A luz do sol que entrava pela janela incidia sobre Maya, mas, de repente, ela sentiu um calafrio.
Após um momento de silêncio, ela se levantou lentamente e disse com voz monótona: "Tudo bem".
Então, era por isso que Arthur havia deixado sua amada de lado para vir acompanhá-la.
Diferente da dor que sentira na vida passada, desta vez, quando o homem lhe disse aquelas palavras, seu coração estava estranhamente calmo.
O médico tradicional fora trazido especialmente por sua mãe para cuidar de sua saúde.
Maya pediu que sua mãe agendasse uma nova consulta com o Dr. Wang para dali a três dias, na mansão Valente.
Após o jantar, os dois voltaram para casa. No banco de trás do carro, a distância entre eles era mínima, mas Maya sentia como se estivessem separados por uma galáxia.
Enquanto observava Arthur imerso no trabalho, ela desviou o olhar para a janela.
Nesta vida, ela não queria mais ficar presa ao emaranhado emocional entre Letícia e Arthur; ela viveria para si mesma.
Ao saírem do carro, Arthur disse subitamente: "Obrigado".
Em seguida, ele desceu primeiro e caminhou em direção ao pátio.
Maya olhou para as costas dele e sentiu as correntes que a prendiam se quebrarem subitamente.
Com um tom leve, ela disse: "Arthur, vamos nos divorciar".
Arthur virou-se bruscamente, um brilho gélido passando por seus olhos profundos enquanto suas mãos se fechavam ao lado do corpo.
"Que bobagem você está dizendo? A Letícia acabou de voltar e você já quer causar um divórcio? Quer destruir a carreira dela no entretenimento?"
Cada palavra atingia Maya como flechas envenenadas, fazendo seu coração sangrar. Ela sequer mencionara o nome da outra, mas Arthur pensara nela imediatamente.
Ele amava Letícia a ponto de considerar a reputação dela antes de tudo; já Maya, mesmo agindo com boas intenções para libertá-lo, era vista como alguém mal-intencionada.
Ao notar os olhos marejados de Maya, Arthur sentiu um desconforto estranho e desviou o olhar, afastando-se logo em seguida.
Nos dois dias seguintes, Arthur e Letícia saíam cedo e voltavam tarde, quase não se cruzando com Maya.
Na imensa mansão, Maya jantava sozinha em uma mesa vazia. Certa manhã, ela foi acordada por batidas na porta.
A voz do mordomo veio do corredor:
"Senhora, o patrão está chamando. Por favor, desça rápido".
Maya, ainda sonolenta, ficou confusa: por que Arthur estaria em casa hoje?
Ao descer, viu Arthur, Letícia e o Dr. Wang sentados no salão. Maya apertou o corrimão da escada, sentindo uma pontada de amargura.
Arthur, que ia à empresa todos os dias, tirara um tempo hoje apenas por causa de Letícia.
E ainda a chamara para servir de fachada, evitando que a reputação de Letícia fosse manchada.
O Dr. Wang examinou Maya e, ao constatar que estava tudo bem, prescreveu uma dieta medicinal para fortalecer seu corpo.
Quando ele se preparava para sair, Arthur interveio:
"Dr. Wang, poderia examinar a Letícia também?"
O médico olhou surpreso para Maya, pois a mãe dela pedira atendimento apenas para a filha.
Maya parou a xícara de chá no ar, olhou para o médico e disse suavemente:
"Dr. Wang, por favor, eu agradeço o esforço".
O médico assentiu e examinou Letícia, redigindo uma prescrição.
Enquanto um empregado servia o chá, o bule quente escorregou de sua mão e voou em direção aos três.
O primeiro instinto de Maya foi tentar proteger Arthur, mas ele, sentado ao lado dela, lançou-se imediatamente para frente de Letícia.
Maya observou as costas do homem, sentindo o coração ser transpassado por aquela cena.
Dizem que a reação instintiva é a mais verdadeira: o homem que ela queria proteger estava protegendo outra mulher.
Com os olhos marejados e a visão turva, Maya nem percebeu o bule quebrando no chão.
A água fervente respingou em seu tornozelo exposto, causando uma dor aguda que a fez soltar um grito baixo.
Contudo, seu lamento foi abafado pela fúria de Arthur.
"Não consegue fazer nem algo tão simples? Procure o mordomo e receba seu acerto de contas", gritou ele.
A empregada aterrorizada olhou para Letícia. Com uma expressão de preocupação, Letícia disse suavemente:
"Arthur, não seja duro com ela. Eu só levei um susto, vou descansar e ficarei bem".
Diante da insistência dela, a raiva de Arthur diminuiu um pouco.
Ele ajudou Letícia a se levantar, desviando dos cacos de vidro, e disse para Maya:
"A Letícia ficou assustada, vou levá-la para o quarto". Ele saiu sem lançar um único olhar para a Maya pálida.
Maya sentia o coração entorpecido pela dor intensa. No salão, os empregados limpavam os restos do bule.
O Dr. Wang, antes de partir, notou a marca vermelha no pé dela e exclamou: "Senhora Valente, precisamos cuidar disso para não deixar cicatriz". Ele aplicou uma pomada e, após algumas orientações, retirou-se.
De volta ao quarto, Maya encarava a foto de casamento na parede: ela sorridente, Arthur inexpressivo. Naquela foto, apenas ela estava feliz com o casamento. Sentindo um frio que vinha do fundo da alma, ela se abraçou com força.
A porta se abriu e Arthur entrou com um copo de leite quente.
Vendo Maya desolada na cama, ele estendeu o copo e disse: "O mordomo disse que você se queimou. Deixe-me ver".
Sem sequer olhá-lo, Maya deitou-se e cobriu-se: "Estou bem. Vá cuidar da Letícia. Estou cansada e quero dormir".
O tom era de total distanciamento.
Arthur apertou o copo, ensaiou dizer algo, mas ao ver que ela fechara os olhos, retirou-se em silêncio.
Maya caiu em um sono inquieto e logo começou a ter pesadelos.
Ela sonhou novamente com a vida passada: a cena de seu pai indo para a cadeia e ela implorando a Arthur sob a chuva torrencial.
"Arthur, se você me odeia, desconte em mim! Eu aceito o divórcio, nunca mais aparecerei na sua frente, mas por favor, poupe minha família!", clamava ela no sonho.
Mas Arthur apenas se virava com indiferença, deixando-a cair no abismo enquanto sua voz gélida ecoava:
"Maya, as provas são claras. A família Silva colheu o que plantou".