《Cinzas do Passado: O Renascimento de Clarice》Capítulo 28

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O ciúme avassalador, a dor e o arrependimento — sentimentos tão intensos que pareciam prestes a dilacerá-lo — o inundaram como uma maré.

Arthur desabou em meio àquela bagunça, com as mãos enterradas nos cabelos, emitindo um rugido baixo de uma fera encurralada.

Por quê...

Por que as coisas chegaram a este ponto...

Carlos ouviu o barulho e entrou correndo. Ao ver o caos no escritório e Arthur prostrado no chão, assustou-se e aproximou-se apressadamente: — Sr. Arthur! O senhor...

— Saia. — A voz de Arthur estava irreconhecível, rouca e embargada.

— Sr. Arthur, sua mão está sangrando! — Carlos viu que a mão de Arthur, apoiada no chão, fora cortada por estilhaços de vidro e o sangue vertia intensamente.

— Eu mandei você sair! — Arthur ergueu a cabeça bruscamente, com um olhar aterrorizante.

Carlos não ousou dizer mais nada; retirou-se em silêncio e fechou a porta suavemente. No escritório, restaram apenas a respiração pesada de Arthur e o som sutil do sangue pingando no chão. Ele baixou a cabeça, observando a própria mão ferida. Aquela pontada de dor era insignificante comparada à agonia em seu peito.

Ele lembrou-se da cicatriz no pulso dela. Aquela cicatriz deixada por causa dele. Agora, tornara-se o símbolo do "renascimento" dela, a fonte de sua inspiração e parte de sua glória. Que ironia. O dano que ele causara acabou sendo o alicerce da ascensão dela. E ele, por sua vez, estava eternamente pregado ao pilar da infâmia, tendo até o direito de se aproximar negado pelas mãos dela.

Arthur não desistiu. Encontrá-la tornara-se sua única obsessão de vida, a última tábua de salvação que o impedia de desmoronar completamente em meio ao arrependimento sem fim. Ele abandonou toda a sua postura e orgulho. Como um pretendente comum e desajeitado, aparecia todos os dias, sem falta, em frente ao ateliê de Alice, no 16º distrito de Paris.

Ele enviava as mais caras rosas do Equador, trazidas por transporte aéreo — noventa e nove rosas por dia, cujo significado é "amor eterno e arrependimento". No dia seguinte, aquelas rosas viçosas eram jogadas no lixo, sem qualquer expressão, pelos funcionários da limpeza.

Enviava joias raras, colares antigos arrematados por preços astronômicos em leilões, diamantes cor-de-rosa brutos... acompanhados de cartões com pedidos de desculpas e súplicas de uma humildade quase servil. Alice, por sua vez, confiava essas joias a casas de leilões para venda anônima, e todo o valor arrecadado era doado a diversas instituições de auxílio a mulheres. A mídia chegou a noticiar as boas ações dessa "filantropa misteriosa".

Ele escrevia cartas longas, com sua caligrafia mais impecável, relatando seu remorso, sua saudade, os três anos de busca como um morto-vivo, e sua disposição de pagar qualquer preço para compensá-la... As cartas caíam no esquecimento, sem qualquer resposta.

Ele esperava lá embaixo. Da manhã à noite, sob sol ou chuva. No chuvoso outono parisiense, muitas vezes ficava encharcado, mas recusava-se obstinadamente a partir até ser "convidado" a sair pelos seguranças. Ele emagrecia a olhos vistos; os ternos antes sob medida agora pareciam largos em seu corpo. Sua doença gástrica agravava-se, fazendo-o muitas vezes não conseguir sequer endireitar as costas pela dor, e as tosses com sangue tornavam-se mais frequentes.

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Carlos e o médico da família estavam consumidos pela preocupação, mas não conseguiam convencê-lo de nada. Ele era como uma fera encurralada, teimosa e ferida, usando essa forma de autodestruição para realizar uma confissão sem resposta e fadada ao fracasso.

