Capítulo 22
Gustavo reprimiu a fúria que transbordava em seu peito e baixou o tom de voz, ameaçador:
— Bento, escute bem: mesmo que a Cecília não me perdoe, nesta vida, nunca chegará a sua vez. Entendeu?
Por mais que Bento tivesse um temperamento controlado, naquele momento ele chegou ao seu limite.
— Sr. Gouveia, se o senhor realmente quer reconquistar a senhorita, é melhor abaixar esse seu nariz empinado. Em Hong Kong, todos te bajulam, mas aqui é a América. E eu não tinha medo do senhor antes, e não tenho agora.
As veias saltavam em seus braços fortes, revelando uma ameaça implícita.
— Eu sou o guarda-costas dela. Não permitirei que ninguém a machuque novamente.
Gustavo o encarou com frieza, sem qualquer sinal de recuo.
— Pois eu te digo o seguinte: enquanto eu estiver aqui, você jamais voltará para o lado dela.
Ele estendeu a mão: — Entregue o pen drive. E se nos virmos de novo, meça suas palavras.
Bento desconectou o dispositivo, jogou-o na palma da mão de Gustavo e levantou-se para sair.
— Boa sorte, Sr. Gouveia. Vai precisar.
Gustavo ficou para trás, manuseando o pequeno objeto de metal com o semblante sombrio. Em seguida, guardou o pen drive, pegou o celular e ligou para o seu assistente executivo.
— Resolva uma coisa: vigie a Beatriz Cavalcante de perto. Se ela causar mais algum problema, mande-a diretamente para o Hospital Castle Peak.
O Hospital Castle Peak é a instituição psiquiátrica mais famosa de Hong Kong, conhecida por receber internações compulsórias.
Ao desligar, Gustavo olhou para a foto de Cecília cantando no palco, que servia de papel de parede em seu celular, e soltou um longo suspiro. Ele traçou o contorno do perfil dela na tela com o dedo, sentindo uma mágoa infinita.
— Cecília... o que eu preciso fazer para você me perdoar?
...
Enquanto isso, no Museu da Pensilvânia.
Cecília teve um breve encontro com alguns amigos chineses, trocou presentes e depois passou a caminhar sozinha pelas galerias. De repente, seu celular começou a vibrar insistentemente.
O visor mostrava um número desconhecido da China. Ela mantinha dois chips no aparelho, mas, tecnicamente, ninguém deveria saber o seu novo número brasileiro/chinês. Ela deixou a chamada cair várias vezes, mas a pessoa do outro lado era persistente.
Cecília franziu a testa e saiu do museu para atender.
— Alô? Quem fala?
Houve um silêncio de alguns segundos. Logo em seguida, a voz rouca de Helena soou do outro lado:
— Cecília... é você mesma? Como você pode ser tão cruel?
Ao ouvir aquela voz familiar, que parecia ter envelhecido dez anos, Cecília sentiu um misto de emoções complexas. Sem saber como responder à mãe, ela permaneceu em silêncio.
Helena continuou:
— Eu sei que errei com você todos esses anos, mas a Bia é sua irmã de sangue! Você tem coragem de ficar parada vendo ela ser levada ao desespero, querendo morrer? Como seu coração pode ser tão frio a ponto de ignorar os laços de família?
Ao ouvir aquilo, Cecília sentiu-se exausta e indignada.
— Eu fui ingênua. Achei que você realmente tivesse percebido o quanto eu sofri e se lembrado de que também é minha mãe. Achei que fosse por isso que estava ligando... mas, como sempre, é apenas pela Beatriz.
— Dona Helena — ela voltou a usar o tratamento formal e distante. — Você realmente não sente nem um pouco de pena de mim? Nem um pingo de culpa? Ontem, ouvi o Gustavo falando com a Beatriz. Até ele disse que a Beatriz tem tudo: o seu amor, o amor do papai, uma vida luxuosa... Foi a inveja dela que destruiu todas as chances que ela teve. Eu não fiz nada de errado.
— Dona Helena, eu não entendo. O que eu fiz para pressionar a Beatriz? Fiz tudo o que vocês pediram, dei todos os meus recursos para ela. Eu dei até vocês para ela! Eu saí da família, cortei os laços, tudo para abrir espaço para vocês três serem felizes!
Cecília perdeu o controle das emoções. Ela desabou.
— Eu até me aposentei e fugi para os Estados Unidos! O que mais eu devo a vocês? Onde foi que eu falhei com vocês?