06
As sondagens de Gustavo tornaram-se cada vez mais frequentes. No dia seguinte, eu estava comendo um pão recheado na lanchonete em frente ao hospital, e ele coincidentemente estava lá também.
No terceiro dia, quando fui buscar uma encomenda na portaria do condomínio, ele saiu do bloco vizinho e me cumprimentou. No quarto dia, ele apareceu diretamente no elevador da nossa torre.
"Nos encontramos de novo," ele disse sorrindo enquanto apertava o botão do décimo oitavo andar. "Em qual andar você mora?"
"No décimo quinto," respondi, apertando o meu botão.
Legenda:
【Gustavo já confirmou basicamente que Jade é a ex-mulher de Bernardo. Agora ele hesita entre fazer um contato direto ou descobrir primeiro o quanto ela sabe】.
Ele se encostou na parede do elevador, inclinando a cabeça para me olhar: "Mora sozinha?"
"Sim".
"Uma moça tão jovem morando sozinha, não tem medo?"
O elevador chegou ao décimo quinto andar e a porta se abriu. Saí e me virei para encará-lo: "Sou enfermeira do pronto-socorro, lido com a morte todos os dias, não tenho do que ter medo".
Ele soltou uma risada. No instante em que as portas se fecharam, vi o seu sorriso desaparecer.
Ao chegar em casa, enviei uma mensagem para Samuel: "Ele mora no décimo oitavo".
Samuel respondeu instantaneamente: "Eu sei. Mudou-se anteontem, é um apartamento alugado".
"Ele vai agir contra mim?"
"Ainda não, ele está esperando".
"Esperando o quê?"
"Que o Bernardo apareça. Você é a isca".
Isca. Sentei-me no sofá, segurando aquele copo de água já fria, e de repente tive vontade de rir. Bernardo me usou como disfarce. Gustavo me usava como isca.
No tabuleiro de xadrez desses dois irmãos, eu não chegava a ser nem uma peça; no máximo, era o pedaço de papel usado para calçar o pé da mesa. Mas até um papel tem a sua utilidade. Pelo menos, o papel sabe qual é o formato do tabuleiro.
No quinto dia, tomei a iniciativa. Peguei uma sacola de frutas e bati na porta do décimo oitavo andar. Quem abriu foi Gustavo.
Ele vestia um moletom cinza casual e estava com o cabelo despenteado, parecendo muito mais informal do que no supermercado. Mas os seus olhos eram idênticos aos de Bernardo: olhos que parecem calcular o seu valor enquanto olham para você.
"Olá," sorri. "Moro no décimo quinto andar, mudei-me há pouco tempo e, como nos cruzamos tanto ultimamente, achei que deveríamos nos conhecer como vizinhos".
Ele pegou as frutas, com uma surpresa passageira na expressão.
"Obrigado, quer entrar e sentar um pouco?"
"Não, obrigada, ainda tenho que ir trabalhar". Fiz um gesto de despedida. "A propósito, meu nome é Jade".
"Gustavo," disse ele, omitindo o sobrenome da família.
Assenti e fui embora.
A legenda explodiu atrás de mim:
【Gustavo não esperava que Jade batesse à sua porta por iniciativa própria. Ele agora está reavaliando esta mulher. Ele achava que ela era apenas uma enfermeira ingênua, mas agora sente que as coisas podem não ser tão simples】.
Não.
As coisas são exatamente simples assim.
Eu sou apenas uma enfermeira sem segundas intenções que acabou de se separar do marido, mora sozinha em um apartamento grande e, sentindo-se um pouco solitária, quis fazer amizade com o vizinho.
Esse era o personagem que eu queria apresentar a ele. Se ele acreditaria ou não, dependeria do quão real seria a minha atuação. Sendo esposa de Bernardo por dois anos, a coisa mais importante que aprendi com ele foi que, para atuar, deve-se começar pelos olhos.
No sexto dia, Gustavo bateu à minha porta, trazendo uma caixa de leite como retribuição. Convidei-o para entrar e preparei um chá. Ele olhou ao redor da sala, detendo o olhar por dois segundos extras na sapateira, onde havia apenas sapatos femininos.
"Você disse antes que morava sozinha?"
"Sim. Divorciei-me há pouco tempo". Sentei-me à frente dele segurando a xícara, com um tom casual. "Ele foi para outra cidade e perdi o contato".
"Qual foi o motivo da separação?"
"Não sei". Baixei a cabeça e soprei o vapor do chá. "Um dia voltei e ele não estava mais lá, deixou apenas um acordo de divórcio e algum dinheiro sobre a mesa".
Enquanto dizia isso, minha voz soava estável, até com um toque de autodepreciação. Mas fiz uma pausa muito sutil ao mencionar a palavra "dinheiro". Gustavo percebeu. Ele tamborilou levemente os dedos na xícara.
"Quanto ele deixou?"
"O suficiente para eu viver nesta cidade por alguns anos," sorri. "Mas, para ser sincera, eu preferia que ele não tivesse partido".
Legenda: 【Gustavo está noventa por cento certo de que Jade é a ex-mulher. Mas ele não tem certeza se ela conhece a identidade de Bernardo. Se ela não souber, esta mulher não tem valor de uso. Se souber... ela se torna uma carta excelente】.
"Em que o seu ex-marido trabalhava?", perguntou ele, despretensioso.
"Tinha uma loja de frango frito".
"Nesta cidade?"
"Sim, na rua de pedestres, mas agora já fechou".
Ele assentiu e não perguntou mais nada. Após o chá, levantou-se para se despedir. Ao chegar à porta, virou-se subitamente e comentou: "Este apartamento é ótimo, decoração impecável, deve ter sido bem caro, não?"
"O ex-marido deixou," respondi, encostada no batente da porta.
Ele deu um sorriso: "Seu ex-marido foi muito bom para você".
"Talvez ele tenha sentido culpa".
Ele partiu. Fechei a porta e fiquei encostada nela por um momento. Minhas mãos estavam suadas. A mensagem de Samuel chegou: "Quanto tempo ele ficou na sua casa?"
"Vinte minutos".
"O que conversaram?"
"Sobre o divórcio. Ele estava me testando para ver se eu conhecia a identidade de Bernardo".
"Como você respondeu?"
"Que não sabia de nada. Meu ex-marido era dono de uma loja de frango frito, ele se foi e eu estou triste".
Samuel silenciou por dez segundos. "Você atuou bem".
Não respondi a essa mensagem, porque em alguns pontos eu não estava apenas atuando.