Finalmente, surgiu uma oportunidade. Alice estava organizando sua exposição individual de joias, "Nirvana", e enfrentou a retirada súbita de um grande patrocinador durante a fase de preparação. Arthur obteve a notícia imediatamente e contatou a curadoria, oferecendo patrocínio integral, com um valor várias vezes superior ao do patrocinador anterior. Havia apenas uma condição: ele queria encontrar-se com Alice durante a montagem da exposição para expressar pessoalmente seu apoio à arte.

Ele manteve uma postura muito humilde e a condição era simples. A curadoria transmitiu a intenção a Alice. Surpreendentemente, ela concordou. O encontro foi marcado no pavilhão do museu onde a montagem ocorria.

Naquele dia, Arthur chegou com duas horas de antecedência. Vestiu seu terno mais novo, arrumou o cabelo com cuidado e até usou um pouco do perfume suave de cedro que ela costumava dizer que gostava. Ele estava nervoso como um rapaz em seu primeiro encontro, andando de um lado para o outro no pavilhão vazio, com as palmas das mãos suando levemente.

Quando Alice apareceu pontualmente, acompanhada de assistentes e seguranças, o coração de Arthur quase saltou do peito. Ela vestia um conjunto profissional bege, de corte impecável, que ressaltava sua silhueta esguia e imponente.

— Sr. Arthur, como vai? — Ela estendeu a mão por iniciativa própria, com a voz calma e um tom de etiqueta empresarial padrão. — Obrigada pelo seu generoso patrocínio à exposição "Nirvana". Eu sou Alice.

Arthur olhou para a mão estendida — a mesma mão que ele segurara, beijara e ferira inúmeras vezes; agora, adornada com um bracelete que simbolizava o "renascimento", ela estava ali, estendida calmamente diante dele. Sua garganta apertou e ele mal conseguia respirar. Com as mãos trêmulas, tocou a ponta dos dedos dela.

Alice retirou a mão naturalmente e aceitou de sua assistente um catálogo primoroso da exposição, entregando-o a ele.

— Este é o catálogo da mostra, com apresentações detalhadas e conceitos de design de todas as peças. O senhor pode visitar à vontade; se tiver qualquer dúvida, pode consultar nossa equipe.

Durante todo o tempo, ela agiu de forma estritamente profissional, educada e atenciosa, mas... tão distante quanto se tratasse de um patrocinador comum que acabara de conhecer. Arthur apertou o catálogo pesado, com as juntas dos dedos brancas. Ele olhava para aquela mulher familiar e ao mesmo tempo estranha; mil palavras estavam presas em sua garganta, mas ele não conseguia proferir nenhuma.

A saudade, o remorso, a dor e a busca de três anos... naquele momento, tudo parecia pálido e ridículo. Por fim, ele apenas perguntou, com os olhos marejados e a voz seca: — Clarice... sua mão... ainda dói?

Ele perguntava sobre a cicatriz no pulso. Referia-se, na verdade, às feridas invisíveis, ainda mais profundas e graves. O sorriso no rosto de Alice não mudou, mas em seus belos olhos brilhou um sarcasmo extremamente leve e quase imperceptível. Ela inclinou levemente a cabeça, como se pensasse seriamente no assunto, e então respondeu com tom leve:

— A ferida na mão? Já sarou há muito tempo. É apenas uma cicatriz, não incomoda.

Ela fez uma pausa, encarando o olhar sofrido de Arthur com serenidade, e sua voz continuou nítida e estável:

— No entanto, o que o Sr. Arthur realmente deveria perguntar é se "o coração ainda dói", não é?

O corpo de Arthur estremeceu violentamente. Alice curvou os lábios em um sorriso perfeito, porém desprovido de calor, e disse-lhe claramente, palavra por palavra:

— A resposta é: não dói mais.

— Porque um coração que morreu não sente dor.

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