Então hoje era o dia do noivado do seu tio; ela havia esquecido completamente. Não era de admirar que ele não tivesse respondido à sua mensagem.
Aurora sentiu uma pontada de dor no peito por um instante, mas logo se sentiu aliviada.
Afinal, ele era sete anos mais velho que ela e, após o Ano Novo, já estaria chegando aos trinta; era bom que ele se estabilizasse logo.
Aurora foi sozinha ao cemitério e, após resolver os trâmites, solicitou a trasladação das cinzas de seus pais.
Como ela estava partindo, levar os pais para a Alemanha permitiria que estivesse sempre com eles e pudesse prestar suas homenagens em paz.
Quando terminou tudo e voltou para a mansão da família de Heitor, já era entardecer. Aurora estava levando a urna de cinzas para o quarto quando deu de cara com uma mulher desconhecida saindo do quarto de Heitor.
Ela parecia ter acabado de tomar banho, vestia uma camisa dele e havia marcas avermelhadas ambíguas em seu pescoço.
O coração de Aurora se contraiu. Ela pensou por um longo tempo, mas sua mente continuava em branco; não conseguia se lembrar de quem era aquela pessoa.
Aurora decidiu fingir que não a conhecia e tentou evitá-la.
Contudo, o olhar da mulher a cortou como uma faca:
"Aurora, o que você está carregando? Deixe sua tia ver".
Enquanto falava, ela estendeu a mão para tentar pegar o objeto. Aurora abraçou a urna com força e se esquivou rapidamente.
Inesperadamente, a mulher, por estar confiante demais, escorregou e acabou caindo sentada no chão.
Sentindo-se humilhada, um brilho de maldade passou por seu rosto:
"Aurora, eu e seu tio acabamos de ficar noivos. Por que você trouxe cinzas para casa? Isso atrai muito azar".
Noivado? Então ela era a Stefany. Aurora cerrou os lábios, mas antes que pudesse dizer algo, Heitor saiu apressado do quarto e ajudou Stefany a se levantar: "Como você caiu no chão?".
Stefany se aninhou melosa nos braços de Heitor e imediatamente acusou Aurora:
"Eu perguntei por que ela trouxe uma urna de cinzas no dia do nosso noivado, e ela me empurrou".
Heitor franziu o cenho, lançando um olhar frio para Aurora.
A suspeita imediata de seu único parente fez o peito de Aurora apertar. Ela deu um passo atrás, segurando a urna com firmeza, e apontou para a câmera no fim do corredor:
"Tio, a casa tem câmeras. Se eu a empurrei ou não, basta checar".
O rosto de Stefany empalideceu instantaneamente, transparecendo culpa e pânico.
Ela escondeu o rosto no ombro de Heitor e resmungou com voz manhosa: "Heitor, não estou me sentindo bem".
Heitor, experiente no mundo dos negócios, certamente percebeu a encenação de Stefany.
No entanto, ele preferiu condescender com ela: "Aurora, você deveria refletir sobre o motivo de trazer uma urna de cinzas justamente hoje".
Os olhos de Aurora começaram a arder. Uma memória esquecida subitamente emergiu, atingindo seu coração.
Três anos atrás, ela foi esquiar na Suíça por diversão e acabou sendo pega por uma avalanche. Heitor ignorou as objeções da empresa, gastou centenas de milhões e organizou a melhor equipe de resgate para salvá-la.
Ele a trouxe de volta da Suíça após escapar da morte e fez uma promessa diante do túmulo de seus pais.
"Irmão Lin, cunhada Lin, de agora em diante colocarei Aurora sempre em primeiro lugar, podem descansar em paz".
Mas agora, as cinzas de seus pais estavam bem diante dele, e ele já havia esquecido a promessa de anos atrás, escolhendo humilhá-la em favor de Stefany.
Felizmente, ela partiria em poucos dias; não havia necessidade de criar conflitos com o tio por algo tão pequeno.
Aurora simplesmente baixou a cabeça e pediu desculpas: "Sinto muito, tio. Esqueci que hoje era o seu noivado. Não foi minha intenção escolher este dia para trasladar as cinzas dos meus pais".
A expressão de Heitor mudou, e ele nem sequer conseguiu manter a voz calma: "Aurora! Você realmente aprendeu a ser audaciosa.
Agora até as cinzas de seus pais se tornaram ferramentas para você tentar impedir meu casamento!".
Ao ouvir as palavras-chave do tio, Aurora se lembrou de que, quando era mais jovem e imatura, sempre que ouvia que ele estava em um encontro às cegas, inventava qualquer motivo para atrapalhar.
Dor de estômago, febre, dor de cabeça... Naquela época, Heitor sempre olhava para ela com carinho. Ele a mimou até torná-la caprichosa, e mostrava ao mundo todo que ele era o seu apoio.
Lembrando do passado, Aurora sentiu uma dor de cabeça súbita e excruciante, como se seu crânio estivesse sendo golpeado.
Ela precisava do remédio...
Aurora não queria mais prolongar aquela discussão e desculpou-se novamente:
"Sinto muito, tio. Antes eu agia sem limites e lhe causei problemas. Isso não vai acontecer novamente".
"Peço desculpas também à tia".
Após dizer isso, sob o olhar atônito de Heitor, ela fez uma reverência profunda aos dois e entrou no quarto, pegando o remédio forte para ingerir. Inesperadamente, no segundo seguinte, seu pulso foi agarrado com força, e a voz fria de Heitor soou sobre sua cabeça.
"Erlotinibe? Por que você está tomando um medicamento específico para câncer?"