A crise do Grupo Pei foi como uma avalanche, varrendo o mundo inteiro da noite para o dia.
As ações despencaram e o valor de mercado evaporou em dezenas de bilhões. Bancos cobravam empréstimos, parceiros manifestavam desconfiança e o pânico se instalava internamente.
Arthur retornou às pressas de Paris, assumindo o comando na sede, participando de reuniões, mediações e estratégias de resposta sem descanso.
Ele demonstrou uma calma e um punho de ferro impressionantes: enquanto estabilizava as operações centrais, lançava campanhas de relações públicas de crise e usava toda a sua influência para rastrear a origem do e-mail, tentando minimizar os danos.
Mas é mais fácil desviar de um ataque aberto do que de uma flecha oculta.
Enquanto Arthur estava sobrecarregado, um antigo rival, que estivera em silêncio por muito tempo, aproveitou a oportunidade.
Ele planejou um sequestro contra Arthur, com a intenção de forçá-lo a entregar tecnologias essenciais e fatias de mercado.
Não se sabe como, mas eles obtiveram o endereço e o itinerário de Alice em Paris.
Sequestraram-na, usando-a para chantagear Arthur e exigir que ele fosse sozinho a um local designado para a troca.
A notícia chegou aos ouvidos de Arthur durante uma videoconferência crucial. Carlos sussurrou em seu ouvido; o rosto de Arthur escureceu instantaneamente e a reunião foi interrompida no ato.
— Chamaram a polícia? — perguntou ele, com a voz tensa.
— A polícia de Paris já foi notificada, mas os sequestradores são astutos. O local escolhido é um cais abandonado; muita gente pode alertá-los. Eles exigem que o senhor vá sozinho, caso contrário... — Carlos hesitou.
Arthur fechou os olhos e respirou fundo. Quando os abriu, havia uma determinação gélida em seu olhar.
— Prepare o avião para Paris. — Ele se levantou, afrouxando a gravata. — Avise nosso pessoal em Paris para agir conforme o plano, mas a segurança dela é a prioridade absoluta.
— Sr. Arthur, é perigoso demais! É claramente uma armadilha! E a Srta. Alice pode nem... — Carlos tentou intervir.
— Faça o que eu mandei — Arthur o interrompeu, num tom inquestionável.
Ele sabia que era uma armadilha. Sabia que, com a capacidade e a mentalidade atual de Alice, ela talvez nem precisasse ser salva por ele. Ele até cogitou que aquilo pudesse ser... parte de um plano dela?
Mas esse pensamento foi apenas um lampejo, logo submerso por um pânico mais forte. Ele não podia correr nenhum risco. Nem mesmo se houvesse uma chance em dez mil de ela se ferir.
No cais abandonado, o vento noturno era cortante, impregnado com o cheiro de ferrugem e a maresia salgada. Arthur, seguindo as instruções, caminhou sozinho até o ponto de encontro.
Havia sete ou oito homens armados. Alice estava amarrada a uma cadeira, com a boca coberta por fita adesiva. Ela parecia um pouco desalinhada, com o cabelo bagunçado, mas seu olhar permanecia calmo, carregando até um toque de... deboche? Ao ver que Arthur realmente viera sozinho, esse deboche pareceu se intensificar.
A negociação fracassou rapidamente. Os criminosos não queriam apenas tecnologia; queriam que Arthur assinasse um acordo de transferência de ações para absorver completamente o Grupo Pei. Arthur tentava ganhar tempo enquanto dava o sinal secreto para seus homens emboscados nas proximidades.
De repente, tiros ecoaram sem aviso! O líder dos sequestradores, vendo que Arthur não cooperava, enfureceu-se e virou a arma diretamente para Alice!
— Arthur! Se não aceitar, eu mato ela primeiro!
— Não! — As pupilas de Arthur se contraíram. Sem pensar, ele se lançou à frente dela!
— POW!
O som do disparo. O baque surdo da bala perfurando a carne. O corpo de Arthur estremeceu enquanto ele servia de escudo para Alice. Um líquido quente ensopou instantaneamente seu paletó.
