— O seu "amor" consiste em ajudar o seu melhor amigo, durante cinco anos, fingindo ser ele para dormir com a mulher que era legalmente dele? — A voz de Alice não era alta, mas cada palavra era um punhal.
— O seu "amor" é participar com entusiasmo, e até se divertir, enquanto ela era drogada, humilhada e tratada como um brinquedo?
Bernardo sentiu como se tivesse sido atingido por um raio. Ele paralisou no lugar, com o rosto perdendo todo o vestígio de cor.
Alice parou de olhá-lo.
Ela baixou a cabeça, retirou de sua bolsa de mão uma pequena caixa de remédios sem qualquer etiqueta e a jogou casualmente aos pés de Bernardo.
A caixinha atingiu o chão com um som leve.
— Este remédio — disse Alice em um tom monótono, como se descrevesse algo irrelevante — é para tratar vício em sexo.
Acho que você está precisando.
Bernardo olhou para baixo, fixando os olhos naquela pequena caixa. Sentiu um frio cortante, como se tivesse sido despido e jogado no meio do gelo; a vergonha e a agonia quase o sufocaram.
Alice ergueu a cabeça novamente, e seu olhar passou pelo rosto pálido dele para observar os neons que começavam a brilhar ao longe.
— Além disso — acrescentou ela casualmente, como se tivesse acabado de se lembrar de algo —, dê um recado ao Arthur por mim.
Bernardo levantou o rosto bruscamente para encará-la. O perfil de Alice, sob o crepúsculo, parecia extraordinariamente nítido e gélido.
— Estou enviando um grande presente para ele. — Seus lábios rubros se abriram levemente, e as palavras que proferiu fizeram Bernardo estremecer de frio.
— Já deve estar... quase chegando.
Dito isso, ela não parou mais. Sem dar um último olhar para Bernardo, caminhou direto para a entrada do saguão do edifício.
Os seguranças a seguiram de perto, bloqueando qualquer tentativa de Bernardo de segui-la com o olhar.
As portas do elevador se fecharam lentamente, refletindo a imagem de um Bernardo desolado, parado ali como se sua alma tivesse sido arrancada.
Naquela noite, à meia-noite.
Um e-mail anônimo e explosivo foi enviado simultaneamente para dezenas dos veículos de mídia financeira mais influentes do mundo, órgãos reguladores e para os principais concorrentes do Grupo Pei.
O conteúdo do e-mail era detalhado e as evidências, irrefutáveis. Incluía os métodos obscuros usados por Arthur em competições comerciais ao longo dos anos, brechas fiscais envolvendo operações multinacionais, vários acidentes de segurança em obras que foram abafados... e até mesmo uma cópia dos registros médicos do aborto "acidental" de Clarice, além de fragmentos de conversas e relatórios de avaliação psicológica que apontavam para "abuso psicológico prolongado por parte de Arthur, supostamente levando ao suicídio da ex-esposa".
Ao final do e-mail, havia uma nota:
Isto é apenas uma parte da verdade. Mais revelações em breve.
Embora a autenticidade de algumas evidências ainda precisasse ser verificada, a abrangência e o teor bombástico do conteúdo foram suficientes para desencadear um tsunami devastador.
Em menos de uma hora após o envio do e-mail, as notícias começaram a se espalhar freneticamente pela rede.
Duas horas depois, as ações do Grupo Pei listadas no exterior sofreram uma venda em massa sem precedentes logo na abertura; o valor das ações despencou em queda livre, acionando os mecanismos de interrupção de negociação (
circuit breaker
).
Às três da manhã, no quarto de hotel de Arthur em Paris, Carlos bateu na porta com urgência. Com o rosto lívido, ele colocou o notebook diante de Arthur.
Na tela, as manchetes de notícias financeiras eram atualizadas sem parar, exibindo capturas de tela do e-mail anônimo.
— Sr. Arthur, temos problemas. Alguém vazou informações anônimas envolvendo vários segredos centrais da empresa e... sua privacidade pessoal. As ações colapsaram, o conselho de administração não para de ligar e a mídia está tentando nos contatar loucamente...
Arthur, vestindo um roupão, estava sentado no sofá. Não havia expressão em seu rosto; ele parecia até um pouco calmo.
Apenas seus olhos estavam fixos na tela, na barra de informações do remetente do e-mail.
Remetente
: Anônimo.
Rastreamento de IP
: Paris, França.
Paris. A cidade onde Alice estava.
Lentamente, ele curvou o canto da boca.
— É ela — sussurrou ele, com a voz rouca, porém com uma certeza bizarra.
Carlos paralisou: — O senhor quer dizer... a Srta. Alice? Isso... é possível? De onde ela teria tanto poder...
— É ela — repetiu Arthur, sem tirar os olhos da tela. — Só ela. E só ela faria isso e seria capaz de fazer.
Ele sabia que ela estava se vingando. Do jeito dela, usando a faca mais afiada e precisa para atingir o seu ponto mais vital. Destruindo o que ele mais valorizava: o Grupo Pei, seu império comercial, seu poder e seu status. E até destruindo o que restava de sua reputação.
Ele deveria estar furioso, deveria estar em pânico, deveria tomar todas as medidas imediatas para contra-atacar e remediar a situação.
No entanto...
Ao olhar para aquelas acusações chocantes na tela e para a curva de queda das ações, o que surgiu em seu coração não foi raiva, nem medo. Mas sim uma sensação de... libertação quase autodestrutiva. E um toque de... alívio distorcido.
Veja, ela o odiava. Odiava-o a ponto de não hesitar em usar toda a sua força para arrastá-lo ao inferno. O ódio era melhor do que a indiferença. O ódio significava que ela ainda se importava. Mesmo que se importasse apenas em como destruí-lo.
Ele começou a rir baixo. No início era uma risada contida, que foi se tornando mais alta e delirante, até transformar-se em uma tosse severa.
— Cof, cof... cof, cof, cof...
Ele se curvou, tossindo violentamente como se fosse rasgar os pulmões. Carlos, assustado, aproximou-se apressado: — Sr. Arthur! O senhor está bem? Vou chamar o médico agora mesmo!
Arthur balançou a mão, sinalizando que não era necessário. A tosse acalmou-se gradualmente. Ele empertigou-se e limpou o canto da boca. Nos dedos, uma mancha de um vermelho escarlate gritante.
Ele encarou aquela mancha de sangue por alguns segundos e sorriu novamente. Sorriu tanto que as lágrimas surgiram.
Ele sabia. Aquela era a vingança dela. O "grande presente" que ela enviara.
E ele... o aceitava com prazer.