No aeroporto.
Bernardo Silva, vestido com sua túnica preta, chegou apressado ao aeroporto.
O perfil do homem era magro, com traços bem definidos; acima da curvatura perfeita, estavam suas pupilas negras e profundas.
Através daquelas pupilas, um avião cruzava o horizonte na escuridão da noite, piscando com luzes intermitentes.
Ele parou seus passos, como se sentisse algo por instinto.
"Presidente, o avião da Senhora já decolou, nós... chegamos um passo atrasados." Seu secretário particular disse com cautela.
Bernardo manteve os lábios firmemente cerrados até que o avião desaparecesse de sua vista.
"Trair-me... você sabe qual é a consequência?" A voz gélida atingiu o secretário.
"Presidente, isso... foram ordens do Presidente Ricardo, eu..." O secretário tremia, com os dedos inquietos.
Bernardo não disse nada, apenas massageava a manga preta de sua roupa.
"Para a Mansão Silva."
Dito isso, o homem virou-se e partiu, com o olhar gélido.
...
Mansão Silva.
Ricardo Silva estava sentado formalmente na sala de estar; sua bengala batia no chão de mármore produzindo um som seco.
Até que o som parou, e Bernardo Silva chegou exalando uma aura de gelo.
O velho ergueu os olhos para o recém-chegado: "Chegou?"
Bernardo olhou para o próprio avô; era evidente que Ricardo Silva o esperava ali, agindo com total segurança.
Ele estreitou os olhos, seu corpo inteiro emanando uma aura perigosa.
"Para onde você a enviou?"
Ricardo Silva o encarou, com o rosto preenchido pela severidade de um patriarca.
"Onde ela está, já não é mais da sua conta."
Bernardo rangeu os dentes: "Alice Torres ainda é minha esposa."
Ricardo Silva manteve-se firme e, apontando para o acordo de divórcio sobre a mesa, disse lentamente: "Isso foi o que ela deixou; você pode procurar outra Senhora Silva."
Bernardo pegou o acordo com sua mão grande, os olhos gélidos.
Justo quando Ricardo Silva pensou que ele havia aceitado.
No segundo seguinte, o acordo foi rasgado em pedaços pelo homem.
Bernardo agiu com ferocidade; seus olhos estreitos e profundos eram extremamente cortantes em meio aos fragmentos do papel.
"Eu só terei Alice Torres como minha única esposa."
Ao ver o comportamento feroz do neto, o velho permaneceu calmo.
Ricardo Silva franziu o cenho e disse em tom rigoroso: "Certamente. Aos meus olhos, eu também só tenho ela como única neta."
"Você acha que eu quis deixar a Alice partir? Se não fosse por você tê-la levado ao ponto de não conseguir mais viver, ela chegaria a abandonar o próprio filho recém-nascido?!"
"Reflita bem; o sentimento entre um casal não deveria ser como o seu."
Dito isso, Ricardo Silva levantou-se lentamente e saiu apoiado em sua bengala.
Deixando Bernardo Silva sozinho no salão, com uma silhueta solitária.
...
No dia seguinte, no escritório.
O rosto de Bernardo demonstrava um pouco de fadiga; ele tivera uma noite de insônia ontem.
"Ainda não a encontraram?" Ele massageou as têmporas.
"Após o avião pousar em Estocolmo, o paradeiro da Senhora mudou novamente; os rastros agora são incertos", respondeu o secretário com cautela.
Ele não sabia o que passava pela mente do Presidente; teoricamente, por ter traído a confiança dele, deveria ter sido demitido imediatamente, mas agora ele...
"Diga-me, será que eu não deveria tê-la prendido ao meu lado?" Bernardo Silva olhou para ele com pupilas negras, parecendo falar consigo mesmo.
O secretário ficou atônito por um instante; acompanhando o Presidente por tantos anos, ele fora testemunha do sentimento entre o casal.
"Presidente, com todo o respeito, uma pessoa normal que passou por tanto sofrimento dificilmente permaneceria sobre a cicatriz, quanto mais..."
"Quanto mais o quê?" O olhar afiado do homem fixou-se nele.
O secretário respondeu rigidamente: "Quanto mais a Senhora, que é uma pessoa tão determinada e forte."
Com essas palavras, Bernardo baixou o braço com certa desolação.
Ele já previra que ela partiria, mas ele não conseguia aceitar...
O confinamento dele era doloroso para ela, não era? A ponto de ela nem querer mais viver.
Como quando ele perguntou — se ele e o Felipe tivessem que morrer, quem ela escolheria.
Ela disse que mataria a si mesma.
Por isso, após a morte de Felipe, ele não tinha mais nenhum trunfo para ameaçá-la.
Ao pensar naquele rosto pálido de Alice Torres que vira tantas vezes, o coração de Bernardo doía de agonia.
Nestes dias, ele começara a encarar gradualmente seus sentimentos por ela.
Mas ela já o havia descartado.
...
Tarde da noite, no quarto.
Bernardo Silva insistia em ligar para Alice Torres, uma vez atrás da outra.
Mas a resposta era sempre a voz gélida da gravação no telefone.
Ele observava em silêncio a decoração familiar do quarto, como se ela ainda não tivesse partido.
Enterrou o rosto no travesseiro, inalando com nostalgia o aroma remanescente dela para conseguir dormir.
De agora em diante, não haveria ninguém para preparar seu chá ou sua sopa, nem para se preocupar com ele.
A desolação, a solidão e o remorso tornaram-se a dor mais profunda no coração do homem.