Ao ouvir aquelas palavras, a mente de Aurora ficou em branco por um instante. Ela chegou a pensar que seus ouvidos estavam pregando uma peça.
Aurora esperava que o velho Sr. Huo perguntasse sobre os detalhes do acidente ou o endereço do hospital onde estavam... mas jamais imaginou que ele questionaria se ela via Heitor como um tio ou como um amante.
Do outro lado da linha, o velho Sr. Huo não parecia ver problema em suas palavras: — Não me culpe por ser tão direto e explícito; se eu não falar claramente, talvez você não entenda o que quero dizer.
Aurora pensou por um momento e respondeu: — Eu vejo Heitor apenas como meu tio, temos apenas uma relação comum de tio e sobrinha.
— Comum. — O velho Sr. Huo enfatizou essa palavra, como se quisesse reforçar algo.
— Se é assim, espero que você deixe sua posição clara para o Heitor. Tio e sobrinha devem manter a distância apropriada, especialmente porque vocês não têm esse laço de sangue; é preciso ter ainda mais cautela.
O tom lento e pausado do velho Sr. Huo carregava uma agressividade contida, sendo completamente diferente da forma como ele falava com Heitor; era como se Aurora não fosse importante o suficiente para deixá-lo irritado.
— Quando ele acordar, convença-o a voltar logo para o país e se casar.
As perguntas estranhas do velho Sr. Huo fizeram Aurora sentir que algo estava errado, como se ela e Heitor tivessem algum tipo de relação bizarra e o casamento tivesse sido adiado por causa dela. Aurora apenas murmurou um "está bem".
As luzes da sala de cirurgia se apagaram e Heitor foi levado para fora. Lucas, após consultar os médicos, disse: — O médico disse que ele já está fora de perigo, agora só precisa de repouso.
Às duas da tarde. Assim que Heitor acordou, a primeira coisa que fez foi chamar o nome de Aurora.
— Aurora.
Aurora, quase por reflexo, pensou na conversa anterior com o velho Sr. Huo. Heitor soltou alguns gemidos abafados; o efeito da anestesia tinha acabado de passar e toda a parte superior de seu corpo doía intensamente.
— Sr. Heitor. — O secretário assistente, agindo prontamente, entregou um copo de água a Heitor: — Beba um pouco. Ele também apertou o botão de chamada para que os médicos viessem verificar o estado do paciente.
— Você não se feriu, não é? — Heitor olhou para Aurora, examinando-a de cima a baixo.
Aurora balançou a cabeça negativamente e, após refletir, transmitiu as palavras do velho Sr. Huo: — Tio, assim que seu corpo se recuperar, volte logo para o país. Eu posso enfrentar a cirurgia sozinha, e o Lucas também está aqui.
— O que você quer dizer? Está me expulsando? — As sobrancelhas de Heitor se franziram e sua voz soou fria. Muitos médicos e enfermeiras entraram no quarto naquele momento; Aurora, sem ter onde ficar, resolveu sair.
— Tio, eu venho te ver amanhã.
— Aurora... — Heitor tentou se inclinar para frente, querendo alcançá-la para que ficasse, mas acabou forçando os pontos de sua ferida. — Aurora... — A dor do ferimento o impediu de conter suas emoções: — Como você ousa ir embora...
A voz de Heitor foi ficando cada vez mais fraca, e Aurora apenas o ouviu chamar seu nome. Heitor ficou deitado na cama de hospital, com o peito subindo e descendo pesadamente, enquanto seus suspiros de dor ecoavam nos ouvidos de Aurora. Aurora sentiu que ele parecia um pouco irritado. Mas ela não parou e foi embora mesmo assim.
Heitor tossiu algumas vezes, olhando para a porta fechada do quarto, e fechou os olhos com impotência: — Secretário, o celular.
Ele discou o número que constava no histórico de chamadas. Assim que a ligação foi atendida, ele perguntou imediatamente: — O que o senhor disse para a Aurora?
— Apenas perguntei sobre o seu estado e disse para voltar logo e terminar o casamento com a Stefany. — Do outro lado, não disseram mais nada e desligaram. Heitor apertou o celular na mão e o jogou bruscamente sobre o cobertor.
— Secretário, você conseguiu as informações do histórico médico da Aurora?
O secretário assistente tirou alguns relatórios de sua pasta: — Sr. Heitor, estão aqui.
Heitor murmurou um "sim" e disse com a voz fraca: — Envie isso para neurocirurgiões renomados, tanto do país quanto do exterior, e depois peça aos médicos que me deem mais analgésicos.
Dez minutos depois, após tomar o analgésico, Heitor adormeceu na cama do hospital. Ao acordar, já eram onze da noite, e ele ligou para o neurocirurgião que já havia recebido os relatórios médicos.
— Professor Wang, essa cirurgia cerebral tem algum risco? Percebi que os relatórios fornecidos pelo hospital não mencionam esse ponto.
A voz de Heitor hesitou por um momento, sentindo a dor de seus ferimentos ressurgir.
O Professor Wang, analisando os relatórios, explicou: — Esse tipo de cirurgia cerebral que exige abertura do crânio geralmente envolve grandes riscos, especialmente o risco de morte. Além disso, a localização do tumor da Srta. Aurora afeta muitos nervos, o que dificulta o procedimento.
— O senhor quer dizer que existe uma grande possibilidade de a Aurora morrer durante essa cirurgia?
O médico fez uma pausa e deu uma resposta direta: — Sim, é exatamente isso.
Heitor ligou para outros médicos, e os resultados foram praticamente os mesmos; era uma cirurgia com um coeficiente de risco extremamente alto.
Ou seja, havia uma grande chance de Aurora morrer por causa do procedimento.
Ele não podia aceitar esse resultado.