Ao mesmo tempo, a exposição de joias "Nirvana", de Alice, teve sua grande abertura em Paris conforme o planejado.
Não foi afetada por nenhum dos escândalos. Pelo contrário, devido às sucessivas polêmicas envolvendo o Grupo Pei e a família Liang, sua imagem como sobrevivente e fênix renascida tocou ainda mais o público, atraindo mais atenção e elogios de todo o mundo.
A exposição foi um sucesso sem precedentes.
Na noite de encerramento, ela realizou uma conferência de imprensa com transmissão global ao vivo.
Na ocasião, Alice respondeu publicamente, pela primeira vez, a todos os rumores recentes que a cercavam.
Não houve choro, nem drama sentimental. Vestindo um vestido preto simples, ela se posicionou sob os holofotes e expôs os fatos de forma calma, clara e poderosa.
Ela admitiu ser a Clarice de anos atrás. Admitiu que todas as feridas foram reais.
Então, diante de todos, retirou o icônico bracelete "Scars" de seu pulso.
Ela exibiu aquela cicatriz de queimadura, pálida e sinuosa, sem qualquer disfarce para o mundo inteiro.
Ouviu-se um coro de exclamações abafadas na plateia.
As câmeras focaram freneticamente na marca. Alice, porém, sorriu. Um sorriso pleno, forte, carregando a serenidade e o poder de quem sobreviveu a uma catástrofe.
— Esta cicatriz é uma marca deixada pelo passado — disse ela para a câmera, com voz estável e firme. — Ela me lembra da escuridão pela qual passei e testemunha o meu renascimento. Não me envergonho dela, pois faz parte de quem eu sou e é o testemunho da minha história.
— Hoje, estou aqui não apenas como designer, mas como porta-voz de inúmeras mulheres que um dia foram silenciadas e feridas.
Ela anunciou que todos os lucros de sua marca pessoal, bem como toda a receita das vendas da coleção "Nirvana", seriam doados permanentemente para a criação da "Fundação Rebirth".
A instituição seria dedicada exclusivamente a apoiar vítimas de violência sexual e doméstica em escala global, oferecendo assistência jurídica, médica, psicológica e treinamento profissional para ajudá-las a sair das sombras e reconstruir suas vidas.
Após o anúncio, o salão ficou em choque por um instante, seguido por uma salva de palmas estrondosa. Inúmeras mulheres choraram diante das telas.
Alice não era mais apenas um nome ou uma designer. Ela se tornara um símbolo.
Uma representação espiritual de quem se ergue das ruínas, transforma cicatrizes em medalhas de honra e se volta para iluminar o caminho de outros. Ela tinha, de fato, alcançado o Nirvana. Radiante, inalcançável.
Cinco anos depois.
Em Paris, em frente ao ateliê de Alice, uma pequena floricultura abriu silenciosamente.
A loja era pequena, com decoração simples, e vendia apenas um tipo de flor: gardênias.
Todas as manhãs, a primeira tarefa da floricultura ao abrir era selecionar o buquê mais fresco e alvo de gardênias, podá-las com cuidado, embalá-las e, então, o próprio dono as entregava na recepção do ateliê de Alice, no topo daquele arranha-céu.
O dono era um homem oriental.
Não era velho, mas tinha os cabelos grisalhos nas têmporas, a silhueta magra e o rosto sempre com uma palidez doentia.
Ele era um homem de poucas palavras; apenas entregava as flores em silêncio todos os dias.
Nunca pedia para ver Alice, nem deixava cartões ou mensagens.
A recepcionista, que inicialmente demonstrava surpresa e recusava, acabou se acostumando.
As flores chegavam pontualmente todos os dias, sem interrupção. Alice nunca as aceitava.
Aquelas gardênias brancas acabavam sendo distribuídas pela recepcionista entre os colegas ou levadas para casa ao fim do expediente.
O homem nunca desanimava. Dia após dia, ano após ano.
Era como se o ato de enviar as flores fosse, por si só, todo o sentido de sua existência.
Ocasionalmente, ao sair do trabalho, Alice via, através da janela do carro, aquele homem magro parado à porta da floricultura, observando silenciosamente a direção do prédio dela.
No instante em que seus olhares se cruzavam, o homem baixava a cabeça rapidamente e entrava na loja, como se tivesse medo de perturbá-la.
O olhar de Alice permanecia imperturbável, como se olhasse para uma árvore ou um poste na rua. Então, o carro seguia caminho suavemente. Ela sabia quem ele era. Arthur. O homem que um dia destruiu tudo o que ela tinha e quase morreu diante dela. Ele sobreviveu ao tiroteio, mas ficou com sequelas graves e sua saúde nunca mais foi a mesma.
O Grupo Pei sofrera um golpe devastador naquela crise e, embora não tivesse falido, nunca recuperou a glória de outrora.
Arthur entregara o grupo a gestores profissionais e desaparecera.
No fim, viera para Paris.
Abrira aquela floricultura em frente a ela. Usando essa forma para velar por alguém que jamais olharia para trás.
Alice achava patético, mas nada além disso. Seu coração era agora uma terra congelada e rígida, incapaz de florescer em perdão ou comoção.
Outro homem, Bernardo, teve bom comportamento na prisão, obteve redução de pena e foi libertado há um mês após cumprir sua sentença.
No dia em que saiu, não avisou ninguém.
Foi sozinho para Paris. Ele não ousava se aproximar do ateliê de Alice; apenas ficava de longe, na esquina da rua, observando aquele edifício que tocava as nuvens.
Observava aquela mulher que ele ferira tão profundamente agora entrar e sair radiante, cercada por todos.
Ele sabia que não tinha o direito nem de enviar flores. Só podia, como um rato no esgoto, esconder-se nas sombras e admirar a vida solar e brilhante dela.
Às vezes, ele cruzava com Arthur na floricultura.
Os dois se olhavam de lados opostos da rua, em silêncio. Um na loja, outro na esquina. A mesma decadência, o mesmo arrependimento, a mesma... eterna falta de redenção.