Aurora estava absorta em seus pensamentos quando uma voz masculina, extremamente rouca, invadiu seus ouvidos.
— Aurora.
O som familiar de seu nome a fez virar-se por reflexo.
Ao ver a pessoa, ela ficou paralisada. Aurora nunca tinha visto Heitor daquela maneira: sem terno, vestindo apenas um moletom preto casual, com os olhos injetados de sangue, como se não tivesse dormido a noite inteira.
Havia uma barba por fazer em seu queixo e, no lado esquerdo do rosto, uma marca de tapa muito evidente.
Naquele momento, os olhos avermelhados de Heitor a encaravam intensamente. O coração de Aurora estremeceu; um pânico repentino, como se tivesse sido capturada, a fez querer fugir por instinto.
No entanto, seu corpo parecia congelado, incapaz de se mover. Sua mente parecia ter perdido a capacidade de raciocinar, restando apenas uma pergunta: o que Heitor estava fazendo ali?
Heitor aproximou-se com alguns passos.
Ele estava contra a luz, e Aurora não conseguia decifrar a emoção em seu rosto; sentia apenas que o ar ao redor estava extremamente opressor. A figura alta bloqueava o sol à frente dela, cobrindo-a quase completamente.
Aurora instintivamente chamou por ele : — Tio...
— Então você ainda sabe que sou seu tio — a voz de Heitor era abafada e pesada.
Ele engoliu em seco e sentou-se ao lado dela. — Por que partiu sem dizer nada? Você tem ideia do quanto isso preocupa as pessoas?
O tom de Heitor era suave, soando ora como uma bronca, ora como um desabafo; Aurora não conseguia distinguir.
— Sinto muito, tio.
Heitor respirou fundo e disse pausadamente: — De agora em diante, diga-me para onde quer que vá. Eu sou seu guardião e preciso saber.
— Entendi, tio.
Sentindo que a névoa ao redor de Heitor havia se dissipado um pouco, Aurora finalmente perguntou: — Tio, como o senhor veio parar na Alemanha? Eu acabei de ver nas notícias que o vovô Huo estava doente e que seu casamento foi adiado...
— Aurora, responda-me primeiro. — Heitor interrompeu a fala dela, seus olhos fixos na pulseira de identificação hospitalar no pulso da jovem. — Sobre o exame de agora há pouco, o que o médico disse?
Heitor fechou os olhos por um instante, tentando controlar a instabilidade em sua voz : — Eu sei que você está doente.
O coração de Aurora estremeceu; o tio sabia que ela tinha câncer.
— O médico disse que meu estado físico atual permite a cirurgia — Aurora não escondeu nada de Heitor, pois o hospital estava logo atrás dela; mesmo que não dissesse, ele descobriria tudo ao entrar.
Heitor permaneceu em silêncio por um momento, as mãos entrelaçadas, mexendo nos dedos lentamente : — Quando será a cirurgia?
— Daqui a sete dias. — Aurora notou que a aliança de casamento dele também havia sumido.
Heitor assentiu pensativo : — Durante este tempo, ficarei na Alemanha para acompanhá-la na cirurgia.
Aurora quis perguntar como ele a encontrara, mas logo pensou que, com a posição e o status de Heitor, descobrir sua localização não devia ser difícil. Ela olhou para ele e fez outra pergunta : — Tio, e se o senhor ficar na Alemanha, o vovô Huo e o trabalho no país...
— Ele não está doente. — Heitor soltou um suspiro pesado, relaxando o corpo contra o banco e dizendo em tom quase brincalhão : — E ele está muito bem disposto. Quanto ao país, outros responsáveis cuidarão de tudo.
Aurora perguntou confusa : — Se o vovô Huo não está doente, por que o casamento foi adiado?
Heitor fixou os olhos em Aurora e, após olhá-la por um tempo, respondeu : — Há assuntos entre adultos que precisam ser resolvidos.
— Entendo — Aurora assentiu, desviando o olhar de Heitor. Ela sentia que naqueles olhos havia emoções complexas que não conseguia compreender, como se algo pudesse acontecer se os encarasse por muito tempo.
— Tio, aquela marca no seu rosto... o que foi aquilo?
Ao ouvir isso, Heitor levou a mão ao rosto para escondê-lo, sentindo-se envergonhado.
Ele engoliu em seco e inventou uma desculpa qualquer : — Eu bati sem querer.
Bateu...