Capítulo 20
Cecília quebrou o silêncio primeiro:
— Era a Beatriz na ligação?
— Sim. — Gustavo olhou para Cecília, sua expressão suavizando um pouco. Ele acrescentou: — Não se preocupe, ela está em uma situação deplorável agora, não terá mais forças para te aborrecer.
Seus olhos se encontraram, mas o olhar de Cecília era gélido.
— Você já parou para pensar que eu e a Beatriz vivemos em paz por muitos anos? Se não fosse por você, ela nunca teria conseguido me atingir. Foi a facilidade com que você a escolheu que mais me machucou.
Ela esboçou um sorriso amargo.
— Gustavo, se você continuar achando que o problema entre nós era a Beatriz, está redondamente enganado. O culpado por chegarmos a este ponto, do início ao fim, é você.
Gustavo estancou, sentindo como se uma mão invisível estivesse esmagando seu coração. Uma dor aguda o atravessou. Naquele instante, ele compreendeu a profundidade da ferida incurável que existia entre ele e Cecília. Ele abriu a boca para falar, mas sentiu que qualquer palavra soaria vazia.
Cecília, parecendo notar o seu embaraço, disse calmamente:
— O jantar está pronto. Venha comer.
Dito isso, ela se virou e caminhou em direção à sala de jantar. A refeição transcorreu em um silêncio absoluto. Ao terminar, Gustavo insistiu em lavar a louça, e Cecília não recusou.
O som da água corrente voltou a ecoar, acompanhado desta vez pelo tilintar de pratos e talheres. Quando foi que o "Príncipe Herdeiro" Gustavo Gouveia fez algum trabalho braçal? Em um momento de distração, ele quase quebrou uma tigela e lascou um prato.
Cecília fingia não ouvir, limitando-se a um lembrete frio enquanto Gustavo suava frio de nervosismo:
— Se você não consegue fazer nem o básico, será muito difícil ser um amante competente.
Gustavo limpou o suor da testa com a mão ilesa e disse com a voz rouca:
— Eu vou aprender. Por favor... não me descarte.
— Hum.
Cecília apenas murmurou uma resposta e caminhou para o quarto. Antes de entrar, deixou um aviso:
— Quando terminar de lavar tudo, pode ir embora. Não quero te ver aqui amanhã de manhã.
— Eu estou todo machucado e você ainda vai me expulsar? — Gustavo perguntou, incrédulo.
Cecília virou-se para ele: — Pessoas feridas devem ir ao hospital. — E acrescentou: — A propósito, chamei um médico para você hoje. Vou te enviar a conta depois; certifique-se de me pagar.
Gustavo ficou sem palavras. Cecília, então, deu um sorriso radiante.
— De agora em diante, é melhor mantermos as coisas bem separadas entre "amantes". Você dorme comigo, eu te pago, mas não misture sentimentos.
BUM!
Ela fechou a porta do quarto.
Gustavo ficou parado no lugar, chegando a soltar uma risada irônica de pura frustração.
Sem ter o que fazer, terminou de organizar a cozinha e, apoiado em suas muletas, mancou para fora do apartamento. Antes de sair, olhou para a porta fechada e jurou para si mesmo:
— Cecília, um dia eu farei você se apaixonar por mim novamente.
Na manhã seguinte.
Cecília foi direto para o Instituto Curtis de Música. Passou o dia inteiro entre aulas e a biblioteca, sem tempo sequer para olhar o celular. Quando o sol começou a se pôr e os tons rosados cobriram o horizonte, ela se espreguiçou e saiu da biblioteca.
No entanto, diante da entrada, ela encontrou alguém totalmente inesperado:
— Seu antigo guarda-costas, Bento.
Bento vestia um sobretudo preto e parecia exausto da viagem. Seu pomo de Adão se moveu e seus olhos carregavam uma saudade indescritível.
— Senhorita.
O rosto de Cecília esfriou instantaneamente. Ela passou direto por ele, ignorando sua presença.
— Não me importa como me encontrou, mas eu não tenho mais nada a ver com você ou com a família Cavalcante.
Ao ouvir isso, Bento tomou a atitude mais audaciosa de sua carreira: ele segurou firmemente o pulso fino de Cecília.
— Senhorita, eu errei no passado. Depois que você se aposentou e desapareceu, eu não parei de me preocupar por um segundo.
Ele fez uma pausa, com a voz carregada de humildade:
— Eu só peço que me dê mais uma chance. Meu único desejo nesta vida é permanecer ao seu lado.