Talvez percebendo que o ânimo de Lívia não era dos melhores, Bernardo cancelou todos os seus compromissos nos dias seguintes para se dedicar inteiramente a ela.
No dia em que ela recebeu alta do hospital, ele reservou um restaurante exclusivo — o favorito dela — e mandou decorar o salão com uma parede inteira de rosas frescas.
No entanto, quando o carro estava no meio do caminho, o celular dele começou a tocar freneticamente.
Ao ver quem estava ligando, Bernardo pisou no freio bruscamente, parando no acostamento.
Assim que atendeu, uma voz chorosa veio do outro lado: "Bernardo, por favor, me ajuda! O Dr. Ricardo bebeu demais e quer me levar à força, eu... ah!"
A ligação foi cortada abruptamente.
O rosto de Bernardo se contorceu em pura ansiedade.
Sem pensar duas vezes, ele esticou o braço, soltou o cinto de segurança de Lívia e empurrou a porta do lado dela.
— Livi, surgiu uma emergência na empresa. Desça agora e pegue um táxi. Me espere no restaurante, eu vou resolver isso e te encontro lá o mais rápido possível, está bem?
Lívia não se mexeu. Ela apenas ficou em silêncio, encarando-o por um longo tempo.
Mas, nos olhos de Bernardo, só havia confusão e uma pressa evidente. Um amargor subiu pela garganta de Lívia; ela desviou o olhar, sentindo a última centelha de esperança se apagar.
— Bernardo, está chovendo lá fora — disse ela, com a voz desprovida de qualquer emoção.
Ele hesitou por um segundo, e um brilho de culpa atravessou seu olhar, mas ele rapidamente despiu o próprio paletó.
— Tome, use meu paletó. O conselho administrativo está me pressionando, seja uma boa menina, sim?
Dito isso, ele afagou a cabeça dela e, com as mãos, empurrou-a para fora do carro.
A brutalidade do gesto contrastava violentamente com a doçura de suas palavras.
Antes mesmo que Lívia conseguisse se equilibrar no asfalto, Bernardo pisou no acelerador e partiu em alta velocidade, sem notar que ela havia caído no chão com o impacto da partida.
Naquele segundo, a testa de Lívia bateu com força no chão, e a água suja da sarjeta invadiu sua boca.
O paletó de luxo ficou instantaneamente encharcado, assim como o seu coração, que se tornou um bloco de gelo.
Ela levou algum tempo para conseguir se levantar.
Não se deu ao trabalho de pegar o paletó no chão.
O olhar que lançou à peça de roupa era tão vazio e gélido quanto sua alma.
Em dias de chuva, era quase impossível conseguir um transporte. Lívia levou uma hora sob o temporal até chegar ao restaurante.
Como esperado, o lugar estava vazio. Bernardo havia quebrado a promessa.
Com as roupas grudadas ao corpo, ela esperou.
Esperou a chuva parar, esperou a chuva recomeçar, mas o homem que disse que viria nunca apareceu.
Quando o som dos trovões ecoou novamente, ela chamou o garçom.
— Pode servir o jantar.
O garçom hesitou: — Mas o Sr. Bernardo ainda não chegou. Pratos reaquecidos perdem o sabor original.
Os cílios de Lívia tremeram levemente, e um sorriso amargo surgiu em seu rosto: — Ele não vem mais.
Aquele era o seu restaurante favorito, mas a comida naquela noite parecia salgada demais, como se estivesse temperada com suas próprias lágrimas.
Lívia soube, naquele momento, que nunca mais voltaria ali.
Tendo sofrido um aborto recente e ficado sob a chuva, era inevitável que ela ardesse em febre antes mesmo de chegar em casa.
No meio do delírio, sentiu uma mão grande pousar sobre sua testa.
A vulnerabilidade da doença a fez esquecer momentaneamente o que havia descoberto; por instinto, ela agarrou aquela mão, murmurando o nome de Bernardo com uma mágoa profunda.
No dia seguinte, ao abrir os olhos, ela largou a mão imediatamente, mas ouviu apenas uma voz temerosa.
— Senhora, eu a acordei?
Lívia piscou, confusa, e viu a empregada da casa ao seu lado. Seu coração afundou.
— Foi você quem ficou comigo a noite toda? — perguntou ela, com a voz rouca e trêmula.
— Sim, senhora. Não conseguimos falar com o senhor no telefone, e ele não respondeu às mensagens. A senhora não soltava minha mão, então eu não pude sair. Quer que eu tente ligar para ele de novo?
Lívia ia responder, mas as notificações do seu celular começaram a apitar loucamente. Ao abrir as mensagens, percebeu que não seria necessário.
As mensagens vinham de Arthur, mas eram centenas de fotos e vídeos que mostravam a noite frenética de Bernardo e Sthefany.
Eles passaram a noite inteira juntos, do hall de entrada à varanda, em um envolvimento ardente. Bernardo havia esquecido completamente o que prometera a ela.
Lívia teve a certeza de que, mesmo que ela tivesse morrido naquela noite, ele não teria voltado.
Ela olhou apenas uma vez e desligou o aparelho. Fechou os olhos secos e doloridos.
— Não precisa. Apenas busque a encomenda que chegou pelo correio para mim.
Era o acordo de divórcio redigido pelo advogado. Sua partida precisava ser agilizada.
Após assinar o documento, ela foi direto para a empresa de Bernardo.
O que ela não esperava era encontrar Sthefany logo na recepção.