— Não... ainda nada.
Heitor desviou o olhar para o celular que ainda discava e, vendo que a chamada continuava sem resposta, encarou o secretário.
O Secretário assistente sentiu um calafrio sob o olhar de Heitor e respondeu instintivamente:
— Peço desculpas, Sr. Heitor...
As densas informações na tela do computador cobriam quase todos os aplicativos do celular de uma pessoa.
O secretário hesitou, mas acabou perguntando:
— O senhor controlar as informações da Srta. Aurora dessa maneira...
— Continue ligando.
Heitor voltou sua atenção para as contas no computador. Essas eram contas que ele havia vinculado às de Aurora antes de ela completar dezoito anos; desde que ela se tornara adulta, ele não as tocava mais.
Ele moveu o mouse, navegando por cada item do conteúdo.
O período em que ele esteve ausente foi sendo preenchido aos poucos. No entanto, o conteúdo registrado por Aurora raramente mencionava a si mesma; era quase tudo sobre ele.
Ela claramente o havia tornado uma parte essencial de sua vida.
De repente, os dedos de Heitor pararam e sua visão foi atraída pelo contato de uma mensagem.
Dr. Souza – Neurocirurgião.
Ele abriu a conversa rapidamente. A primeira frase do histórico era Aurora perguntando ao médico quanto tempo ela ainda tinha de vida.
O coração de Heitor apertou subitamente e seus dedos deslizaram velozes pela tela.
A troca de mensagens entre Aurora e o médico fez Heitor sentir que tudo aquilo era quase irreal.
Câncer cerebral...
Aurora já havia sido diagnosticada com câncer cerebral há dois anos. Afinal, ela não tinha mentido para ele. Ela estava realmente doente.
Ele tinha visto claramente que ela tomava remédios para o câncer, mas não acreditou nela.
Sabendo que tinha uma doença incurável, quão desesperada Aurora deve ter ficado naquela época? Mas ele apenas pensou que ela estava tentando chamar sua atenção e tratou o assunto com descaso.
Ao pensar nisso, Heitor sentiu ondas de dor em seu coração.
Ele anotou o número do médico que falava com Aurora e discou:
— Olá, por favor, o senhor atendeu uma paciente chamada Aurora com câncer cerebral há dois anos? Eu gostaria de saber como está a situação dela.
— Aurora? Quem é o senhor para ela? Não podemos vazar a privacidade dos pacientes casualmente.
— Eu sou o guardião dela.
Heitor enviou ao médico o comprovante de seu vínculo com Aurora. Do outro lado da linha, houve silêncio por um momento, como se as informações recebidas estivessem sendo confirmadas.
— O caso dela é bastante especial. Após um período de tratamento conservador no hospital, descobrimos que ela desenvolveu uma certa imunidade aos medicamentos anticancerígenos cerebrais disponíveis no mercado. Felizmente, temos uma parceria com um laboratório farmacêutico na Alemanha que possui medicamentos desenvolvidos de forma independente. Nós os recomendamos à Srta. Aurora, e os resultados dos exames posteriores mostraram que os medicamentos do laboratório realmente estabilizaram a condição dela.
A mão de Heitor que segurava o celular não pôde deixar de tremer; ele nunca desejou tanto que Aurora o tivesse enganado.
Que tivesse dito que o câncer era falso e que o médico fosse alguém contratado para fingir. Tudo apenas para atrair a atenção dele.
Mas agora era tarde demais.
Heitor fechou os olhos profundamente e perguntou: — Doutor, quanto tempo ela ainda tem?
Seu dedo parou na resposta inicial do Dr. Souza no histórico: Cinco anos.
O médico suspirou: — Há dois anos eu disse a ela que ainda teria alguns anos, mas aquilo foi apenas um acréscimo fictício para dar à paciente motivação para continuar vivendo. Com o agravamento contínuo das células cancerígenas, ela provavelmente só tem mais meio ano de vida agora.
Meio ano...
O coração de Heitor saltou e uma dor aguda o atravessou, como se algo estivesse sendo arrancado de seu peito.