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Final de julho. Zhou Ting-shan morreu. Vi a notícia nos jornais.
"O renomado empresário Zhou Ting-shan faleceu devido a uma doença, aos sessenta e três anos. O Grupo Zhou emitiu um obituário afirmando que o grupo passará por uma transição estável sob a orientação do conselho de administração...".
Transição estável. As legendas me diziam que não era nada disso.
【O testamento de Zhou Ting-shan foi revelado no dia do funeral. Ele deixou 60% das ações do grupo para Bernardo, 20% para Gustavo e 20% para uma fundação de caridade. Gustavo perdeu as estribeiras na hora.】
60% para Bernardo. Um filho primogênito que nem era biológico e que ele mesmo havia expulsado de casa.
Eu não entendia muito bem a lógica dos ricos, mas as legendas traziam a explicação.
【Embora Zhou Ting-shan não fosse o pai biológico de Bernardo, ele o criou por vinte e cinco anos. De todos os filhos, Bernardo era o mais parecido com ele: calmo, resiliente e capaz de agir com frieza. Gustavo era impulsivo demais, e Zhou Ting-shan não se sentia seguro em deixar os negócios da família com ele.】
Por isso, ele escolheu o filho que era "como ele mesmo".
O sangue não importava; a competência era o que valia. Era a mesma lógica que Bernardo usou ao me escolher.
Desliguei as notícias e continuei trabalhando. Mas a paz da cidadezinha não duraria muito.
Cinco dias após a morte de Zhou Ting-shan, Gustavo veio me procurar. Ele estava com uma aparência péssima, com olheiras profundas e visíveis.
Não parecia em nada com aquele homem sorridente e calmo de antes.
Ele parou na entrada do quintal da minha casa e disse apressado:
"Aquele depoimento, você já se decidiu?".
Eu me encostei no batente da porta: "O que aconteceu?".
"Meu pai deixou a empresa para o Bernardo".
"Ah?" Fingi surpresa.
"Sessenta por cento. Ele ficou com sessenta por cento."
A voz de Gustavo transbordava uma fúria incontrolável.
"Eu sou o filho biológico, e ele me deu vinte por cento. Vinte por cento!".
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
"Então, você precisa ainda mais do meu depoimento agora?".
Ele respirou fundo, tentando se acalmar à força.
"Jade, escute-me. Se você assinar, provando que houve fraude por parte de Bernardo durante o casamento — que ele escondeu a identidade, abandonou a esposa e desviou bens — eu poderei contestar a legalidade daquele testamento no tribunal".
"Baseado em quê?".
"No fato de que ele não é um herdeiro idôneo. Se ele foi capaz de arquitetar uma farsa até no próprio casamento, que moral ele tem para herdar o império comercial de Zhou Ting-shan?".
Legenda:
【Essa lógica não se sustenta juridicamente. Fraude matrimonial e direito sucessório são coisas distintas. Mas Gustavo não busca uma vitória legal, e sim uma vitória na opinião pública; ele quer destruir a reputação de Bernardo. E o depoimento de Jade é a melhor arma para isso.】
"Se eu assinar," eu disse lentamente, "o que acontece comigo?".
"Eu vou te proteger".
"Como?".
"Dinheiro, identidade, segurança. Te dou o que você quiser".
Olhei para ele. Seus olhos eram iguais aos de Bernardo, mas muito mais ansiosos e sem paciência.
"Deixe-me pensar por mais um dia".
"Um dia."
Ele assentiu.
"No máximo um dia".
Ele se foi. Caminhava com passos pesados, fazendo as pedrinhas do quintal voarem para todo lado.
Fechei a porta e fiquei encostada na parede por um tempo. Então, peguei o celular e mandei uma mensagem para Samuel.
Sem resposta. Mandei outra, e ainda nada. Liguei, mas o celular estava desligado.
Meu coração afundou. Uma legenda flutuou:
【Samuel foi convocado de volta à capital por Bernardo. Ele partiu ontem à noite, sem avisar Jade. Ao saber pela carta que Gustavo havia encontrado Jade, a primeira reação de Bernardo não foi protegê-la, mas sim retirar Samuel de perto; ele não queria que Samuel se aproximasse demais dela e interferisse nos planos futuros.】
Ele levou o Samuel embora. Sem me avisar. Exatamente como quando ele partiu da cidade de Yunhe. Foi embora sem dar uma única palavra de explicação.
Fiquei parada no quintal vazio, olhando para a porta fechada da casa vizinha por um bom tempo.
Então, me agachei, escondi o rosto entre os braços e meus ombros tremeram. Não era medo. Era mágoa. Uma mágoa profunda e real.
Por que tinha que ser assim?
Por que eu era a enganada, a usada e também a abandonada? Eu havia suturado centenas de feridas em quatro anos no pronto-socorro.
Cada ponto era dado com firmeza. Mas esse corte em mim mesma, ninguém ajudaria a fechar.
Fiquei agachada por cinco minutos. Então me levantei, limpei o rosto e entrei para tomar um copo de água. Tudo bem. Se Samuel se foi, que seja. Eu ainda tinha as legendas. Ainda tinha meu cérebro. Ainda tinha dez milhões.
E ainda tinha a minha vida. Isso era o suficiente.