Um coração morto.
Não sente dor.
Cada palavra era como um cinzel de gelo, golpeando com força o coração de Arthur, que já estava em frangalhos! Ele vacilou, quase incapaz de se manter de pé, com o rosto pálido como papel.
Alice parecia não notar o estado dele; ela apenas inclinou a cabeça levemente: — Se o Sr. Arthur não tiver mais nada, peço licença. Ainda tenho muitos detalhes da montagem para confirmar.
Dito isso, ela se virou para partir.
— Clarice! — Arthur gritou por ela, com a voz fragmentada, carregando o desespero de alguém que se afoga e tenta agarrar um tronco. — Perdão... Clarice... me perdoe... eu sei que errei... errei terrivelmente... Me dê uma chance... eu te imploro, me dê uma chance de compensar... farei qualquer coisa que você quiser...
Alice parou os passos, mas não se virou. Suas costas estavam eretas, como um bambu resiliente que resistira à nevasca. Após alguns segundos, ela se virou lentamente. O sorriso em seu rosto desaparecera completamente, restando apenas um olhar frio e um sarcasmo indisfarçável.
— Sr. Arthur — a voz dela era leve, mas parecia agulhas mergulhadas no gelo —, nós somos íntimos por acaso?
Arthur sentiu como se tivesse sido atingido por um raio, paralisado no lugar. Alice deu um passo à frente, aproximando-se dele, e ergueu o rosto para encarar aqueles olhos repletos de agonia e súplica. O olhar dela era como se observasse um artista de circo ridículo.
— Ah, deixe-me lembrá-lo de uma coisa — ela abriu os lábios rubros, proferindo palavras afiadas como facas. — Meu nome é Alice. Alice de "alvorecer", como o novo dia.
— Quem é Clarice?
Ela inclinou levemente a cabeça, exibindo uma expressão de dúvida perfeitamente calculada.
— Não conheço.
Então, ela ergueu o pulso, colocando aquela cicatriz suave diante dos olhos de Arthur. Sob as luzes brilhantes do pavilhão, a marca era nítida.
— Isso aqui? — ela usou um tom casual, como se falasse do clima. — Foi mordida de cachorro.
Ela recolheu a mão, acariciando levemente a cicatriz, e voltou a fixar o olhar no rosto de Arthur com um lembrete de uma bondade quase cruel.
— O senhor também deveria ter cuidado.
— Mordida de cachorro louco dói muito.
Ao terminar de falar, ela ignorou o rosto instantaneamente acinzentado e sem vida de Arthur. Virou-se e, cercada por assistentes e seguranças, deixou o pavilhão sem olhar para trás. Restou apenas Arthur, parado ali sozinho. Como uma escultura da qual a alma fora arrancada.
O pesado catálogo da exposição em sua mão caiu com um baque surdo no chão de mármore polido. O som ecoou no vazio, assim como o seu coração naquele momento: completamente esmagado por aquelas poucas palavras indiferentes, transformado em cinzas.
O que aconteceu com Arthur no museu foi como uma tortura pública, espalhando-se rapidamente pelo pequeno círculo de chineses em Paris. Bernardo, naturalmente, também ouviu. Ele estava sentado em seu apartamento temporário em Paris, com a bebida à frente, mas sem tomar um gole.
Ele sabia que Arthur estava acabado. Aquele Arthur orgulhoso, que controlava tudo, havia se quebrado diante de Alice de uma forma que jamais seria consertada. E quanto a ele? Bernardo entornou o copo de bebida forte de uma vez; o líquido queimou sua garganta, mas não aplacou o vazio e a dor surda em seu peito.
Ele também estava acabado. Desde muitos anos atrás, na primeira vez em que entrou naquele quarto fingindo ser Arthur, talvez o destino de hoje já estivesse selado. Mas ele ainda queria vê-la. Nem que fosse uma última vez, para dizer algo... que nem ele mesmo sabia o que seria.
Ele usou alguns meios não convencionais para descobrir o endereço de Alice em Paris — um apartamento de luxo com segurança extremamente rigorosa. Ele sabia que ela andava com seguranças e tinha uma rotina incerta. A única chance era interceptá-la na entrada do prédio.
Ele esperou no carro por dois dias e duas noites. No entardecer do terceiro dia, quando a luz começava a sumir, o familiar Bentley preto entrou lentamente na rampa da garagem subterrânea. Bernardo abriu a porta do carro imediatamente e correu em direção a ela.
O Bentley parou. O motorista e o segurança do banco da frente desceram primeiro, olhando com vigilância para o intruso. A porta traseira abriu-se e Alice desceu. Ela vestia um casaco de cor camelo sobre um vestido de tricô claro; parecia menos agressiva do que no encontro anterior, com uma suavidade mais doméstica.
Ao ver Bernardo bloqueando o caminho, ela hesitou por um instante e franziu o cenho de forma quase imperceptível. O segurança avançou imediatamente, colocando-se entre Bernardo e Alice.
— Srta. Alice... — Bernardo começou a falar, com a voz seca e rouca devido ao longo tempo em silêncio e ao nervosismo.
Alice ergueu a mão, sinalizando para o segurança recuar um pouco. Ela olhou para Bernardo com serenidade; em seus olhos não havia surpresa, nem raiva, nem mesmo asco. Havia apenas uma indiferença profunda e absoluta. Como se olhasse para um obstáculo irrelevante e um tanto incômodo.
— Sr. Bernardo — disse ela, com a voz calma. — Algum problema?
O pomo de Adão de Bernardo oscilou e seu coração pareceu ser apertado por uma mão invisível; ele soltou um suspiro de dor.
— Clarice... — ele deixou escapar o nome e corrigiu-se imediatamente. — Não, Alice... eu sei que não tenho direito de dizer nada... mas nestes anos, eu...
Ele estava incoerente; as palavras que ensaiara inúmeras vezes em sua mente agora soavam patéticas e desajeitadas. Alice ouvia em silêncio, sem qualquer expressão no rosto. Quando ele parou, tropeçando nas palavras, ela curvou levemente o canto da boca em um sorriso pálido e de puro escárnio.
— O que o Sr. Bernardo quer dizer? — perguntou ela. — Quer dizer que não dorme bem há anos por culpa? Que acorda todas as noites com pesadelos? Ou que finalmente descobriu ser um canalha completo e precisa de alguém para confessar?
Ela inclinou a cabeça, com um olhar límpido que parecia atravessar a alma dele.
— Sinto muito por isso — disse ela num tom leve. — Eu não morri, estou vivendo muito bem. Isso... parece incomodá-lo?
Cada palavra era como um chicote com espinhos, atingindo o rosto e o coração de Bernardo. Ele empalideceu, seus lábios tremiam; quis rebater, mas percebeu que não tinha argumentos. Sim, por que ele estava confessando? Que direito ele tinha de se arrepender? O arrependimento dele, para ela, provavelmente nem chegava a ser ruído; era apenas um incômodo asqueroso.
— Eu não quis dizer isso! — Bernardo exclamou apressado, com a voz rouca de desespero. Ele deu um passo à frente, tentando segurar o braço de Alice como se fosse sua última esperança. — Eu... eu te amo! Desde muito... muito tempo atrás, eu...
— Me ama? — Alice reagiu como se tivesse ouvido a piada mais absurda do mundo, soltando finalmente uma risada baixa. Aquela risada era límpida, porém gélida.
Ela soltou-se bruscamente da mão de Bernardo, com tanta força que o fez vacilar.
— Bernardo — ela parou de rir, com o olhar afiado como uma lâmina direcionado a ele. — Não me cause nojo.