《Cinzas do Passado: O Renascimento de Clarice》Capítulo 27

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O olhar de Alice (Xia) moveu-se do rosto de Arthur para o de Bernardo.

Seus olhos não demonstravam qualquer flutuação emocional, mas, ao ouvir o nome "Bernardo", o canto de sua boca curvou-se de forma quase imperceptível.

Não era um sorriso. Era mais como uma... leve e irônica constatação.

Ela olhou para Bernardo e, de repente, sorriu.

O sorriso floresceu em seu rosto delicado, deslumbrante como uma papoula desabrochando na noite, porém sem qualquer calor; continha, inclusive, espinhos gélidos.

— Sr. Bernardo — disse ela em voz baixa, mas que soou nítida aos ouvidos de ambos —, há quanto tempo.

Ela fez uma pausa, percorrendo o rosto de Bernardo com um olhar sugestivo; seus lábios rubros se abriram, e as palavras que proferiu fizeram Bernardo sentir-se instantaneamente em um abismo de gelo.

— Oh, não.

— Deveria dizer: "nos vemos todas as noites"?

Nos vemos todas as noites.

As cinco palavras (na localização) soaram leves.

No entanto, foram como cinco punhais mergulhados no gelo, cravados no coração de Bernardo, rasgando a camada mais sórdida e vergonhosa de hipocrisia entre eles!

O rosto de Bernardo perdeu toda a cor em um piscar de olhos, tornando-se pálido como papel.

Ele quis dizer algo, seus lábios tremiam, mas nenhum som saía. Ele só conseguia observar Alice, que o olhava como se visse um palhaço, um lixo.

Alice desviou o olhar e o sorriso em seu rosto desapareceu instantaneamente, recuperando aquele distanciamento gélido.

Ela não olhou para nenhum dos dois novamente; inclinou-se e sentou-se no carro. O vidro da janela subiu lentamente.

No segundo antes de o vidro se fechar completamente, Arthur a ouviu dar ordens aos seguranças do lado de fora em um chinês claro:

— De agora em diante, não deixem estranhos se aproximarem de mim.

Sua voz veio através da fresta da janela que ainda não se fechara de todo; fria, sem qualquer oscilação.

— Especialmente—

A janela fechou-se por completo, isolando o restante de sua frase. Mas tanto Arthur quanto Bernardo entenderam.

Especialmente, estes dois.

O Bentley preto deu a partida suavemente, fundindo-se ao tráfego da noite parisiense e desaparecendo rapidamente no final da rua iluminada por neon.

Restaram apenas Arthur e Bernardo, paralisados no lugar como duas estátuas abandonadas.

O vento noturno trazia a umidade das margens do Rio Sena, um frio cortante. Mas nada se comparava ao gelo avassalador em seus corações.

Ela os reconheceu. Usando o tom mais calmo para proferir as palavras mais cruéis.

E então, como quem limpa a poeira da manga, ela os removeu completamente de seu mundo.

Nem sequer o ódio ela se deu ao trabalho de conceder. Restava apenas o desprezo absoluto e uma frase indiferente: "estranhos".

Arthur permaneceu ali, olhando para a direção onde o carro desaparecera, por muito, muito tempo.

Então, lentamente, ele ergueu a mão e cobriu a região do peito. Ali, parecia haver um enorme buraco.

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O vento frio uivava por ele, trazendo lascas de gelo que faziam suas entranhas doerem de frio.

Bernardo, por sua vez, apoiou-se na parede fria e escorregou até sentar-se no chão. Baixou a cabeça, com os ombros tremendo levemente.

Nos dias seguintes, Arthur e Bernardo usaram todos os recursos disponíveis em Paris para investigar loucamente sobre "Alice". Os resultados logo foram apresentados a eles, com detalhes assustadores.

Alice, de nome internacional Xia, franco-chinesa, formou-se há três anos no curso de design de joias da Escola Nacional Superior de Artes Decorativas de Paris com as notas mais altas. No mesmo ano, fundou a marca independente de joias "Reborn". Com um design de estilo pessoal marcante e narrativo, ela rapidamente ganhou destaque no competitivo mundo da moda parisiense.

Em sua lista de clientes, não faltavam membros da realeza europeia, estrelas de Hollywood e a alta sociedade. Uma coleção de braceletes desenhada por ela, chamada "Scars" (Cicatrizes), chamou atenção especial; logo após o lançamento, causou furor, tornando-se um dos designs mais comentados do ano. E aquela leve cicatriz de queimadura em seu pulso tornou-se parte de sua marca pessoal, comentada pela mídia de moda como a "marca do renascimento".

Ela agia de forma discreta e misteriosa, raramente aceitava entrevistas e recusava qualquer aparição pública desnecessária. Era acompanhada por uma equipe profissional de seis seguranças que a protegiam em turnos de 24 horas. Morava em um dos apartamentos de luxo com a segurança mais rigorosa de Paris, locomovia-se em carros particulares com motorista e seu paradeiro era um mistério.

Ela não tocava mais piano em público, mas seus designs incorporavam amplamente elementos musicais — teclas, notas, linhas melódicas; alguns críticos diziam que suas joias possuíam "ritmo e fluidez".

Ela se despedira completamente do passado como "Clarice" e, sob a identidade de "Alice", brilhava de forma impecável em outro domínio.

Arthur folheava o espesso relatório de investigação, observando as fotos dela em eventos. Nas fotos, ela exibia cabelos curtos e práticos, maquiagem impecável, vestindo alta-costura sofisticada ou ternos profissionais elegantes; seu olhar era confiante e sereno enquanto conversava com a elite, com modos elegantes e adequados.

Não era mais possível encontrar sequer um vestígio daquela Clarice tímida e dependente de antes. Ela realmente renascera. Como as obras que criava, das cinzas, ela fizera brotar a flor mais deslumbrante. E nada disso tinha a ver com Arthur. Ou melhor, tinha tudo a ver com os danos que ele lhe causara.

Na última página do relatório, havia algumas fotos tiradas às escondidas. Era Alice jantando com um jovem nobre francês. No terraço de um restaurante três estrelas Michelin, sob a luz de velas. O homem era um cavalheiro atraente e sorria enquanto servia vinho para ela. Ela o ouvia com atenção, com um leve sorriso no rosto e um olhar suave.

A imagem era bela e harmoniosa. Mas, para Arthur, foi como um ferro em brasa marcado diretamente em seus olhos!

— ESTRONDO! —

Um barulho ensurdecedor! Arthur virou violentamente a pesada mesa de mogno à sua frente! Documentos, computador, enfeites... tudo se estraçalhou no chão em meio ao caos!

Seu peito arfava violentamente e seus olhos estavam escarlates, como uma fera enjaulada à beira da loucura!

Ela sorria para outra pessoa! Ela permitia que outro homem se aproximasse! Que servisse vinho para ela! Que jantasse com ela! Aquele lugar... aquele lugar capaz de fazê-la sorrir... outrora... fora dele!

Não! Nunca fora dele! Ele mesmo transformara aquele lugar no inferno dela! E agora, ela saíra do inferno e encontrara alguém capaz de fazê-la sorrir de verdade.

E essa pessoa não era ele. E nunca mais seria ele.

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