Sete horas da noite. Aurora terminou de se arrumar e maquiar pontualmente, sentando-se à mesa para jantar com Felipe.
Para ser justa, Felipe era um homem gentil, elegante e de modos impecáveis. Ao contrário da frieza cortante de Heitor, conversar com Felipe trazia uma sensação acolhedora, como uma brisa de primavera.
Quando o prato foi servido, ele naturalmente o pegou das mãos do mordomo e, com total foco, retirou as especiarias da carne antes de colocar o prato à frente de Aurora.
Ao notar a confusão dela, ele explicou prontamente:
— O Sr. Heitor mencionou que você não gosta.
Aurora estagnou por um momento:
— Meu tio?
— Antes de vir, perguntei ao Sr. Heitor sobre as suas preferências.
Felipe abriu o bloco de notas em seu celular. Lá, havia parágrafos e mais parágrafos de anotações que ele fizera com base no relato de Heitor.
Naquele instante, Aurora quase podia ver Heitor sentado em seu escritório, vestindo seu terno, falando seriamente sobre os gostos dela.
Ele disse: "Aurora não pode comer tomate; ela teve uma reação alérgica aos onze anos e ficou com o corpo coberto de manchas."
Ele disse: "Aurora não gosta de beber leite; ela franze a testa toda vez que bebe."
Ele disse: "Para o café da manhã, o ideal é preparar leite de soja e pãezinhos no vapor, ela adora isso..."
Ao longo de doze anos, ele foi quem melhor a conheceu. Às vezes, ela mesma esquecia suas próprias preferências, mas seu tio se lembrava de cada detalhe com clareza.
Mas agora, ele entregara todos esses detalhes a outro homem. Ensinara pessoalmente Felipe como agradá-la, como se integrar à vida dela e como apressar o casamento e os filhos...
Aurora sentiu como se seu coração estivesse sendo esmagado.
Mas, talvez por já esperar que este dia chegaria, ela não sentiu tanta dor.
Apenas a dor de cabeça voltou, e seu estômago começou a revirar em náuseas, provocando ânsias de vômito contínuas.
Provavelmente era outra crise começando. Aurora cerrou os dedos, forçando-se a se despedir de Felipe:
— Sinto muito, não estou me sentindo bem. Levantou-se às pressas e voltou para o quarto.
Após ingerir uma dose alta de medicamentos fortes, a dor latejante em seu cérebro finalmente cedeu. Ela deitou na cama, mas não conseguiu dormir.
Acabou descendo e sentando-se no balanço no centro do jardim para observar a lua. Já não sabia quanto tempo de vida lhe restava, então queria apreciar o máximo de coisas belas que pudesse.
Seus pensamentos estavam divagando quando uma figura familiar se aproximou.
A luz do luar incidia sobre o homem, conferindo-lhe um ar ainda mais distante e frio. Heitor parou a dois metros de distância, como se ela fosse algo perigoso.
— O Felipe disse que você não se sentiu bem à noite? — Perguntou ele, com rispidez.
— Eu já não te avisei para parar de usar doenças como desculpa para fugir de encontros e do casamento?
Aurora ficou atônita. Ela não conseguia se lembrar se já havia fingido estar doente antes; apenas tinha uma lembrança vaga de que seu tio costumava ser a pessoa que mais a mimava.
Se ela estivesse ferida ou sofresse qualquer injustiça, ele seria o primeiro a se preocupar e defendê-la. Ter um parente tão bom e, em vez de valorizar, cobiçá-lo romanticamente... fora realmente um erro dela.
Felizmente, ela ainda tinha seis dias para compensar isso.
Aurora apertou a barra de sua blusa:
— Tio, eu não esqueci suas instruções de propósito. Ela abriu um sorriso obediente, revelando as covinhas profundas: — Eu realmente estava desconfortável na hora, mas tive um ótimo momento com o Felipe. Ele é um homem excelente e, se houver oportunidade, seria bom me casar com ele.
Aurora falava com sinceridade, acreditando que, ao se posicionar dessa forma, seu tio ficaria mais contente.
No entanto, o rosto de Heitor escureceu subitamente, e ele a encarou com um olhar feroz, como se quisesse atravessá-la.
Ao sair, ele apenas lançou friamente: — É bom que você pense assim.
Aurora observou as costas dele enquanto ele se afastava, sem entender por que ele parecia novamente descontente. Ela sentia que nunca compreenderia o que se passava na mente dele.
Mas tudo bem, logo ela partiria para a Alemanha, e o que ele pensava já não teria importância para ela.
No dia seguinte, às oito horas, o alarme tocou e Aurora acordou. Sua mente estava vazia. Ao abrir o bloco de notas, lembrou-se de que faltavam apenas seis dias para deixar Pequim.
Seus planos para hoje consistiam em ir ao cemitério, retirar as cinzas de seus pais e levá-las para a Alemanha. Se sua doença não pudesse ser curada, ela seria enterrada com eles. Se houvesse cura, ela os sepultaria lá. Sua família ficaria unida para sempre.
Antes de sair, ela enviou uma mensagem para o tio: "Tio, vou ao cemitério ver meus pais hoje, você gostaria de ir junto?".
Ao apertar o enviar, o coração de Aurora disparou. Afinal, seu tio tinha uma ótima relação com seus pais; após o acidente, foi ele quem fez um enorme esforço para encontrar as cinzas nos destroços do avião.
Ela lembrava que, todos os anos, ele ia ao cemitério sem falta. Aquela seria, provavelmente, a última vez que ele prestaria homenagens a eles.
No entanto, após enviar a mensagem, Aurora esperou e esperou, mas não obteve resposta. Vendo o tempo passar, ela decidiu ir sozinha.
Enquanto estava no carro a caminho do cemitério, o rádio noticiava: "O CEO do Grupo Huo, Heitor, e a Srta. Stefany, da família Shen, ficaram noivos hoje." "O Sr. Heitor também declarou publicamente que o casamento com a Srta. Shen será realizado em seis dias..."
O coração de Aurora parou por um segundo. Ela pegou o celular e olhou o bloco de notas.
Seis dias depois, 21 de setembro.
Justamente o dia de sua partida...