Heitor permaneceu em silêncio por um momento antes de dizer pausadamente: — Aurora, espero que você possa refletir melhor sobre isso.
Ele lançou um olhar profundo para ela e saiu do quarto, ainda inquieto.
Assim que a porta se fechou, Lucas, que estava do lado de fora, disse subitamente: — O problema é o risco da cirurgia ou é o seu egoísmo que não quer que ela opere?
— Faz diferença? Contanto que o resultado seja ela viva. Heitor ergueu as pálpebras, fixando seus olhos sombrios em Lucas.
Com um tom ameaçador, continuou: — E quanto a você, faz quantos dias que conhece a Aurora? Não me importa quais sejam suas intenções, é melhor guardá-las para si.
Lucas abandonou sua postura relaxada e deu um passo em direção a Heitor, sem recuar: — E quanto a você? Quais são as suas intenções com ela?
Heitor soltou um riso de escárnio e disse calmamente: — Isso é da sua conta?
Lucas recuperou sua expressão de aparente indiferença e, encostado na parede, comentou vagarosamente: — Pacientes com tumor cerebral, em estágios avançados, apresentam sintomas como dores de cabeça intensas, náuseas, vômitos, perda de visão, cegueira, afasia e deficiências motoras. Se optar pelo tratamento conservador, esse será o cotidiano futuro dela.
Heitor cerrou os punhos ao lado do corpo e se afastou.
Para ficar mais perto de Aurora, ele também havia reservado um quarto na pousada. Mas, ao entrar no quarto, percebeu que ainda não possuía o novo número de celular dela.
Ao meio-dia.
Heitor e Lucas chegaram ao quarto de Aurora quase ao mesmo tempo.
— Tem um restaurante francês perto da pousada com um ambiente agradável.
— Eu preparei uma sopa de camarão com tomate e pimentões recheados.
No entanto, os pensamentos de Aurora não estavam no almoço; ela acabara de perceber que o número de comprimidos no frasco estava errado.
Quando chegou à pousada, anteontem, o frasco estava pela metade, mas agora restava menos de um terço.
Se ninguém tivesse entrado em seu quarto para pegá-los, a única explicação era ela mesma. Ela havia esquecido que já tomara o remédio e repetira a dose.
Isso não era um bom sinal. Aurora enviou uma mensagem ao Dr. Marcus relatando o ocorrido.
Preocupada que o uso excessivo de medicação pudesse afetar a cirurgia, ela agendou um novo exame físico no hospital.
O celular vibrou com uma mensagem do Dr. Marcus: "Reservei uma sala de exames para você. Pode vir assim que puder."
— Preciso ir ao hospital. — disse Aurora, vestindo o casaco.
— Aurora, você não está bem? — A voz de Heitor subiu de tom e ele agarrou o pulso dela com ansiedade.
— Não... — Aurora ergueu os olhos para Heitor, encontrando seu olhar repleto de preocupação e afeto. Ela piscou, sentindo uma surpresa súbita, quase como se estivesse lisonjeada, mas o sentimento logo se dissipou. Afinal, seu tio sempre cuidara dela dessa forma.
— Eu só vou fazer mais um exame no hospital.
Heitor pegou o casaco dela: — Eu te levo.
Após os exames no hospital, o Dr. Marcus aproximou-se com o prontuário recém-emitido: — Aurora, os resultados saíram.
Aurora olhou para Heitor, que pretendia acompanhá-la, e disse: — Tio, eu entro sozinha.
— Aurora, eu sou seu tutor. — A preocupação no rosto de Heitor ainda não havia desaparecido, e sua voz calma carregava um tom que não admitia recusas.
Aurora pensou por um momento: — Tio, eu já não tenho mais dezoito anos. Posso decidir minhas próprias coisas.
Como se não esperasse que Aurora falasse assim, Heitor franziu a testa involuntariamente: — Aurora...
— O tio pode esperar pela Aurora aqui fora.