Capítulo 21
Cecília soltou uma risada de escárnio e, sem hesitar, desvencilhou-se da mão de Bento. Ela se virou, e seus olhos faiscaram com um brilho gélido.
— O que te faz pensar que eu aceitaria de volta um vira-lata que me traiu?
Ela tocou o peito de Bento com a ponta do dedo, de forma incisiva.
— Repita o que eu te disse naquele dia.
O rosto de Bento empalideceu; ele parecia prestes a desmoronar. Ele cerrou os dentes e respondeu:
— A senhorita disse que... deslealdade uma vez significa inutilidade para sempre. E que nunca mais me quereria por perto.
Cecília assentiu com um ar de aprovação.
— Pelo menos sua memória ainda funciona. Agora, não me persiga mais, ou eu chamarei a polícia.
Dito isso, ela caminhou direto para um Porsche Cayenne estacionado à beira da estrada. Bento observou outro homem, impecavelmente vestido de terno, abrir a porta para Cecília e protegê-la enquanto ela se acomodava no banco de trás.
Ele sentiu uma dor lancinante no peito. Seus punhos se fecharam com força, e seus olhos transbordavam agonia e frustração. Desta vez, Bento quis correr atrás do carro, mas Cecília não lhe deu a menor chance.
Enquanto isso, dentro do veículo.
Cecília olhava com certo desdém para Gustavo, que tentava ao máximo diminuir sua presença no banco ao lado.
— De que adianta se fingir de invisível agora? Se você tivesse levado a sério o que eu disse, já teria saído deste carro.
Ao ouvir isso, Gustavo imediatamente se empertigou. Ele fez uma expressão lamentável:
— Eu só queria passar mais tempo com você.
Cecília sentiu uma dor de cabeça latejante. Ela disse de forma cruel:
— Já que você se recusa a me ouvir, nossa "relação" acaba aqui.
Gustavo estancou. Então, como se tivesse tomado uma decisão drástica, ele abriu a porta do carro.
— Eu vou. Prometo que não cometerei esse erro novamente.
Cecília fechou os olhos, recusando-se a olhar para ele.
— Hum.
A porta foi fechada com suavidade. No banco da frente, o motorista perguntou em um inglês fluente:
— Senhorita Cavalcante, vamos direto para casa?
Cecília respondeu: — Não, vá para o Museu da Pensilvânia. Tenho um encontro marcado.
— Sim, senhorita.
O Porsche Cayenne deu partida, deixando Gustavo e Bento para trás, um de cada lado da calçada. Ambos observaram o carro se afastar até desaparecer de vista.
— Sr. Gouveia, precisamos conversar — Bento tomou a iniciativa de caminhar até Gustavo, com o semblante rígido.
Gustavo, igualmente hostil, respondeu friamente:
— O que um guarda-costas demitido teria a tratar comigo?
Atingido em sua ferida aberta, Bento travou o maxilar. Ele retirou um pequeno pen drive do bolso:
— A Senhorita Beatriz me pediu para entregar isso ao senhor. Ela disse que o conteúdo seria do seu interesse.
Gustavo franziu a testa, mas não perdeu a chance de tripudiar:
— No fim das contas, você atravessou o oceano apenas para servir à sua dona. Não é de admirar que a Cecília sinta náuseas só de olhar para você.
Bento, vendo que Gustavo estava coberto de ferimentos, apenas conteve a paciência.
— Isso é entre mim e a senhorita. Não é da sua conta. — Ele acrescentou: — Se o senhor não quiser ver ou conversar, levarei este pen drive diretamente para ela.
O coração de Gustavo deu um salto. Ele foi obrigado a descer de seu pedestal.
— Escolha um café qualquer. Diga o que tem a dizer e seja rápido!
Vinte minutos depois, no Café Liberty Realm.
Bento abriu seu notebook ultrafino e inseriu o dispositivo. Na tela, surgiu Beatriz agindo de forma sorrateira, posicionando uma câmera e tirando várias fotos com um Gustavo adormecido. Depois, a tela escureceu e mudou.
Eram cenas daquela noite no Lan Kwai Fong, quando Gustavo, sob o efeito do álcool, beijava Beatriz com paixão.
Ao ver aquilo, o rosto de Gustavo escureceu completamente. Ele encarou Bento:
— O que a Beatriz quer com isso? Qual é o plano dela?
Bento fechou o notebook sem pressa.
— Eu não sei. Afinal, não sou mais responsável pela segurança dela. Se o Sr. Gouveia quiser entender o que está acontecendo, deveria voltar para casa e resolver isso pessoalmente com a Senhorita Beatriz.
Gustavo soltou uma risada sarcástica.
— Você quer que eu volte para que o caminho fique livre para você se aproximar da Cecília, não é? Não ache que eu não percebi suas intenções com ela.
Ele usou um tom sombrio e ameaçador:
— Há oito anos, eu já não suportava você como aquele guarda-costas que ficava disponível 24 horas por dia ao lado dela!