Miguel olhou para o rosto delicado e frágil de Bianca.
Seu coração falhou uma batida.
Ele suavizou a voz:
— Não precisa ser tão formal comigo… se você não se importar, pode ir se recuperar na minha casa.
— Lá é tranquilo, quase ninguém aparece.
Ele hesitou por um instante, desviando o olhar:
— Eu não vou te machucar, nem tenho outras intenções… só quero te ajudar.
Bianca abaixou a cabeça.
Os cílios tremeram levemente.
Aquela aparência—
como um cervo assustado—
era perfeita para despertar o instinto de proteção de qualquer homem.
Ela falou quase em um sussurro:
— Então… vou incomodar o senhor.
Mas, no fundo dos olhos—
um brilho calculista passou.
…
Do outro lado.
Hospital Anhe.
Leonardo estava parado diante do balcão de atendimento.
O rosto tenso.
Fazia dias que ele não via Amélia.
Desde o funeral de Helena—
ela parecia ter desaparecido.
Nem atendia mais o telefone.
Ele parou o Dr. Yang que passava:
— E a Dra. Amélia? Onde ela está?
O Dr. Yang olhou para ele com uma expressão estranha:
— Sr. Tavares? O senhor não sabe?
— A Dra. Amélia está grávida. Há sinais de ameaça de aborto, então ela tirou licença para repouso.
Grávida.
Repouso.
Ela realmente estava esperando o filho de outro homem.
Seu peito parecia corroído por ácido.
Uma dor que queimava até os ossos.
O ciúme explodiu dentro dele—
consumindo toda a razão.
Com os olhos vermelhos, ele agarrou o braço do Dr. Yang:
— Em qual hospital ela está?!
— Hospital Municipal nº 1, ala de obstetrícia VIP, leito 16.
Leonardo soltou a mão—
e correu como um louco para o elevador.
As portas se fecharam lentamente.
No exato instante em que se fecharam—
Miguel empurrava a cadeira de rodas de Bianca pelo corredor oposto.
Os dois passaram um pelo outro.
Sem se ver.
…
Miguel levou Bianca para um apartamento de luxo no centro da cidade.
Colocou-a no sofá.
Serviu um copo de água quente.
— Fique tranquila aqui. Se precisar de alguma coisa, é só me falar.
— Por coincidência, minha prima também é médica.
— Ela acabou de engravidar e está de repouso. Outro dia posso pedir para ela vir ver suas feridas.
Bianca segurou o copo com as duas mãos.
Assentiu docemente:
— Obrigada, Sr. Cheng… sua família é muito gentil.
Miguel sorriu.
Pegou o celular.
E mostrou uma foto.
— Olha, esse é meu primo e minha cunhada. Eles se dão muito bem, minha cunhada é uma pessoa muito gentil.
Bianca se inclinou para ver—
e suas pupilas se contraíram violentamente.
A mulher na foto—
sorrindo feliz, apoiada nos braços do homem—
era Amélia.
E o homem ao lado—
era Daniel.
Então Miguel era primo do lado materno de Daniel.
Que coincidência cruel.
Bianca apertou o copo com força.
Quase perfurando a tela com o olhar.
Amélia.
Por que ela podia viver tão bem?
Tinha um marido que a amava.
Um filho nos braços.
E agora—
outro bebê a caminho.
E ela?
As pernas quebradas.
Perdeu o filho.
Humilhada.
Abandonada como um cachorro numa montanha para morrer.
Por quê?
Por que tudo de bom era dela?
De repente—
um plano venenoso surgiu em sua mente.
Se conseguisse fazer Miguel e Daniel se voltarem um contra o outro—
se destruísse aquela família—
Amélia sofreria.
E muito.
Bianca respirou fundo.
Quando levantou a cabeça—
seus olhos já estavam vermelhos.
Lágrimas caíam em cascata.
— Sr. Cheng…
Ela olhou para ele com expressão frágil:
— Sua família… não vai me desprezar?
— Eu não tenho dinheiro… estou machucada… fui abandonada…
— Uma pessoa como eu… não merece entrar na sua casa, não é?
O coração de Miguel quase se partiu.
Desde o primeiro momento em que a viu—
ele já estava preso.
Agora, vendo-a chorar—
doía ainda mais.
Ele a puxou para um abraço:
— Não diga isso. Minha família é muito aberta, nunca despreza ninguém.
— Para mim, você é a melhor.
— Suas pernas… eu vou mandar tratar.
Bianca se aninhou no peito dele.
Os dedos desenhando círculos leves sobre ele.
A voz suave.
Com um toque de provocação:
— Então… no jantar de família daqui a alguns dias… eu posso ir?
— Quero conhecer sua família… e agradecer pessoalmente à sua prima.
Miguel já estava completamente encantado.
Assentiu imediatamente:
— Claro, eu te levo.
— Vou chamar meu primo e minha cunhada também.
— Vai ser animado.
Bianca encostou a cabeça no peito dele.
Ouvindo o batimento forte do coração.
E lentamente—
um sorriso surgiu em seus lábios.