09
Comecei a fingir que estava indecisa. A cada dois dias, enviava uma mensagem para Gustavo: "Ainda estou pensando".
Ele respondia com muita paciência: "Não tenha pressa, leve o tempo que precisar".
No entanto, as legendas me avisavam que a paciência dele tinha um prazo; Zhou Ting-shan já estava na UTI e teria, no máximo, mais meio mês de vida.
Nesse meio mês, eu precisava realizar algumas tarefas.
A primeira: preparar minha rota de fuga. Em um fim de semana, peguei um ônibus para a capital da província.
Lá, abri uma nova conta bancária e transferi oito dos dez milhões de yuans. Usei o documento de identidade da minha mãe. Ela faleceu há três anos, mas guardei o documento, que ainda estava na validade.
Eu sabia se isso era legal ou não, mas sobreviver era mais importante do que seguir regras à risca. Os dois milhões restantes ficaram na minha conta pessoal para gastos normais.
A segunda: fui à administração do condomínio de luxo e coloquei a cobertura para alugar.
Depois, mudei-me de volta para a velha casa alugada de antes. Ela ficava na periferia, perto de uma aldeia, tinha dois quartos, sala e um pequeno quintal. O aluguel era de quinhentos yuans.
Eu não deixei a cobertura por capricho. Fiz isso porque as legendas me revelaram que Gustavo havia colocado vigias em cada andar daquele prédio.
Se eu morasse lá, ele saberia cada passo meu. Mudando-me para a casa velha na periferia, eu o faria ter, ao menos, um pouco mais de trabalho.
Samuel mudou-se junto comigo. Ele alugou um quarto térreo ao lado, fingindo ser um trabalhador braçal que veio para a cidade em busca de bico.
Durante o dia, ele fazia serviços eventuais na rua e, à noite, vigiava ao meu lado.
— Você não precisa se esforçar tanto — eu disse, entregando-lhe uma tigela de macarrão.
Ele aceitou e comeu em silêncio.
— Falta pouco mais de um mês para você poder ir embora, por que se dar a esse trabalho?
Ele levantou os olhos para mim: — Você não tem medo?
— De novo essa pergunta.
— Da última vez você disse que não tinha, mas eu não acreditei.
Pensei por um momento: — Tenho medo, sim. Mas não é de morrer, é de morrer sem sentido. De ser eliminada de forma confusa, sem ter valor nem para virar notícia.
Ele me olhou e o canto da sua boca pareceu se mexer levemente. Não tive certeza se era um começo de sorriso.
— Você realmente não parece uma enfermeira.
— E pareço o quê?
Ele baixou a cabeça, continuou comendo o macarrão e resmungou algo ininteligível.
— O quê?
— Nada.
As legendas falaram por ele:
【Samuel acha que Jade se parece com o sargento do seu pelotão no exército. Aquela pessoa também era assim; morria de medo, mas nunca deixava transparecer. O sargento acabou morrendo em uma missão mais tarde, e Samuel sempre sentiu que não o protegeu bem o suficiente】.
Fiquei em silêncio, recolhi a tigela e fui lavá-la no quintal. Havia o som de cigarras naquela noite de verão.
A água da torneira estava fresca. Enquanto lavava a louça, senti meu nariz arder de repente. Não era por mim, era por Samuel. Ele era muito mais genuíno do que Bernardo.
A terceira tarefa, e a mais importante: escrevi uma carta para Bernardo. Em papel, escrita à mão.
Neste mundo cheio de monitoramento eletrônico, uma carta física era, na verdade, o meio mais seguro.
Não escrevi nada sobre as legendas, nem mencionei que sabia sua verdadeira identidade. Escrevi o seguinte:
"Bernardo, olá. Aqui é a Jade.
Você partiu há quase dois meses.
Não fui atrás de você e nunca irei. Mas há algo que quero que saiba: seu irmão me encontrou.
Ele quer que eu assine um depoimento para ajudá-lo contra você. Eu não assinei. Não porque ainda te ame, mas porque não quero ser peça no jogo de ninguém. O que há entre vocês dois não é da minha conta.
Depois que esta carta chegar às suas mãos, estaremos quites. Aceitei os cartões black e o imóvel, obrigada. De agora em diante, cada um segue seu caminho.
Jade".
Terminei de escrever, coloquei a carta em um envelope e lacrei com cera. Depois, entreguei-a a Samuel.
— Você tem como fazer esta carta chegar às mãos dele?
Samuel olhou para o envelope: — Tem certeza?
— Tenho. Ele precisa saber que Gustavo está aqui. Caso contrário, quando ele se der conta, pode ser tarde demais.
— Tarde demais para quê?
— Tarde demais para ele se proteger.
Samuel pegou a carta e a guardou no bolso.
— Você sabe que, após receber esta carta, ele pode cortar todo e qualquer contato com você de vez, inclusive retirando a mim.
— Eu sei.
— Nesse caso, não haverá ninguém ao seu lado.
— Eu tenho a mim mesma.
Ele me encarou por um longo tempo. Depois, virou-se e desapareceu na escuridão da noite.
A carta foi entregue três dias depois. Eu soube porque as legendas me contaram.
【Bernardo recebeu a carta de Jade. Ele a leu três vezes no quarto do hotel e depois a queimou com um isqueiro. Ficou em silêncio por um longo tempo e, em seguida, ligou para Alessandra, dizendo para adiar os planos do noivado】.
Adiar o noivado. Sentei-me na cadeira de balanço no quintal, olhando para o céu estrelado.
Teria sido por causa da minha carta ou por causa de Gustavo?
Não importava mais.
Eu fiz o que devia.
O resto era a guerra dele.