No segundo ano após a confirmação do câncer cerebral, Aurora esqueceu completamente de Heitor, seu "tio".
Em seu bloco de notas, restava apenas uma última tarefa pendente:
"Aurora, conserte sua relação com o seu tio de uma vez por todas. Não deixe que esse seu amor imundo destrua o último laço familiar que lhe resta."
Uma dor familiar apertou seu peito, mas ela mal conseguia se lembrar dele.
As famílias de Aurora e Heitor eram amigas de longa data. Quando ela tinha dez anos, seus pais embarcaram em um voo que nunca retornou. Pelos onze anos seguintes, ela viveu sob os cuidados dele, na imensa mansão da família de Heitor.
Tentar lembrar os detalhes da convivência com ele fazia sua cabeça latejar intensamente.
Nesse momento, o celular tocou. Ao ver o nome do Dr. Marcus na tela, Aurora atendeu imediatamente.
— Aurora, tenho notícias maravilhosas! Reserve sua passagem para a Alemanha agora mesmo. Consegui uma consulta com o nosso melhor neurocirurgião. Ele terá uma vaga para operar você em quinze dias! — A voz do médico tremia de empolgação através do aparelho.
— Mas há uma condição: se a cirurgia for um sucesso, você precisará morar permanentemente na Alemanha para que possamos monitorar seus dados como paciente sobrevivente.
— Morar para sempre na Alemanha?
Aurora apertou o celular, a voz trêmula. Um sentimento de relutância inundou seu coração, e o rosto frio e imponente de Heitor surgiu em sua mente.
Com os olhos marejados, ela perguntou hesitante: — E se... e se a cirurgia falhar?
Houve um silêncio pesado do outro lado da linha, interrompido apenas pela respiração densa do Dr. Marcus. Depois de um longo tempo, ele suspirou e disse: — O próximo voo de Pequim para Berlim é em sete dias. Já reservei seu lugar. Ajuste seu alarme e não perca esse voo.
Quando o Dr. Marcus desligou, a ficha finalmente caiu para Aurora. Se a cirurgia falhasse, ela dormiria para sempre em solo alemão.
Portanto, aqueles sete dias seriam sua última chance de estar naquela casa e a última oportunidade de consertar as coisas com seu tio.
A luz do sol atravessava a janela, mas Aurora não sentia calor algum. Ela olhou para uma foto sobre a mesa onde aparecia ao lado de Heitor e sussurrou suavemente: — Tio...
Mal as palavras saíram de sua boca, uma voz grave e severa ressoou atrás dela.
— Aurora.
O coração dela saltou. Ao se virar, viu Heitor parado à porta do quarto, sem dar nem um passo para dentro. Ele estava mantendo uma distância deliberada.
Era irônico, pois cada detalhe daquele quarto fora escolhido pessoalmente por ele quando a trouxe para casa, preocupado que Aurora não se adaptasse ou não dormisse bem.
Uma pontada aguda de dor atingiu o cérebro de Aurora, e memórias esquecidas começaram a emergir como ondas.
Aos dez anos, Heitor a acolheu e cuidou de cada detalhe de sua vida. Aos onze, temendo que ela sofresse, ele instalou ar-condicionado em todas as salas de aula e patrocinou o refeitório inteiro através das Empresas de sua família.
Aos doze, quando ela contraiu uma gripe severa e os médicos estavam sem esperanças, Heitor subiu de joelhos os quase dez mil degraus de um templo sob uma chuva torrencial para rezar por ela.
Ele disse: "Peço aos céus que protejam Aurora. Que ela viva livre de medo e preocupação, que seus desejos se realizem e que ela tenha uma vida longa."
Cada um desses gestos estava gravado em sua alma. Como Aurora poderia não amá-lo?
Com o rosto pálido e a garganta seca, ela quis perguntar por que ele agia agora com tanta frieza. No entanto, Heitor apenas franziu o cenho e questionou com irritação: — Por que você não foi jantar com o Felipe ontem à noite?
Aurora só então se lembrou. Heitor havia arranjado um encontro para ela com Felipe, o herdeiro de uma família influente. Desde que ela confessou seus sentimentos por ele, há um ano, ele estava desesperado para casá-la com outra pessoa.
— Sinto muito, tio... eu esqueci...
Heitor desviou o olhar com desprezo. Seu terno impecável o deixava ainda mais intimidador. — Não quero mais ouvir essas desculpas.
— Como um pedido de desculpas, eu o convidei para jantar aqui em casa hoje à noite. Converse com ele seriamente. Se vocês se derem bem, casem-se o quanto antes. Com um filho, você finalmente criará juízo.
Heitor checou o relógio de pulso e disse: — Felipe chega às sete. Você tem uma hora para se arrumar.
Ele saiu sem olhar para trás. Mal notou que a menina que ele um dia criou com tanto zelo estava agora reduzida a pele e osso.
E fazia sentido. Desde aquela confissão infeliz há um ano, Aurora deixou de ser a prioridade dele. Ele bloqueou o número dela e deu ordens à secretária: "Não me tragam mais nenhum assunto relacionado à Aurora."
Até os seguranças da empresa foram instruídos a impedi-la de entrar, dizendo: "O Sr. Heitor deu ordens para que nem Aurora, nem cães, entrem aqui." Sempre que ela aparecia no campo de visão dele, ele se afastava imediatamente.
Ele a ignorou por seis meses. Foi nesse momento que Aurora percebeu que o mundo era vasto o suficiente para que, mesmo vivendo na mesma cidade e na mesma casa, eles passassem meio ano sem se ver uma única vez.
Lembrando-se de tudo isso, a cabeça de Aurora voltou a doer de forma insuportável. Após um longo tempo, ela abriu o celular e alterou a nota prioritária em seu bloco de notas:
"Meu guardião se chama Heitor. Ele é meu tio, meu único parente. Nunca mais nutrirei qualquer sentimento por ele."