08
Em julho, a cidade de Yunhe estava quente como um forno. O barulho do ar-condicionado ecoou por toda a noite, e eu rolava de um lado para o outro na cama, sem conseguir dormir. Não era por causa do calor. Era porque os comentários flutuantes me contaram algo:
【Zhou Ting-shan não passará deste mês. Assim que ele morrer e o testamento for revelado, a guerra entre Bernardo e Gustavo começará oficialmente. Antes disso, Gustavo apressará o destino de Jade: ou ele a compra, ou a elimina.】
Eliminar. Essas palavras giraram na minha mente a noite toda.
No dia seguinte, no trabalho, minhas mãos não estavam firmes. Enquanto aplicava injeções nos pacientes, errei o acesso duas vezes seguidas.
— Jade, o que há com você hoje? — o chefe passou e franziu a testa.
— Não dormi bem ontem à noite, sinto muito.
Regulei minha respiração e, na terceira tentativa, a agulha entrou firmemente na veia.
Ao meio-dia, no refeitório, Cristina sentou-se à minha frente com sua bandeja.
— Você está com uma cara péssima. Tem a ver com aquele tal de Zhou?
— Não tem nada a ver com ele.
— Então o que houve?
— Estou com um probleminha — hesitei por um momento. — Cris, e se alguém fingisse ser bom para você, mas você soubesse que essa pessoa pode te fazer mal, o que você faria?
Cristina mastigou um pouco de batata refogada e pensou: — Chamaria a polícia.
— Não tenho provas.
— Então fique longe dele.
— Não dá para fugir.
Cristina largou os hashis e me olhou seriamente: — Jade, você se meteu em algum problema?
Uma legenda flutuou sobre a cabeça dela: 【O maior arrependimento da vida de Cristina foi não ter ajudado Jade neste momento. Mais tarde, ela diria com frequência que, se Jade tivesse contado a verdade na época, ela teria feito de tudo para tirá-la dali.】
Minha garganta apertou.
— Nada, Cris. Só estava falando por falar.
Ela não acreditou, mas não insistiu.
Depois de comer, voltei ao escritório e recebi uma mensagem de um número desconhecido no meu celular: "Jade, aqui é o Gustavo. Você está livre esta noite? Gostaria de te convidar para jantar, tenho algo para conversar com você".
Legenda: 【Isto é um acerto de contas. Gustavo decidiu revelar parte da verdade para Jade esta noite: que ele é irmão de Bernardo. Ele quer ver a reação dela para decidir o próximo passo.】
Fiquei encarando a tela do celular, com os dedos suspensos sobre o teclado. Ir ou não ir? Se eu não fosse, ele ficaria desconfiado. Se eu fosse...
Liguei para o Samuel.
— Ele me convidou para jantar, hoje à noite.
Samuel hesitou por um segundo: — Não vá.
— Eu preciso ir.
— Jade...
— Ele vai abrir o jogo. Se eu fugir, ele saberá que estou escondendo algo. É melhor deixar que ele fale e eu escute.
— Então eu vou com você.
— Não pode. Ele está com gente, você se exporia.
— É perigoso demais você ir sozinha.
— Vou a um local público, ele não ousaria fazer nada contra mim dentro de um restaurante.
Samuel ficou em silêncio. Pude ouvi-lo andando de um lado para o outro do outro lado da linha.
— Vou te esperar do lado fora do restaurante. Se houver qualquer problema, me ligue imediatamente.
— Combinado.
Às sete e meia da noite, no restaurante chinês do quarto andar do melhor hotel de Yunhe, Gustavo reservou uma sala privativa. Quando abri a porta, ele já estava sentado lá, vestindo uma camisa branca abotoada até o colarinho. Na mesa, havia seis pratos e uma garrafa de vinho tinto.
— Você chegou, sente-se — ele se levantou e puxou a cadeira.
Sentei-me. Ele me serviu uma taça de vinho.
— Não estou dirigindo hoje, posso beber um pouco — peguei a taça, mas não bebi.
— Jade — ele sentou-se à minha frente, cruzando as mãos sobre a mesa, com um tom completamente diferente das conversas casuais na minha casa. Não era mais despretensioso; havia até uma certa solenidade. — Eu te convidei hoje porque quero te contar uma coisa.
— Pode falar.
— Seu ex-marido se chama Bernardo, certo?
Meu coração disparou, mas minha expressão era de confusão.
— Sim, o que tem ele?
— Ele é meu irmão.
O quarto ficou em silêncio por três segundos. Arregalei os olhos; pratiquei essa expressão muitas vezes no espelho.
— O que... o que você disse?
— Ele é meu meio-irmão por parte de pai — o tom de Gustavo era calmo, como se falasse de algo que não lhe dizia respeito. — O verdadeiro nome dele é Bernardo, ele não é nenhum dono de loja de frango frito, ele é o jovem mestre do Grupo Zhou, na capital.
Abri a boca, mas não emiti som. Então, fiz o que qualquer mulher que não soubesse da verdade faria ao ouvir aquilo: baixei a cabeça, fixei o olhar nos padrões da mesa e comecei a divagar.
— Você está brincando comigo, não é? — minha voz soou trêmula.
