Doze de agosto.
Bernardo apareceu.
Sem qualquer aviso prévio.
Eram três da tarde e eu estava no quintal estendendo roupas.
Um carro executivo preto parou na entrada do beco e duas pessoas desceram.
Uma era Bruno Ferreira.
A outra... o cabide caiu da minha mão.
Ele estava mais magro.
Muito mais magro. Vestia uma camisa polo azul-marinho com as mangas dobradas até o antebraço e não usava relógio.
Não havia terno, nem gel no cabelo; não era aquele herdeiro reluzente do Grupo Zhou que aparecia na internet.
De certa forma, lembrava o antigo dono da loja de frango frito.
Mas não havia avental, nem massa de empanar.
E também não havia aquele dente canino.
"Jade".
Ele me chamou pelo nome.
A voz também tinha mudado.
Antes, ele falava com um sotaque do interior, que era forçado. Agora, a voz era limpa, grave, com cada palavra pronunciada com precisão.
Essa era a sua verdadeira voz.
Curvei-me para pegar o cabide, terminei de estender a roupa e limpei a água das mãos.
"Entre".
Não lhe servi chá.
Ele se sentou no único sofá da sala, um daqueles sofás de madeira comuns no campo, cobertos com pano florido, que rangem ao sentar.
Bruno Ferreira ficou parado à porta, sem entrar.
Peguei um banco e sentei-me à frente dele.
Havia uma mesa de centro com a pintura descascada entre nós dois.
"O que você tem a dizer?", perguntei.
Ele me encarava.
As legendas flutuavam freneticamente.
【Bernardo está reavaliando Jade agora. A Jade que ele lembrava era uma mulher dócil, simples e fácil de satisfazer. Mas a mulher diante dele tem um olhar firme demais, firme demais para alguém que foi enganada por dois anos. Ele começa a suspeitar que alguém está orientando Jade nos bastidores.】
"Você mudou", disse ele.
"Você também".
O olhar dele percorreu a casa velha, as paredes manchadas, a porta de madeira rangente e as camisetas velhas e o jaleco branco secando no quintal.
"Por que voltou para cá? Não quis mais morar na cobertura?" "Aquele lugar era grande demais, eu me sentia vazia morando sozinha".
"E o dinheiro?" "Está guardado".
"Não gastou nada?" "Gastei um pouco. Comprei itens de uso diário e paguei os honorários do advogado".
O canto da boca dele se moveu levemente. Não dava para saber se ele queria sorrir ou dizer algo, mas, no fim, não demonstrou nenhuma expressão.
"Jade, retire o processo".
"Não retiro".
"Eu te dou cem milhões".
"Não quero".
Ele me encarou fixamente.
"O que você quer, afinal?" "Eu já disse. Um pedido de desculpas".
"Um pedido de desculpas público faria as ações da Zhou caírem pelo menos três pontos..." "Isso é problema seu".
"Você tem ideia de quanto dinheiro são três pontos?" "Não sei, nem quero saber".
Ele respirou fundo.
A sala estava em silêncio; dava para ouvir galinhas cacarejando no quintal vizinho.
"Jade," o tom de voz dele suavizou, como se estivesse tentando conter algo, "nesses dois anos, não fui ruim para você".
"Sim. A sopa de wontons era realmente deliciosa".
"Então por que você..." "Porque a sopa você mesmo preparou, mas o casamento você mesmo arquitetou como uma mentira. Você foi bom para mim porque precisava desse casamento, não porque precisava de mim", eu o interrompi.
Ele não disse nada.
As legendas me contavam a oscilação interna dele naquele momento:
【Bernardo não refutou, porque ela tinha razão. Nos três anos em que esteve em Yunhe, Jade era parte do plano dele. Casar-se com ela era estratégico, pois um homem casado atraía menos atenção do que um homem solteiro vivendo sozinho. Ele escolheu Jade por ser honesta, bondosa e não fazer perguntas, sendo a opção mais segura. Mas ele não esperava que a opção mais segura se tornasse a maior variável.】
"Você não aceita o acordo, não retira o processo e não quer o dinheiro. O que pretende, então? Quer que eu perca minha reputação?", a voz dele era muito baixa.
"Não".
"Então você..."
"Eu só quero que você admita uma coisa. Você me enganou. Não foi apenas omitir, foi enganar. Você planejou meticulosamente uma identidade falsa e viveu comigo por dois anos usando essa farsa. Você me fez acreditar que eu tinha me casado com um homem comum, me fez acreditar que aqueles dias simples eram reais. E então, você partiu sem dar uma única explicação".
"Eu deixei o dinheiro..." "Dinheiro não é uma explicação".
Ele se calou.
As galinhas no quintal cacarejaram mais duas vezes.
De repente, senti que era um tanto absurdo.
Um herdeiro de uma fortuna de bilhões sentado num sofá de pano florido, ouvindo galinhas e negociando com uma enfermeira do interior.
"Bernardo," eu disse, "você já pensou por que teve que vir pessoalmente?" Ele não respondeu.
"Sua equipe jurídica não é capaz? Sua equipe de RP não é capaz? Seu dinheiro não é capaz?" Ele continuou sem responder.
"Você veio porque percebeu que nada disso funciona comigo. Uma enfermeira que ganha três mil e oitocentos por mês... você não consegue dobrá-la".
Os dedos dele apertaram o vinco da calça sobre o joelho.
"Você não consegue me dobrar porque nunca me conheceu de verdade. Por dois anos, você atuou como um dono
de loja de frango frito e eu vivi ao seu lado, mas você nem sabia quando eu chorava".
"Você chorava?"
"Depois de cada turno da noite. Às três da manhã na emergência, alguns pacientes são salvos, outros não. Quando alguém morria, eu chegava em casa e chorava um pouco. Você achava que meus olhos estavam vermelhos depois do banho porque o sabonete tinha entrado neles".
A expressão dele finalmente demonstrou uma rachadura.
Era mínima, quase imperceptível.
Mas eu vi.
"Eu não quero o seu dinheiro, Bernardo. Quero que você pare na frente das câmeras e diga a todos que enganou uma mulher que foi sincera com você. Não é para te humilhar, é para que eu possa viver com dignidade".
"Você não vive com dignidade agora?" "Na internet, dizem que sou aproveitadora e golpista. Se minha mãe estivesse viva e visse esses comentários, ela morreria de desgosto".
Ele ficou em silêncio.
Por muito tempo.
Então ele se levantou.
"Vou considerar".
Dito isso, ele saiu.
Ao chegar no portão do quintal, ele hesitou por um passo.
Não olhou para trás.
"Os wontons... fui eu quem quis preparar. Não foi apenas por causa do plano".
O portão se fechou.
O som do motor do carro ligando se afastou gradualmente.
Fiquei sentada no banco, olhando por um longo tempo para as manchas de água na mesa de centro.
A última legenda flutuou:
【Bernardo, ao entrar no carro, disse uma frase para Bruno Ferreira: "Aqueles turnos da noite que ela mencionou... eu realmente não sabia".】
Levei as mãos ao rosto.
Dessa vez, não consegui segurar.