Na manhã seguinte.
Aurora sentou-se em silêncio na cama, observando o quarto onde estava. Ela não se lembrava de que lugar era aquele, nem sabia por que estava ali.
Encontrou o celular e, ao desbloqueá-lo, viu um aplicativo de cor vibrante na primeira página.
Chamava-se 【Diário da Aurora】.
Ao redor dele, havia um lembrete em letras vermelhas no papel de parede:
【Se você esquecer de algo, não deixe de abrir e ler isto!!】
Aurora abriu o aplicativo. Nele, estavam registradas todas as suas informações: nome, aniversário, situação familiar e suas experiências de mais de vinte anos.
Ela se chamava Aurora, fazia aniversário em dezoito de junho...
Além disso, havia menção ao seu único parente atual, seu tio Heitor. Fora isso, constavam o nome de seu médico assistente, Dr. Marcus, e o fato de que ela faria uma cirurgia de câncer cerebral.
Aurora encontrou o número do Dr. Marcus e ligou para ele.
— Dr. Marcus, aqui é a Aurora. Eu esqueci de absolutamente tudo agora. O senhor pode me ajudar?
— Aurora, primeiro não entre em pânico. Vou pedir para o Lucas te trazer ao hospital. O Lucas é meu sobrinho, você pode confiar nele; há registros sobre ele no seu diário.
Aurora lembrou-se de ter lido sobre essa pessoa no diário.
— Tudo bem. — Ela desligou o telefone e abriu a porta, pretendendo descer para esperar por Lucas.
— Aurora. — Alguém atrás dela chamou seu nome suavemente.
Aurora olhou para o homem à sua frente. Ele não era Lucas, mas lhe parecia estranhamente familiar. Hesitante, ela perguntou: — Quem é você?
Heitor paralisou por um instante. Abriu os lábios, mas a voz falhou diversas vezes. Vendo o estado de confusão dele, Aurora explicou: — Eu estou doente e esqueci de muitas coisas.
Os olhos de Heitor ficaram vermelhos instantaneamente. Demorou um longo tempo até que ele conseguisse se recompor e dizer com a voz embargada: — Aurora, eu sou seu tio, Heitor.
— Tio?
O diário dizia que ela tinha um tio chamado Heitor.
Heitor apoiou o braço no corrimão e caminhou lentamente em direção a Aurora; seu corpo parecia instável.
— Aurora, não tenha medo. — Sua mão trêmula afagou a cabeça dela. — Vou te levar para ver o Dr. Marcus, está bem?
Aurora assentiu: — Tio, o Dr. Marcus disse que o Lucas viria me buscar, vamos todos juntos.
— Certo — Heitor murmurou com a voz embargada, desviando o rosto.
Lucas chegou rápido. Aurora o encontrou assim que chegou ao segundo andar. Ao vê-la, Lucas apresentou-se novamente: — Eu sou o Lucas.
Heitor foi quem dirigiu até o hospital. Ele dirigia em alta velocidade, quase no limite.
Ao chegarem, o Dr. Marcus levou Aurora para a sala de exames. A máquina começou a emitir bipes sobre a cabeça de Aurora, um após o outro.
Em uma sala adjacente à de exames, três pessoas observavam. Heitor pressionou os olhos lacrimejantes, e uma voz seca escapou de sua garganta: — Por que ela ficou assim de repente?
— A perda de memória é um dos sintomas mais comuns do câncer cerebral. Mesmo com a medicação, é inevitável; situações como esta ocorrerão com frequência. — O Dr. Marcus cruzou os braços, observando Aurora realizar o exame com um olhar de impotência.
— Com o uso prolongado de medicamentos, o corpo acaba desenvolvendo resistência. Além disso, como o organismo da Aurora é peculiar, o tratamento medicunentoso está se tornando gradualmente inútil. — Marcus soltou um longo suspiro. — Por enquanto, Aurora pode estar sofrendo apenas perdas de memória de curta duração; quando a crise passar, ela se lembrará de algumas coisas. Mas, futuramente, ela esquecerá você completamente, esquecerá todo mundo. Esse desfecho é irreversível.
O coração de Heitor apertou-se dolorosamente. Ele nunca imaginou que sua Aurora o esqueceria. Lucas observava a jovem através do vidro enquanto ela cooperava com o exame, permanecendo em silêncio.
Marcus tocou no ombro de Heitor: — Na verdade, o paciente sente muito mais pânico do que a família. Viver todos os dias na incerteza de perder ou não as memórias é angustiante. Ninguém quer viver sem lembranças de quem é.
Heitor fechou os olhos.
Após um longo silêncio, ele finalmente disse com a voz trêmula:
— Eu não vou mais impedir a Aurora de fazer a cirurgia.