— Não estou mentindo — ele tirou o celular e me mostrou uma foto. Era o Bernardo. Não a versão do avental sujo de óleo, mas o Bernardo de terno e gravata, em um banquete de negócios, igual à foto que vi na internet. Mas fingi que era a primeira vez que via, e minhas mãos segurando o celular começaram a tremer.
— Este... este é ele?
— Sim.
— Impossível — balancei a cabeça. — Ele... como ele poderia ser... ele nem sabia fritar o frango direito, sempre queimava metade...
— Isso foi proposital — disse Gustavo. — Ele se escondeu nesta cidade por três anos, tudo foi um disfarce. Inclusive casar com você.
Olhei para ele. Meus olhos estavam vermelhos. Isso não era atuação; sempre que pensava no Bernardo, meus olhos ficavam vermelhos.
— Então por que ele foi embora?
— Porque meu pai está morrendo — Gustavo foi direto. — Ele quer voltar para pegar a herança.
Fiquei em silêncio. Uma legenda flutuou na borda da minha visão: 【Gustavo está observando sua reação. Você deve demonstrar choque, tristeza ou raiva agora. Mas não seja intensa demais; ser intensa demais mostraria que você já sabia e está apenas fingindo. A melhor reação é o silêncio e depois fazer uma pergunta sobre você mesma.】
— E o que eu sou para ele? — minha voz estava muito baixa. Gustavo esperou que eu continuasse. — Dois anos. Eu vivi com ele por dois anos. Fazia café da manhã para ele todas as manhãs, ajudava a fechar a loja à noite, ele me levava na moto elétrica no inverno, com as mãos vermelhas de frio...
Minha voz começou a falhar. Não era fingimento. Aqueles dias foram reais. Aquele calor foi real. O real e o falso estavam tão misturados que eu não conseguia mais distinguir.
— Eu sou uma piada, não sou? — levantei a cabeça, e as lágrimas caíram. Gustavo olhou para as minhas lágrimas, e uma ponta de hesitação passou por sua expressão.
Legenda: 【Ele acreditou. Ele agora tem certeza absoluta de que você não sabia da verdade. Ele proporá uma condição em seguida.】
Dito e feito.
— Jade — o tom dele suavizou. — Não vim aqui para te machucar. Pelo contrário, vim para te ajudar.
— Me ajudar?
— Meu irmão... ele usa as pessoas e depois as joga fora, ele nunca se importa com o passado. Ele voltou para a capital e logo ficará noivo de outra mulher. De agora em diante, não haverá mais lugar para você na vida dele. — Ele tirou um documento da maleta e o colocou sobre a mesa. — Este é um depoimento. Se você assinar, provando que tem uma união estável legal com o Bernardo e que ele omitiu sua identidade real durante o relacionamento, estes serão os fatos. Com este depoimento, poderei desafiá-lo legalmente.
— Você quer disputar a herança com ele?
— Sim.
— Usando a mim.
— Não estou te usando — ele se inclinou para frente. — Jade, pense bem, ele te enganou por dois anos e partiu sem dar uma explicação. Você não sente raiva?
Olhei para o documento. A legenda me contou a consequência daquele depoimento: 【Se assinar este documento, Jade será arrastada para a disputa de bens da família Zhou. Bernardo será forçado a lidar com esta relação matrimonial, e Jade se tornará o alvo de todos; Bernardo a odiará por atrapalhar seus planos, Alessandra a odiará por ser um estorvo, e a mídia vasculhará sua vida inteira.】
— Posso pensar um pouco? — enxuguei as lágrimas.
— Claro — Gustavo empurrou o documento para mim. — Não há pressa, pense com calma. — Ele serviu outra taça de vinho. — Independentemente de você assinar ou não, não conte o que soube hoje para ninguém.
— Tudo bem.
— Se alguém perguntar, diga que não sabe de nada.
— Certo.
Ele sorriu. Um sorriso com uma confiança de quem já venceu. Uma última legenda flutuou: 【Gustavo sente que já tem Jade em suas mãos. Uma enfermeira de uma cidadezinha, enganada por dois anos pelo ex-marido, com raiva e mágoa; dar a ela uma chance de se vingar é algo que ela não recusaria.】
Ele se enganou. Eu não assinaria. Mas também não recusaria. Guardaria essa carta na mão e a jogaria apenas quando chegasse o momento certo.
No caminho de volta, caminhei sob os postes de luz esparsos da cidade à noite. Samuel saiu de um beco e me seguiu a dois passos de distância.
— O que ele disse?
— Ele quer que eu assine um depoimento para ajudá-lo a processar o Bernardo.
— Você aceitou?
— Disse que ia pensar — Samuel aproximou-se e diminuiu o passo para caminhar ao meu lado. — O que você pretende fazer?
— Não vou assinar. Mas também não vou recusar.
— Por quê?
— Se eu recusar, deixo de ter valor de uso para ele. E para alguém como o Gustavo, existe apenas uma forma de lidar com uma pessoa sem utilidade.
Samuel olhou para mim. Sob a luz do luar, a cicatriz dele aparecia e desaparecia nas sombras.
— Quando foi que você se tornou tão calculista?
— Depois de dois anos casada com um mentiroso, aprendi um pouco.