Capítulo 2
Cecília entrou no carro e seguiu para a mansão no número 12 da Mount Kellett Road. O celular vibrou; era sua mãe, Helena. Cecília atendeu e ouviu um suspiro do outro lado, carregado de uma falsa resignação.
— Cecília, a Bia é sua irmã de sangue. Durante todos esses anos, eu estive ao seu lado, cuidando de você, enquanto ela sofreu muito com o seu pai. Agora, eu só quero trazê-la para perto, compensar o amor materno que ela não teve e deixar que ela desfrute da vida de uma verdadeira herdeira.
— Você sempre foi uma menina compreensiva. Você entende a mamãe, não entende?
Pela janela de vidro que ia do chão ao teto, o espetáculo de luzes e música da baía começava pontualmente às oito da noite. Cecília começou a falar lentamente.
— Então, quer dizer que fui eu quem desfrutou de toda a riqueza e privilégio? — Ela observou as luzes etéreas à distância e murmurou: — Eu quase tinha esquecido de quando morávamos naquela quitinete úmida e cheia de goteiras na favela.
Quando ela tinha oito anos e seus pais se separaram, o tribunal decidiu que cada um ficaria com uma filha.
Os dois brigaram ferozmente pela guarda de Beatriz.
No fim, a pequena Bia, então com sete anos, escolheu voluntariamente ficar com o pai, que já tinha um pequeno sucesso nos negócios na época.
Na porta do tribunal, Helena chorava desoladamente.
A jovem Cecília segurou a mão da mãe, em um gesto de consolo e promessa.
— Mamãe, não chore. Eu vou com você. Eu vou cuidar da senhora de agora em diante.
Depois disso, Helena e Cecília começaram a vender sopa de arroz em uma barraca de rua.
Quando Cecília completou dezoito anos, aquela pequena barraca havia se transformado em uma rede de restaurantes de luxo com filiais nos bairros mais caros da cidade. E o nome da rede era "Lembranças de Bia".
Naquele dia, Helena bebeu muito, alternando entre risos e lágrimas enquanto abraçava Cecília.
— Cecília, você tem noção? Finalmente tenho condições de trazer minha filha amada, a Bia, para perto de mim!
Helena tirou do cofre vários álbuns de fotos grossos. Eram todos flagras que ela havia tirado de Beatriz ao longo dos anos, sem que a menina soubesse.
— Todos esses anos, eu sonhei acordada com o dia em que nos reuniríamos. Só assim a nossa casa será um lar de verdade — balbuciou Helena.
Cecília cuidou dela até a madrugada, exausta e suada. Olhando para aqueles álbuns repletos de registros de Beatriz, ela percebeu subitamente que Helena nunca tinha tomado a iniciativa de tirar uma única foto sua.
Foi a partir daquele dia que ela parou de chamar Helena de "mãe" e passou a chamá-la de "Dona Helena". Sua mãe, contudo, sempre acreditou que aquilo era apenas uma fase de rebeldia...
Do outro lado da linha, houve alguns segundos de silêncio. Helena parecia culpada.
— Cecília, me perdoe, eu...
— Não precisa se desculpar. Eu sei que eu não sou a escolha certa — Cecília desligou o telefone.
De qualquer forma, ela sempre seria a que não era escolhida, a que sobrava. Ela já estava acostumada. Naquela noite, observando o brilho das águas da baía, Cecília não conseguiu pregar o olho.
...
No dia seguinte, Cecília acordou cedo. Era o dia do primeiro show da Banda Wildfire no Estádio da Colina.
Oito anos atrás, quando lançaram o primeiro álbum e ganharam o prêmio de revelação, Cecília, Gustavo e os outros três colegas de banda subiram ao observatório da cidade e fizeram um juramento.
— Um dia, a Wildfire estará no santuário da música, o grande estádio, cantando nossas próprias canções!
Agora, o desejo deles estava prestes a se realizar, mas ela estava prestes a partir. Por isso, decidiu que o show seria sua despedida oficial dos fãs e dos companheiros.
Meia hora depois, no estádio, Cecília entrou e viu os colegas mexendo em instrumentos novos e caríssimos. A bateria do baterista era uma edição banhada a ouro, avaliada em milhares de reais. A guitarra do guitarrista era o modelo mais recente da Gibson, com uma correia personalizada de grife.
No palco, Gustavo usava roupas casuais que realçavam suas feições marcantes e sua aura superior. Beatriz estava ao lado dele, parecendo pequena e delicada, conversando animadamente. Assim que viram Cecília, os dois se aproximaram.
Gustavo falou com indiferença:
— No show de hoje, a Bia vai substituir você no palco.
Beatriz deu um sorriso doce:
— Irmã, por favor, me dê algumas dicas, está bem?
Cecília franziu a testa.
— Por quê? OITO anos atrás não combinamos que estaríamos juntos aqui, cantando a música do nosso primeiro prêmio?
A expressão de Gustavo era serena.
— A Bia é a segunda vocalista e quer se apresentar. Além disso, sua voz não está nas melhores condições para aguentar uma noite inteira de show.
Ao ouvir isso, Cecília olhou para os outros três colegas. O tecladista, que era o mais próximo dela, comentou:
— Ceci, teremos outros shows aqui no futuro. Deixe a Bia brilhar hoje.
Os outros dois concordaram.
— É verdade. Veja só, a Bia até nos deu equipamentos novos. Ela como vocalista principal hoje certamente não vai te fazer passar vergonha.
Cecília soltou uma risada amarga. Então, bastavam alguns instrumentos caros para que oito anos de amizade e companheirismo desmoronassem em um instante.
Ela olhou novamente para Gustavo. Dos dezoito aos vinte e seis anos, ela viveu intensamente cada dia ao lado dele por oito anos. No entanto, isso não pesava nada comparado ao único mês em que ele conhecia Beatriz.
Sob o olhar de todos, Cecília assentiu.
— Tudo bem. Eu entendi.
Durante todo o dia, Cecília ficou sentada nos degraus da saída de emergência, ouvindo silenciosamente o burburinho crescente do público no estádio.
Às 19:30, o show começou oficialmente. Ela ouviu, por trás das portas, o prelúdio de "Fogo do Coração", a primeira música da carreira da Wildfire. Em seguida, uma voz feminina límpida e suave começou a cantar:
"De todas as pessoas, você é a única que eu escolhi amar..."
Ao ouvir o canto de Beatriz, Cecília ficou paralisada.
Aquela voz era idêntica à sua própria voz de quando tinha dezoito anos!