Três dias após a partida de Bernardo.
Recebi uma ligação. Era Samuel.
— Alô? — Jade — a voz dele soava um pouco rouca, como se não falasse com ninguém há dias.
— Você ainda está vivo? — meu tom não era dos melhores.
Ele ficou sem palavras por um momento.
— Me desculpe. Saí com pressa, não tive tempo de te avisar.
— Não teve tempo ou não foi permitido? Houve silêncio do outro lado da linha.
— Esquece — suavizei meu tom —, por que ligou? — Ele voltou.
— Quem?
— Bernardo. Assim que retornou à capital, convocou uma reunião interna do conselho. Durante a reunião, ele removeu todos os aliados de Gustavo do núcleo de gestão. Agora, Gustavo foi isolado e não tem mais poder real.
— E o que isso tem a ver comigo? — Tudo — Samuel fez uma pausa — Gustavo foi encurralado. Seu único trunfo agora é o seu caso. Se você vencer, ele poderá usar esse precedente jurídico para desafiar a integridade moral de Bernardo perante os acionistas, algo que os conselheiros mais antigos valorizam muito.
— E então? — Então, Gustavo pode tomar medidas desesperadas.
— Contra mim? — Contra você.
Apertei o celular e olhei pela janela. O beco estava vazio, com apenas um gato laranja deitado sobre o muro.
— O que ele poderia fazer comigo? — Não sei. Mas sugiro que não saia sozinha nos próximos dias.
— Mas você não está aqui.
— ... — Tudo bem — eu disse —, vou me cuidar. Obrigada por me avisar.
— Jade.
— Sim?
— Você ainda tem o número do Samuel, certo? Este aqui. Se algo acontecer, me ligue a qualquer momento.
— Você conseguiria chegar a tempo? Da capital até aqui são cinco horas de avião e trem de alta velocidade.
— Três horas — disse ele — Eu já preparei um plano de contingência.
Fiquei surpresa.
— Você preparou um plano por conta própria? — Sim.
— O Bernardo sabe disso? — Não.
Do outro lado da linha, ele pareceu hesitar por um instante.
— Há coisas que ele não precisa saber.
Fiquei segurando o telefone por um tempo.
— Samuel.
— Sim.
— Você é uma pessoa muito contraditória.
— Como assim? — Ele te mandou me proteger por três meses e depois se retirar. Você foi convocado de volta e, tecnicamente, sua missão acabou. Mas você ainda está cuidando dos meus problemas.
Ele não disse nada.
Uma legenda flutuou:
【Samuel não contou a Jade que, após ser convocado de volta à capital, ele se ofereceu voluntariamente a Bernardo para continuar responsável pela segurança dela. Bernardo recusou. Samuel não discutiu, mas enviou secretamente dois antigos companheiros de exército para Yunhe, estacionando-os perto da casa de Jade sob o disfarce de trabalhadores temporários. Ele pagou tudo do próprio bolso.】
Olhei para a legenda com a garganta apertada.
— Não é nada — disse Samuel —, descanse um pouco.
— Certo.
— Boa noite.
— ... Boa noite.
Desliguei.
Coloquei o celular ao lado do travesseiro, deitei-me e encarei o teto.
Lá fora, ouvia-se o som intermitente de insetos.
Samuel... o tempo que passamos juntos não somava um mês.
Mas ele me dava mais segurança do que Bernardo em dois anos.
O "bem" de Bernardo era calculado; o que ele dava, ele tirava, e cada detalhe estava em seu livro de contas.
O "bem" de Samuel era um suporte incondicional; se você tiver um problema, ele resolve; se não tiver, ele apenas observa de longe, em silêncio.
Virei-me e enterrei o rosto no travesseiro.
Pare de pensar nisso, Jade.
Agora não é hora para isso.
Primeiro, garanta sua sobrevivência.