Capítulo 5
Mesmo com o aquecedor do carro ligado, Cecília ainda sentia um frio persistente.
Ela não conseguiu evitar e perguntou ao seu guarda-costas, Samuel:
— Por que você acha que todo mundo ama a Beatriz?
Seus pais amarem apenas a Bia, ela já aceitara.
Mas até Gustavo, com quem esteve por oito anos, apaixonou-se pela irmã logo após conhecê-la. E agora, até as fãs dele seguiam pelo mesmo caminho...
Samuel respondeu com a voz calma:
— Senhorita, cada pessoa tem suas virtudes e defeitos. É impossível ser amado por todos. Mas com certeza existem pessoas que amam você.
Alguém que a amasse? Cecília olhou fixamente para Samuel.
— E você? Você gosta de mim?
Nesse momento, Samuel mergulhou no silêncio. Ele fora escolhido por Cecília quando ela tinha dezesseis anos e a acompanhava há uma década. Estava ao lado dela há mais tempo que o próprio Gustavo. Mas parecia que nem ele gostava dela de verdade...
Cecília soltou um riso amargo.
— Esqueça. Não precisa responder. Gostar ou não, já não faz mais diferença.
De agora em diante, ela decidira que amaria a si mesma.
Meia hora depois, na mansão da Mount Kellett Road. Assim que Cecília desceu do carro, viu a silhueta alta de Gustavo parada à porta.
— Ficou brava pelo que ouviu eles dizerem? — Ele a envolveu em um abraço. — Eu faço tudo pelo seu bem. Estamos juntos há tanto tempo, é de você que eu mais gosto.
Cecília sentiu apenas o gosto da ironia; um canto de seu coração desmoronou completamente. Gustavo inclinou-se e a beijou. Cecília estacou por um segundo e, ao recuperar os sentidos, empurrou-o com força.
Gustavo, achando que era apenas mais uma crise de ciúmes, tentou acalmá-la com voz doce:
— Ceci, vou comprar uma ilha para você. A mansão na baía também será sua. Se quer tanto se apresentar no estádio, vou falar com a empresária para marcarmos um show extra só para nós dois.
Cecília ouvia tudo aquilo sem que seu coração desse um único salto.
— Não precisa.
Antigamente, Cecília era fácil de agradar. Mas ultimamente, Gustavo sentia que algo nela estava diferente. Ele insistiu com paciência:
— Pedi ao meu assistente para comprar passagens. Amanhã vou te levar para o sul da França. Você não dizia o tempo todo que queria ver os campos de lavanda?
Cecília paralisou. Nos últimos oito anos, ela pedira inúmeras vezes para irem à França juntos. Ele sempre recusava, dizendo que a banda estava em ascensão. Agora que ela decidira ir sozinha, ele subitamente se lembrava disso.
— Eu não quero mais ir. Se você quer tanto, leve outra pessoa.
Gustavo franziu a testa, soando resignado.
— Quem mais eu levaria? Você sabe que não gosto dessas celebridades vulgares do meio artístico. Eu tenho nojo de sujeira.
Cecília o observou com um sentimento complexo. Ele já dissera várias vezes que gostava dela por ser "limpa" e "ajuizada". Por um impulso inexplicável, ela deixou escapar:
— Gustavo... e se um dia eu não for mais "limpa"?
Um brilho de repulsa passou rapidamente pelos olhos de Gustavo, mas logo ele acariciou a cabeça dela.
— Como isso seria possível? Além de mim, por quem mais você sentiria um impulso físico? Com quem mais você iria para a cama?
Cecília olhou para aquele rosto perfeito e balançou a cabeça.
— No momento, ninguém. Mas isso não significa que nunca haverá alguém.
Dito isso, antes que ele pudesse reagir, ela entrou na mansão e trancou a porta. Naquela noite, Cecília teve muitos sonhos. Sonhou que, aos oito anos, no divórcio dos pais, ela não escolhera ninguém e ficara sozinha com a avó. Sonhou que, aos dezoito, não formara a Wildfire com Gustavo, seguindo carreira solo. Era uma vida completamente diferente da atual.
...
Na manhã seguinte, Cecília saiu da casa e Samuel a informou:
— Senhorita, a Dona Helena pediu para eu levá-la ao Hotel Peninsula.
Cecília estranhou. O que Helena queria com ela? Meia hora depois, no hotel, ao abrir a porta da sala reservada, ela ouviu as vozes de Beatriz e de seus pais vindas de trás de um biombo.
— Pai, Mãe, não se preocupem. O Gustavo gosta de mim. Enquanto ele estiver por perto, ninguém vai me fazer sofrer.
A voz de Helena ecoou em seguida:
— Eu sei, querida, mas me preocupo com a sua irmã. O temperamento da Cecília é muito isolado. Eu a criei todos esses anos, mas nunca senti que tivéssemos intimidade...
Ricardo completou:
— Da última vez que vi a Cecília, ela nem me chamou de pai. Ficou claro que ela não tem nenhum senso de família ou laço de sangue. Para ser sincero, mesmo que eu leve a Bia comigo, não quero a Cecília morando no exterior conosco. Meu laço de pai e filha com ela rompeu há dezoito anos.
Ouvindo aquelas palavras, Cecília sentiu seu coração, já anestesiado, ser rasgado novamente em uma ferida viva. Dizem que as palavras das pessoas mais próximas são as que mais machucam. Sem expressão, ela contornou o biombo.
Lá estavam eles: os pais que um dia brigaram ferozmente, agora sentados lado a lado. Beatriz estava entre eles, com os braços entrelaçados nos dois, em uma cena de pura cumplicidade.
— Irmã, você chegou! Sente-se — convidou Beatriz, sem demonstrar qualquer constrangimento.
Cecília controlou a respiração e falou friamente:
— Digam logo o que querem. Não quero perder meu tempo.
Ao ouvirem isso, os pais franziram o cenho simultaneamente. Helena segurou a mão de Beatriz e a colocou sobre a mão de Ricardo.
— Cecília, chamei você aqui para anunciar algo. — Os olhos dela transbordavam amor pela caçula.
— Seu pai e eu decidimos nos casar novamente pela Bia.