— Mestra, estou com fome.
Pisquei os olhos, confusa: — Mas não acabamos de jantar?
Diante do meu olhar inocente, Lucas finalmente percebeu algo. Seu rosto ficou vermelho como um pimentão e ele baixou o tom de voz, tentando despertar minha memória.
— ... Meu período de cio começou.
Fiquei paralisada. Memórias há muito guardadas voltaram à tona. Todos os homens-fera passam por um período de cio ao atingirem a maturidade. Normalmente, o dono é quem ajuda.
Mas havia exceções, como Arthur. Por me detestar, ele suportava esses períodos sozinho. Com o tempo, acabei esquecendo que isso existia.
Agora, olhando para Lucas, que exalava calor e cujas pontas das orelhas não paravam de tremer, eu não sabia o que fazer. Me afastei um pouco para o lado da cama, com o coração acelerado, e sussurrei: — Suba na cama primeiro. Eu não entendo muito disso, mas ainda é cedo, você pode me dizer o que eu devo fazer.
O olhar de Lucas escureceu e ele engoliu em seco. — ... Tudo bem.
Devido à existência da conexão espiritual, superar o cio não era apenas uma união física, mas também mental. A energia espiritual de Lucas era como um oceano azul profundo: vasto e acolhedor, mas com ondas gigantescas escondidas sob a superfície calma. Minha consciência flutuava em meio a tudo aquilo, até que não consegui mais suportar o impacto das ondas. Com o olhar vago e à beira de um colapso, implorei: — Chega... Lucas, me solte.
Devido ao cansaço extremo da noite anterior, só acordei ao meio-dia do dia seguinte. Lucas já havia preparado o café da manhã e o trouxe para o quarto, dando-me a comida na boca, colher por colher. Os braços do homem estavam firmes e fortes. Embora sua aparência não tivesse mudado, eu sentia que algo estava diferente.
Percebendo minha dúvida, Lucas sorriu levemente e explicou: — Os lobos são diferentes dos outros homens-fera. Antes da maturidade, nossa conexão espiritual é fraca. Mas, uma vez superado o primeiro cio, nosso poder espiritual se multiplica e nossa constituição física melhora drasticamente. Em resumo, agora posso caçar para sustentar você.
O que Lucas não mencionou foi que, agora, ele seria capaz de nocautear aquele leopardo arrogante com um único soco. Assenti pensativa, maravilhada com a natureza peculiar da linhagem dos lobos.
Alguns dias depois, o período de cio de Lucas terminou de forma estável. Mas, ultimamente, ele me lançava olhares furtivos, como se quisesse dizer algo, mas não tivesse coragem. Quando ele demonstrou essa hesitação mais uma vez, eu o chamei.
— O que você quer me dizer?
O lobo balançou a cauda, inquieto. Após um momento de silêncio, ele perguntou apreensivo: — Mestra, quando vamos oficializar nosso contrato? Tenho medo de que você não me queira mais.
9
Passei os últimos dias pensando apenas em como evitá-lo na cama que acabei esquecendo do mais importante. Senti uma ponta de culpa e perguntei: — Que tal irmos hoje à tarde?
Os olhos de Lucas brilharam e sua cauda voltou a balançar com entusiasmo. — Combinado.
Na Federação, firmar um contrato com um homem-fera significa ir ao cartório do governo para obter um documento oficial. Uma vez concluído o processo, a relação passa a ser protegida por lei. No caminho de volta, as orelhas de lobo de Lucas apareceram de tanta felicidade. Ele guardou o contrato como se fosse o tesouro mais precioso junto ao corpo. Olhando para aquele jeito bobo dele, não pude deixar de sorrir também.
Ao levantar a cabeça, dei de cara com minha irmã e Arthur, que estavam saindo para caçar. Arthur estava transformado em um grande leopardo das neves, com Isadora montada em seu dorso. Ao me ver, ela saltou imediatamente e veio em minha direção.
— Bia? O que faz por aqui?
Sorri timidamente e expliquei: — Fui oficializar o contrato com o Lucas.
Minha irmã assentiu e não fez mais perguntas. Conversamos um pouco e, durante todo o tempo, senti um olhar intenso fixado em mim. Mas eu já não me importava. Como precisavam caçar, Isadora não podia demorar. Dez minutos depois, ela montou novamente no leopardo e eles partiram em disparada rumo ao horizonte.
Ao desviar o olhar, percebi que Lucas também havia se transformado em um enorme lobo branco. Ele estava agachado, esperando que eu subisse. — Segure-se firme.
Assim que me acomodei, o lobo branco disparou como uma flecha em direção ao pôr do sol. Ao anoitecer, Lucas já estava de avental na cozinha preparando o jantar. Eu estava sentada no quintal, aproveitando os últimos raios do sol de inverno, até que uma sombra se projetou sobre mim.
Abri os olhos e vi Arthur parado à minha frente, com uma expressão indecifrável. Franzi o cenho: — O que você veio fazer aqui?
Arthur comprimiu os lábios, exibindo uma fragilidade raramente vista. — Bia, eu não deveria ter te desprezado antes. Por favor, me aceite de volta. Não quero mais ser o homem-fera da Isadora. Ela não me trata como um ser humano. Tenho que trabalhar demais, durmo no chão e ela nem se dá ao trabalho de cuidar da minha pelagem.
Não consegui evitar interromper as queixas de Arthur, lembrando-o: — Mas foi você quem insistiu que queria ir para o lado dela. Eu já tenho meu próprio parceiro agora, vá embora. Não quero que ele entenda mal.
Ao perceber minha atitude decidida, o rosto de Arthur mudou de cor várias vezes.