A noite se tornava mais profunda, e a luz fluorescente da vila ficava cada vez mais ofuscante.
Bernardo Silva olhou friamente e disse com indiferença: "Felipe, pense bem no porquê de você ter encontrado a Camila Lins justamente no País M, em meio à guerra."
"Se a Camila fosse realmente alguém importante para mim, eu a manteria sob minha vigilância direta."
Felipe ficou atônito por um instante, lançando um olhar aguçado para Bernardo.
"Essas suas desculpas são apenas para me convencer a libertar a Camila."
Dizendo isso, sua voz tornou-se grave e seu olhar profundo: "Mas eu não vou soltá-la, e muito menos permitir que a Alice continue sofrendo ao seu lado."
Com essas palavras, ele pressionou a lâmina com mais força; Camila Lins soltou um som de súplica.
Olhei para o homem de rosto rígido ao meu lado, com os olhos trêmulos.
Entre eu e Camila Lins, nem era preciso pensar em como Bernardo Silva escolheria.
Afinal, eu vi com meus próprios olhos a ternura que ele dedicava a ela.
Bernardo não respondeu a Felipe; apenas olhou para mim com o rosto sombrio.
"Alice Torres, o Felipe é capaz de chegar a esse ponto por você, e você ainda ousa dizer que não há nada entre vocês?"
Sua voz era tão gélida que fez meu corpo tremer; parecia-se com seus inúmeros interrogatórios de outrora.
Olhei para ele, estupefata. Felipe e eu somos amigos há mais de dez anos, somos companheiros de vida e morte.
"Bernardo Silva, vou dizer mais uma vez: eu e o Felipe somos amigos há mais de dez anos, absolutamente não—"
"Não?"
Os olhos negros e profundos do homem fixaram-se em mim, cheios de opressão: "Alice Torres, minha paciência tem limites."
O ar pareceu congelar naquele exato momento.
Após um tempo, Felipe levantou-se lentamente e encarou Bernardo Silva.
Ele respirou fundo, como se tivesse tomado uma grande decisão, e finalmente falou com a voz fria:
"Bernardo Silva, com que direito você a coage? Eu amo a Alice, sim, mas ela não sabe de nada."
"Eu a amo desde que éramos muito pequenos, mas essa boba resolveu amar você, e por você ela estava disposta a entregar a própria vida!"
Ele olhou para mim, e seu olhar tornou-se instantaneamente terno: "Eu não tive coragem de confessar meus sentimentos, só pude esconder esse amor no coração, porque, se o fizesse, perderia até o direito de estar ao lado dela."
"E você, Bernardo Silva, por que teria o direito de ocupar tão facilmente toda a alegria dela?!"
O olhar de Felipe tornou-se gradualmente gélido, e a atmosfera do salão ficava mais tensa a cada palavra proferida.
"Bernardo Silva, você não pode dar felicidade à Alice, você está apenas aprisionando-a—"
"Chega."
Eu não queria mais ouvir; as cicatrizes do passado e o segredo de um amigo de longa data foram expostos.
Olhei para o Felipe, com o rosto banhado em lágrimas de dor.
Eu nunca soube dos sentimentos reais de Felipe por mim.
Até agora, eu não tinha coragem alguma para enfrentar tudo o que surgira tão de repente.
Após um momento, olhei para o homem ao meu lado, com a voz embargada: "Bernardo Silva, você me trouxe aqui só para eu ouvir isso?"
"Se este é o próximo nível de tortura que você preparou para mim, saiba que está doendo muito."
"Você conseguiu, porque agora eu sinto uma vontade imensa de morrer junto com o seu filho."
A cada palavra dita, meu coração morria um pouco mais de dor.
Bernardo olhou para mim com olhos negros carregados de fúria e palavras gélidas: "Você se atreveria?"
Felipe observava nossa conversa com as sobrancelhas franzidas: "Bernardo Silva, tome logo uma decisão. Você tem que escolher entre a Camila Lins e a Alice—".
Antes que ele terminasse de falar, ouviu-se o som de uma lâmina penetrando na carne.
Camila Lins finalmente havia soltado as cordas que a prendiam; ela cravou a faca que escondia no coração de Felipe.
Com o rosto sujo e lamentável, ela olhou para Bernardo Silva e sorriu: "Bernardo, eu escolho por você. Não fique mais zangado comigo, está bem?"