no caminho".

Arthur percebeu que o humor dela não estava bom e quis dizer mais algo, mas Alice apenas massageou as têmporas: "Arthur, estou um pouco cansada, quero descansar".

Ao ouvir isso, Arthur foi imediatamente preparar a cama para ela, sem esquecer de colocar uma bolsa de água quente sob as cobertas, mas não percebeu que ela já estava começando a ter febre.

No momento em que a porta se fechou, Alice pegou o copo de leite aquecido e despejou-o lentamente na pia.

Que ridículo, até a última ternura era falsa.

O sistema de repente soou em sua mente: 【Hospedeira, o valor de flutuação emocional ultrapassou o limite, deseja ativar o bloqueio psicológico?】.

Alice balançou a cabeça, foi até a escrivaninha e abriu aquele caderno de "Notas Alimentares da Lice".

Na página mais recente estava a data de hoje e, abaixo, uma pequena anotação:

【Lice tem o estômago frio, a canja de galinha com ginseng precisa de três fatias de gengibre e deve cozinhar por duas horas】.

Ela encarou aquelas palavras e, de repente, sorriu.

"Sistema", disse ela baixinho, "quanto mais lúcidas forem essas dores, mais eu perceberei o quão boba fui no passado".

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