O carro estremeceu violentamente diversas vezes, como se objetos pesados estivessem despencando sobre ele.
Quando tudo finalmente se acalmou, Aurora abriu os olhos. Ela descobriu que Heitor a envolvera em seus braços, usando o próprio corpo como um escudo à frente dela. E o cinto de segurança dele estava destravado.
— Ti... Tio, como você está?
De repente, ela sentiu algo úmido e quente em suas mãos: era sangue. Aurora seguiu o rastro e viu uma enorme mancha escarlate se espalhando pelas costas e ombros de Heitor.
O para-brisa dianteiro estava estilhaçado como uma teia de aranha, e várias barras de aço haviam perfurado o vidro, invadindo a cabine.
Como o lado do passageiro estava mais próximo do veículo descontrolado, o assento de Aurora sofrera os danos mais graves.
No entanto, Heitor bloqueara todo o impacto.
— Cof, cof... — O peito de Heitor oscilou com uma tosse, e sangue escorreu pelo canto de sua boca.
— Tio...?
Aurora chamou por ele suavemente enquanto usava o celular para ligar para a emergência do hospital mais próximo. Heitor não respondeu; seu corpo parecia cada vez mais pesado, como se tivesse desmaiado.
Quando o resgate chegou, Heitor ainda mantinha a posição de proteção sobre Aurora, e os paramédicos levaram muito tempo para conseguir erguê-lo até a maca.
Ao chegar no hospital, Heitor foi enviado imediatamente para a sala de emergência.
Como a maioria dos profissionais do hospital era alemã, Aurora ligou para Lucas para evitar falhas na comunicação.
— Tudo bem, chego logo.
Pouco depois da ligação, Lucas chegou e ajudou Aurora a conversar com os médicos.
"Vrr-vrr".
O celular de Heitor vibrou algumas vezes com uma chamada recebida. Como ele estava em cirurgia, Aurora ficou com o aparelho.
Ela observou o número digital na tela, sem qualquer identificação de contato, e não atendeu até que a ligação caísse automaticamente. Mas, logo após cair, o telefone tocou novamente.
Aurora hesitou por um momento e caminhou até um local um pouco mais silencioso, mas de onde ainda pudesse monitorar a sala de cirurgia, e atendeu.
Antes que pudesse dizer algo, uma voz impaciente e furiosa surgiu do outro lado.
— Heitor, você quer mesmo ser expulso da família Huo? Não me importa onde você esteja agora, volte imediatamente, peça desculpas à Stefany e termine esse casamento de uma vez.
Aurora ficou atordoada com aquele grito repentino, sem entender bem a situação.
— Fale alguma coisa! — Outra ordem ríspida foi imposta.
Aurora tentou arriscar: — Vovô Huo?
Ela sempre vivera apenas com Heitor e só visitava o velho Sr. Huo ocasionalmente durante o Ano Novo.
Por isso, Aurora não tinha intimidade com ele. O outro lado da linha silenciou por um momento, antes de perguntar pausadamente : — Aurora, o Heitor está com você agora?
— Vovô Huo, o tio não pode atender o telefone agora. O senhor poderia ligar mais tarde?
— Não pode? — O som de uma bengala batendo pesadamente contra o chão acompanhou a fala: — Que tipo de coisa vergonhosa ele está fazendo para não poder atender? Diga a ele para atender agora. Se não atender, não precisa mais me chamar de pai.
Aurora olhou para a sala de cirurgia e respondeu com sinceridade : — O tio acabou de sofrer um acidente de carro e está sendo operado na emergência agora mesmo.
— A situação é grave? — O velho Sr. Huo questionou com frieza.
Aurora olhou para Lucas, que entendeu imediatamente o pedido silencioso, aproximou-se e pegou o telefone.
— Devido à colisão, ele quebrou duas costelas, tem múltiplos ferimentos por estilhaços de vidro nas costas e uma barra de aço perfurou a região do ombro esquerdo. Houve hemorragia severa; os detalhes dependem do resultado da cirurgia.
Lucas terminou de falar e devolveu o aparelho para Aurora.
— Aurora, tenho algo a lhe perguntar. — A voz do velho Sr. Huo estava carregada com a opressão de quem detém o poder, e ele proferiu as palavras lentamente : — O que Heitor é para você?
— Seu tio ou seu amante?