Maya observava a janela em silêncio, sentindo uma frieza cortante em seu coração.
Lá embaixo, a algazarra festiva misturava-se às risadas alegres de Letícia.
Aquele som de felicidade apenas acentuava o quão desolado era o andar de cima.
O Grupo Silva fora entregue a Letícia como um presente de aniversário por Arthur. Seu pai fora condenado à morte.
O destino de sua mãe era incerto, entre a vida e a morte.
E ela mesma estava presa por Arthur naquele sótão.
A festa de aniversário que ele organizara para Letícia era, na verdade, um banquete de celebração pela vingança bem-sucedida contra a família Silva.
Os dedos de Maya apertaram o parapeito da janela até que os nós de seus dedos ficassem brancos.
Nesse momento, a porta foi aberta abruptamente e uma empregada entrou, com um sorriso sinistro nos lábios, jogando duas fotos diante de Maya.
— Senhorita Silva, o patrão me mandou aqui para lhe dizer que a sua família finalmente foi eliminada por completo.
Maya ficou estática, observando os lábios da empregada se moverem, mas era como se tivesse ficado surda; não conseguia ouvir nada.
Certamente era uma alucinação! Sua mãe estava apenas hospitalizada, como poderia ter morrido?
Seu pai ainda não havia chegado à data da execução, como estaria morto?
O olhar de certeza da empregada, porém, encheu seu coração de pavor.
Maya apertou os punhos e, após hesitar por um instante, baixou o olhar para as duas fotos no chão.
A cena diante de seus olhos fez suas pupilas tremerem e seu espírito se despedaçar!
Sua mãe estava deitada em uma cama de hospital branca, com os olhos fechados e o peito manchado de sangue, que também tingia o lençol.
Seu pai estava caído no chão, sem vida, com os pulsos retalhados em carne viva.
O vermelho escarlate das fotos queimou os olhos de Maya; o mundo inteiro parecia tingido de sangue.
Maya cambaleou e desabou no chão, seu corpo tremendo incontrolavelmente.
Ela rastejou soluçando, pegando as fotos com mãos trêmulas e pressionando-as contra o peito. Entre gemidos de dor, ela murmurou:
— Pai... mãe!
A empregada, vendo a dor profunda de Maya, inclinou-se e sussurrou em seu ouvido:
— Seus pais morreram por sua causa! Se você não tivesse se intrometido entre o patrão e a senhorita Letícia, por que ele se vingaria da família Silva? Valeu a pena? Você se esforçou tanto para casar com o patrão e, no fim, não conseguiu o amor dele e ainda causou a morte de toda a sua família. O patrão mandou perguntar: depois de ocupar o lugar da senhorita Letícia por tanto tempo, como você ainda tem coragem de continuar viva?
Maya estremeceu por inteiro ao ouvir aquelas palavras.
Ela apertou as fotos contra o peito e mordeu os lábios com força. Tudo era culpa dela...
A empregada, vendo Maya encolhida no canto e tremendo, exibiu um olhar de triunfo e deixou um último aviso:
— O patrão anunciará o noivado com a senhorita Letícia em breve. É melhor você dar o fora e liberar o lugar dela o quanto antes!
Maya ficou sozinha novamente. Imagens de seus pais a amando e mimando em cenas calorosas passavam por sua mente.
Ela não sabia quanto tempo ficou sentada no chão. O vento frio que soprava da janela e a umidade das lágrimas em seu rosto a fizeram despertar.
A música festiva lá embaixo soava como agulhas venenosas, perfurando seu corpo e tirando-lhe o fôlego.
Ela segurou as duas fotos nas mãos, acariciando suavemente as imagens com as pontas dos dedos e sorriu baixo: — Pai, mãe, esperem por mim. Estou indo pedir perdão a vocês.
Maya guardou as fotos no bolso e abriu uma gaveta, retirando o isqueiro que um dia dera de presente a Arthur. Ela tocou o desenho no isqueiro por um momento e, no segundo seguinte, sem hesitar, ateou fogo às cortinas.
Enquanto isso, no portão da mansão Valente, Arthur, vestindo um terno sob medida, estava ao lado de Letícia recebendo os convidados.
Letícia acabara de voltar ao país e queria usar a influência dos Valente para se estabelecer no mundo do entretenimento.
Arthur, grato pela criação de seus pais adotivos, tratava Letícia, com quem crescera, como uma irmã. Ele usava aquela festa como uma oportunidade para apresentá-la a diretores e produtores renomados.
Arthur olhava ocasionalmente para o sótão, com um olhar carregado de angústia. Seus dedos se contraíram involuntariamente e uma ansiedade inexplicável começou a crescer em seu peito.
Um diretor famoso aproximou-se, mas Arthur parecia não notar, permanecendo estático, perdido em pensamentos. Somente quando Letícia o cutucou é que ele pareceu despertar.
Arthur ia caminhar para cumprimentar o convidado quando, de repente, tropeçou no degrau. Seu coração disparou violentamente e um pavor imenso o dominou.
Nesse momento, gritos vieram de trás e um empregado gritou em pânico: — O sótão está pegando fogo!
Arthur olhou para cima e viu uma fumaça densa e preta saindo pelas janelas do sótão, subindo aos céus.
Seu rosto empalideceu instantaneamente e seu coração pareceu parar. Um empregado correu até ele: — Patrão, não é bom! A senhora ainda está lá dentro!
Arthur, desesperado, correu em direção ao sótão, mas parou abruptamente ao chegar à porta. Através das chamas, ele viu as costas de Maya.
Como se sentisse a presença dele, ela se virou e o olhou em silêncio. O olhar de Maya transbordava desespero.
Arthur ficou paralisado no lugar. No segundo seguinte, o fogo consumiu o corpo dela.