O cais mergulhou no caos. Os homens da emboscada surgiram, trocando tiros com os sequestradores. Tiros, gritos, sons de correria... tudo se misturou.
Arthur caiu, o sangue jorrando de seu abdômen e manchando o chão. Seu rosto empalideceu rapidamente e sua consciência começou a desaparecer. No entanto, ele se esforçou para virar a cabeça e olhar para Alice, que fora rapidamente libertada pelos seguranças.
Ele abriu a boca, querendo dizer algo, mas apenas uma golfada de sangue saiu.
Alice, protegida pelos seguranças, estava parada a alguns passos de distância. Ela o observava caído na poça de sangue, vendo-o olhar para ela com dificuldade. No rosto dela não havia pânico, nem tristeza, nem sequer muita surpresa. Havia apenas uma calma profunda e complexa. Como se aquela cena já estivesse prevista em seus cálculos. Ou talvez, como se ela simplesmente não se importasse.
Os seguranças queriam retirá-la imediatamente dali. Alice deu um último olhar para Arthur. Foi um olhar leve. Sem emoções. Como se olhasse para um estranho, um pedestre qualquer à beira da morte. Então, ela se virou e, cercada por sua equipe, partiu apressadamente em direção ao carro que a esperava na penumbra.
Ela não olhou para trás. O carro deu a partida e desapareceu rapidamente na escuridão da zona portuária. Restaram apenas o som cada vez mais fraco das sirenes e o homem no chão, cuja vida se esvaía velozmente.
Arthur observou a direção por onde ela sumira, sua visão escurecendo gradualmente. No canto da boca, surgiu um sorriso extremamente pálido e amargo.
Realmente... no fim... você não se importa...
A notícia de que Arthur estava gravemente ferido e entre a vida e a morte chegou ao país. O Grupo Pei ficou sem liderança e a crise se agravou. E, nesse exato momento, Bernardo fez algo que chocou a todos.
Ele se entregou voluntariamente à polícia. Confessou que, nos últimos cinco anos, sob as ordens de Arthur, assumira a identidade dele para manter relações sexuais com Clarice. Ele forneceu detalhes de datas, locais e até gravações ocultas e fotos como prova.
— Isso é crime sexual — declarou Bernardo ao se entregar, com o rosto sereno e o olhar vazio. — Foi um crime planejado por mim e por Arthur contra a Sra. Clarice durante cinco anos. Eu confesso.
A revelação causou um escândalo sem precedentes. O Grupo Pei, já abalado pelos problemas comerciais e pelo sequestro, foi jogado no centro de um furacão moral. A família de Bernardo usou todos os contatos para protegê-lo, mas ele estava determinado a aceitar a punição.
O julgamento ocorreu rapidamente. Bernardo confessou todas as acusações. O juiz perguntou: "Réu Bernardo, por que escolheu se entregar tantos anos depois do ocorrido?".
Bernardo estava no banco dos réus, vestindo o uniforme de prisioneiro. Estava magro, mas com as costas eretas. Ele silenciou por um longo tempo; o tribunal estava em silêncio absoluto. Então, ele ergueu a cabeça lentamente e olhou para um lugar vazio na galeria — Alice não viera, e jamais viria.
Ele respondeu, com a voz rouca, porém nítida:
— Para buscar redenção.
— E para que ela saiba... que aqueles que a feriram, finalmente pagarão o preço. Mesmo que esse preço seja a minha própria liberdade.
Bernardo foi condenado a doze anos de prisão por estupro e cumplicidade em abuso. No dia da sentença, sua família chorou desesperadamente. Ele, porém, manteve a calma.
Ao ser algemado e levado pelos policiais, Bernardo olhou uma última vez para a porta do tribunal antes de partir. O sol estava forte. Ele teve a impressão de ver, como há três anos, aquele perfil no chalé da fronteira, de cabeça baixa tocando piano. E lembrou-se daquela pétala de gardênia seca e manchada por lágrimas.
Perdão
, disse ele em seu íntimo.
Então, sem olhar para trás, caminhou em direção à porta que levava às grades e muros altos.