O dia da cirurgia.
Antes de Aurora ser levada para a sala de cirurgia, Heitor segurou sua mão com força, relutante em soltá-la.
— Não tenha medo, Aurora. Pense nisso como um sono; quando acordar, você verá o seu tio.
Embora a voz de Heitor soasse calma, a mão que segurava a de Aurora não parava de tremer.
Aurora conseguia sentir o quanto ele temia perdê-la. Vendo o estado de pânico dele, ela brincou para descontrair: — Tio, sou eu quem vai ser operada, mas você parece estar com mais medo do que eu.
A voz de Heitor embargou subitamente e ele balançou a cabeça: — Não... vai ficar tudo bem.
Após se despedir de todos ao redor, Aurora foi levada para dentro. A porta da sala de cirurgia se fechou e a luz indicando "Em Cirurgia" acendeu no topo.
Heitor cerrou os punhos e perguntou, inquieto: — Quanto tempo vai durar a cirurgia?
— De três a quatro horas. — O secretário monitorava o estado de Heitor, mantendo as mãos ao lado do corpo, pronto para ampará-lo a qualquer momento, já que ele não descansava há várias noites.
Heitor engoliu o amargor na garganta e proferiu com esforço: — Vamos ao templo.
O secretário hesitou por um instante: — Sr. Heitor, no seu estado atual... o senhor deveria descansar.
Heitor engoliu em seco e repetiu: — Vamos ao templo.
Em menos de meia hora, Heitor chegou a um dos templos que visitara nos últimos dias. Ele repetiu seus rituais habituais: acender incenso, ajoelhar-se, fazer seus pedidos... e, por fim, a prostração.
Ao levantar-se para partir, um velho monge o chamou: — Senhor, por favor, espere.
Ele estava acompanhado por um jovem monge. O velho monge entoou um "Amituofo" e continuou: — Seus desejos terão um bom resultado, mas, quanto a certas obsessões, o senhor deve deixá-las ir. Insistir no impossível trará apenas frutos amargos para si mesmo.
Heitor parou por um momento, mas logo compreendeu: — Obrigado, mestre. Eu entendo, mas confio apenas em mim mesmo.
Enquanto desciam a montanha, o secretário dirigia à frente. Heitor segurava o cordão de oração, ainda rezando por Aurora em seu íntimo. De repente, uma van cinza-escura avançou contra o carro deles. O secretário virou o volante bruscamente para desviar, mas o veículo foi atingido violentamente por outro carro que vinha por trás. Sob o impacto colossal, ambos os ocupantes perderam os sentidos.
Um grupo de homens desceu das duas vans. Eles portavam bastões de ferro cravejados de pregos e avançaram contra o carro, golpeando repetidamente o lado onde Heitor estava. Após dezenas de pancadas, o vidro da janela estilhaçou-se. A porta foi aberta e os bastões de ferro caíram sobre o corpo de Heitor, parando apenas quando um carro que passava buzinou, dispersando os agressores.
Acordado pelo som da buzina, o secretário viu o carro coberto de estilhaços e Heitor ensanguentado, entrando em desespero total. — Sr. Heitor... como o senhor está?
O secretário não estava ferido, mas estava preso nas ferragens do banco do motorista e não conseguia sair. — Sr. Heitor, não se mexa! Eu chamei a ambulância, eles chegarão logo.
— A cirurgia... o tempo... — Heitor perguntou atordoado — quanto falta...
— Meia hora.
— Meia hora... cof... — Heitor tossiu sangue, lutando para rastejar para fora do assento. Ele cambaleou até a estrada e estendeu a mão para parar um carro: — Preciso ir... ao Hospital Charité...
— O tempo está acabando...
— A visão de Heitor foi coberta por uma cortina de sangue, tornando tudo vermelho ao seu redor.
O silêncio era assustador, e ele só conseguia ouvir sua própria respiração cada vez mais pesada.
Seu corpo tornava-se cada vez mais denso:
— Aurora, o tio chegará logo... não tenha medo...