O hálito quente de Heitor, misturado com sussurros, espalhou-se pelo ouvido dela: — Stefany...
Aurora paralisou completamente, seu corpo tremendo sem parar.
Ela mordeu a ponta da língua com força até sangrar e, reunindo todas as suas energias, empurrou Heitor para longe:
— Tio, eu não sou a Stefany. Sou sua sobrinha, a Aurora.
Sua cabeça latejava com uma dor terrível e o sangue morno escorria continuamente de seu nariz, mas ela ainda se forçou a dizer:
— Tio, eu não te seduzi. Nem há um ano, nem agora.
Aurora não sabia por que estava dizendo aquilo; sua intuição lhe dizia que havia esquecido algo muito importante.
Sem se importar se Heitor a ouvia ou não, ela limpou o sangue do nariz e voltou para o seu quarto sem hesitar.
Ao entrar, sua primeira reação foi correr para o banheiro para lavar o sangue...
Já passava da metade da noite quando ela finalmente conseguiu estancar o sangramento, tomou o remédio e conseguiu dormir.
No entanto, assim que fechou os olhos, as memórias apagadas ressurgiram.
Um ano atrás, ela marcou um encontro com o tio em um restaurante para se declarar, mas acabou descobrindo que Heitor havia sido drogado.
Ela o ajudou a chegar ao hotel e só então percebeu que os olhos dele, normalmente frios, estavam tomados pelo desejo, e sua pele exibia um tom avermelhado.
Naquele momento, Aurora o amava profundamente e, não suportando vê-lo sofrer, abriu voluntariamente o zíper do seu vestido.
Mas o tio preferiu quebrar um vaso e usar os cacos de vidro para cortar o próprio antebraço a tocá-la.
Ele disse: — Aurora, foi um erro meu ter te criado assim. Enquanto você não se arrepender, é melhor não nos vermos mais.
Dito isso, ele saiu batendo a porta. Depois disso, eles realmente passaram seis meses sem se ver. Quando se reencontraram, Stefany já estava ao lado de Heitor...
— Tio, eu me arrependo tanto de ter te amado... — Aurora murmurava em seus sonhos, com a testa franzida. Ela nem percebeu que a figura alta parada ao lado de sua cama estagnou por um momento e depois fugiu desesperadamente.
No dia seguinte, um lembrete apareceu no bloco de notas do celular: "Faltam 3 dias para a cirurgia na Alemanha."
Aurora lembrou-se então que restavam apenas 3 dias em casa. Tomou o remédio e, assim que recuperou um pouco das energias, foi ao hospital buscar mais medicamentos.
Ao pisar no hospital novamente, ela já não sentia a tristeza e o pavor da primeira vez em que foi sozinha. Sem Heitor por perto, ela conseguia cuidar de si mesma.
O médico fez o exame de rotina e a conclusão foi a mesma de um ano atrás: o tumor cerebral pressionava os nervos, o risco da cirurgia era de noventa por cento e ela teria que aguentar o máximo possível com remédios fortes.
Com o coração anestesiado, Aurora voltou para a mansão em um estado de torpor.
Ao entrar no salão principal, viu Heitor sentado no sofá preto, segurando um cigarro entre os dedos.
Ele não parecia bem.
Aurora sentiu-se constrangida, achando que ele perguntaria sobre a noite anterior e hesitando sobre como explicar.
Em vez disso, ouviu o questionamento frio: — Aurora, você viu a minha aliança de noivado e a da Stefany? O lado interno tem as nossas iniciais gravadas.
O coração de Aurora deu um salto e ela encarou Heitor: — O senhor acha que eu peguei as alianças?
Heitor franziu levemente o cenho e não disse nada, mas a suspeita era evidente. — Tio — Aurora sentia que não era esse tipo de pessoa e forçou um sorriso amargo —, por que eu pegaria suas alianças?
— Aurora, você sabe muito bem por que pegou as minhas alianças e as da Stefany.
Heitor sacudiu a cinza do cigarro, com as emoções oscilando no olhar: — Não precisa tentar provar sua inocência, eu já mandei a governanta procurar no seu quarto.
Alguns minutos depois, a governanta desceu as escadas às pressas: — Senhor, eu encontrei!
Ela entregou um lenço de seda a Heitor e, no centro dele, estava a aliança. O peito de Aurora se apertou. Ela quis explicar, mas não sabia se tinha tido uma crise na noite anterior e realmente pegado a aliança do tio.
Heitor segurou a aliança, contendo a raiva: — Aurora. Havia frieza e irritação em seus olhos, e ele a olhava como se ela fosse uma criança mal-educada e mentirosa.
— Não quero que algo assim aconteça uma segunda vez.
Diante de Aurora, Heitor jogou a aliança que supostamente ela havia tocado diretamente no lixo.