A mecânica do jogo era simples. Consistia em girar uma garrafa para escolher o jogador que receberia um castigo.
Quem perdia a rodada girava a garrafa e atribuía uma punição à próxima pessoa indicada.
Para o "Verdade", as perguntas eram escolhidas livremente; para o "Desafio", sorteava-se uma carta e seguia-se a instrução contida nela.
Após várias rodadas, os presentes já haviam bebido bastante, e o clima entre eles tornava-se cada vez mais familiar.
Com isso, as perguntas de "Verdade" perderam a timidez e ficaram gradualmente mais indiscretas.
— Qual foi a sensação do seu último beijo?
A pessoa castigada fez uma expressão enigmática e relembrou pensativa: — O último beijo, vejamos...
Ouvir esse tipo de assunto em público fez com que o rosto de Aurora esquentasse. Sentindo a garganta seca, ela tentou pegar seu copo de vinho quente por reflexo, mas sua mão tateou o vazio.
A mesa estava repleta de copos descartáveis idênticos, tornando quase impossível distinguir de quem era cada um.
No entanto, o copo de Aurora tinha uma marca. Ela olhou para Heitor ao seu lado e percebeu que ele estava bebendo justamente daquele copo. Aurora notou a marca imediatamente e alertou-o em voz baixa:
— Tio, esse é o copo que eu acabei de usar.
Heitor hesitou por um segundo ao ouvir, mas logo Aurora ouviu o som do vinho sendo engolido enquanto o pomo de Adão dele se movia.
— Peguei o errado.
Heitor olhou para o copo, mas não o devolveu imediatamente. Seus dedos roçavam suavemente a borda enquanto ele murmurava: — Aurora, eu já bebi dele...
Ele parecia sugerir algo, mas Aurora recusava-se a pensar mais profundamente; sua intuição dizia que aquele laço familiar era precioso e ela não podia perdê-lo.
— Sr. Heitor — interveio o secretário, apontando para a garrafa à frente dele. — É a sua vez.
Quem girou a garrafa perguntou: — Verdade ou desafio?
— Verdade.
Alguém na roda exclamou imediatamente: — Rápido, façam a pergunta de agora há pouco!
A pergunta anterior era justamente sobre a sensação do último beijo. Heitor lançou um olhar para Aurora, lembrando-se da última vez, quando perdeu o controle e a beijou após ver o post dela no Weibo dizendo que gostava de outra pessoa. Um sentimento tardio de culpa o invadiu; ele não deveria tê-la desvalorizado tanto naquela época.
Heitor forçou um sorriso e balançou a cabeça, recusando-se a responder: — Eu bebo o castigo.
Ele ergueu a mão e terminou todo o vinho que restava no copo de Aurora. O celular de Heitor vibrou algumas vezes e ele pediu licença: — Sinto muito, preciso atender uma ligação.
Heitor levantou-se e foi para outro canto atender. Sua saída não interrompeu o jogo; o secretário girou a garrafa em seu lugar. A garrafa girou rapidamente e parou aos poucos. Todos prenderam a respiração, ansiosos para saber quem seria o próximo.
Para a surpresa de todos, parou em Aurora.
— Verdade — escolheu ela, achando melhor ser sincera, já que não tinha nada a esconder.
Como Heitor não estava, outra pessoa do grupo perguntou: — Que tal a mesma pergunta de antes?
Heitor, que acabara de voltar, parou por um instante ao ouvir e respondeu por ela: — Ela nunca teve um.
Ele não se sentou e, com um tom suave, apressou-a: — Aurora, está na hora de descansar.
Aurora olhou o horário; eram quase oito horas. Ela levantou-se e seguiu Heitor escada acima. Quando ela estava prestes a abrir a porta do quarto, Heitor chamou-a subitamente:
— Aurora.
Ela virou-se e viu Heitor observando-a, com o rosto levemente corado pela bebida. Com o coração apertado, ele perguntou baixinho:
— Aurora, você ainda gosta do seu tio?