Aquele era o dia da cerimônia de premiação do "Golden Angle", o prêmio de maior prestígio no mundo do design internacional.
Alice (Xia), com sua série "Rebirth" — dotada de imenso valor artístico e significado social —, conquistou a honraria máxima sem surpresas.
Ela subiu ao palco vestindo um longo branco minimalista; os cabelos curtos estavam impecáveis e seu sorriso era perfeitamente adequado.
Os refletores convergiam sobre ela sob o olhar atento de todos.
Ao receber o pesado troféu, diante dos maiores designers, críticos e veículos de mídia do mundo, ela começou a falar.
Sua voz, através do microfone, alcançou cada canto do auditório e, pelo sinal da transmissão ao vivo, espalhou-se pelo mundo.
— Obrigada aos jurados e a todos que apoiam a marca "Reborn". Este prêmio não pertence apenas a mim, mas a cada alma que já lutou na escuridão e nunca desistiu de procurar a luz.
Ela fez uma pausa, e seu olhar percorreu o auditório com serenidade, como se atravessasse o tempo e o espaço para enxergar um lugar muito distante.
— Eu já vivenciei a escuridão absoluta. Já fui "profundamente amada" e também completamente destruída.
O auditório mergulhou em um silêncio absoluto.
— Alguém um dia me disse que o amor é a salvação. Mas o que aprendi com o meu próprio corpo é que certos tipos de amor são arsênico disfarçado com o açúcar mais doce.
Sua voz era firme, sem embargos ou agitação; havia apenas a paz e a lucidez de quem já atravessou mil tempestades.
— Eles fazem você tomá-lo de bom grado para, no momento de maior felicidade, arrastá-lo ao inferno e estraçalhar todas as suas ilusões e esperanças.
A câmera captou a cicatriz pálida em seu pulso que, sob as luzes, parecia uma nota de rodapé silenciosa.
— Eu cheguei a pensar que minha vida tinha terminado naquele incêndio. Mas depois entendi que o que terminou foi apenas aquela "Clarice" que dependia dos outros e esperava por salvação.
Ela ergueu levemente o queixo, com um olhar límpido e determinado.
— A verdadeira redenção nunca esteve nas mãos de outra pessoa. Ela está no seu próprio coração, na coragem de se levantar após cada queda, na decisão de transformar cicatrizes em força e no despertar de, finalmente, aprender a viver apenas para si mesma. Das ruínas podem brotar as flores mais resilientes. Sob as cicatrizes, pode crescer a armadura mais resistente. Obrigada por todos aqueles danos; eles não me mataram, pelo contrário, permitiram que eu me tornasse a Alice de hoje.
Ao terminar o discurso, após um breve silêncio, o salão explodiu em uma salva de palmas estrondosa e incessante.
Inúmeras pessoas se levantaram para aplaudi-la, ovacionando-a e chorando por ela.
Ela não era apenas uma designer brilhante, mas um símbolo inspirador de uma era, um farol no coração de muitos.
Nas sombras de um canto do auditório, dois homens estavam presentes: um sentado e outro em pé.
Sentado estava Arthur, em uma cadeira de rodas, apertando com força uma gardênia há muito murcha.
Em pé estava Bernardo, vestindo um casaco velho e desbotado, com a barba por fazer e um olhar vazio.
Ambos observavam a mulher radiante no palco. Ouviam suas palavras calmas e poderosas.
Cada frase era como um ferro em brasa, queimando suas almas já em frangalhos.
"Já fui profundamente amada e também completamente destruída."
"Certos tipos de amor são arsênico disfarçado com o açúcar mais doce."
"A verdadeira redenção sempre vem de si mesmo."
As lágrimas de Arthur rolaram sem aviso.
Quentes, atingiram o dorso de sua mão magra e a flor ressequida.
Ele abriu a boca, querendo gritar o nome dela, mas nenhum som saiu.
Apenas de sua garganta escaparam soluços abafados e fragmentados.
Bernardo também mantinha a cabeça erguida, com as lágrimas escorrendo livremente pelo rosto sujo.
Ele lembrou-se da pétala seca no chalé.
Lembrou-se do olhar gélido dela para ele. Lembrou-se dela dizendo:
"Não me cause nojo".
Sim.
O amor que eles deram era arsênico.
Eles não tinham o direito de falar em amor.
Só lhes restava observar a luz dela das sombras, arrependendo-se pelo resto de suas vidas, sem jamais obter o perdão.
No palco, Alice ergueu o troféu com um sorriso de agradecimento.
As luzes convergiam sobre ela, formando uma aura deslumbrante.
Ela finalmente se libertara de todas as correntes, de todos os pesadelos e de todo o passado sórdido.
Voava agora em direção ao seu próprio céu, vasto e livre.
E aqueles dois homens nas sombras sabiam.
Eles a perderam para sempre.
No dia em que, com as próprias mãos, a empurraram para o inferno.
No momento em que escolheram amá-la com mentiras e danos.
Ali, já a tinham perdido para sempre.
A câmera se afastou lentamente.
No palco, o brilho da glória.
Na plateia, a sombra infinita do remorso.
E entre os dois, um abismo que eles jamais conseguiriam cruzar, nem mesmo dedicando a isso o resto de suas vidas.
[FIM]