《Cinzas do Passado: O Renascimento de Clarice》Capítulo 24

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Sozinho, Arthur embarcou no voo mais rápido e depois pegou um carro, correndo em direção àquela pequena cidade fronteiriça.

Durante todo o percurso, seu coração batia freneticamente. Desta vez, ele tinha que encontrá-la. Com certeza.

No entanto, em uma estrada sinuosa de montanha a menos de cinquenta quilômetros da cidade, o inesperado aconteceu.

Um caminhão pesado perdeu o controle repentinamente em uma curva e avançou de frente contra o carro de Arthur!

O motorista girou o volante bruscamente; o veículo raspou contra a encosta da montanha, desviando por pouco, mas a traseira foi atingida com violência pelo caminhão.

O carro perdeu o controle e capotou, despencando pelo acostamento!

Houve um estrondo gigantesco, o som estridente de metal retorcido e o estilhaçar de vidros.

O mundo girou violentamente.

No último segundo antes de perder a consciência, a imagem que passou pela mente de Arthur foi o perfil de Clarice, de cabeça baixa, tocando piano.

Arthur foi levado às pressas para o hospital mais próximo.

O estado era grave: múltiplas fraturas, hemorragia interna, concussão cerebral e um estado de coma profundo.

Quando Bernardo recebeu a notícia, estava em outra cidade seguindo uma pista incerta.

Ele abandonou tudo imediatamente e correu para o hospital.

O médico estava com o semblante pesado:

"A situação não é otimista. Há um coágulo intracraniano que precisa de observação. A vontade de viver do paciente parece... não ser muito forte."

Bernardo olhou para Arthur, inconsciente na cama, e cerrou os dentes. Ele não podia esperar.

Ele precisava ir até aquela cidade. Por Arthur e por si mesmo. Para ver aquela pessoa que eles procuravam há tanto tempo.

Três dias depois, Bernardo chegou exausto àquela cidade de fronteira.

O lugar era ainda mais remoto e desolado que Sostra.

Ventava forte o ano todo, as ruas eram desertas e a população, escassa.

Seguindo as informações, ele encontrou aquela pequena pousada familiar.

A dona era uma mulher de meia-idade, gordinha, que falava um inglês com sotaque carregado.

Ela confirmou que uma mulher oriental se hospedara ali e partira há cerca de uma semana.

"O nome dela era Sue, muito quieta, não gostava de falar", descreveu a mulher. "Era linda, mas o olhar... dava um pouco de medo, era gélido.

Ela alugou o chalé independente nos fundos da minha casa, pagou um mês adiantado, mas só ficou uma semana e partiu. Foi embora com muita pressa, sem dizer nada."

"Ela deixou alguma coisa?", Bernardo perguntou ansioso.

A dona pensou por um momento:

"Acho que não... Ah, sim, ela parecia gostar muito daquele piano velho, às vezes tocava um pouco. Aquele piano é uma sucata que não usamos mais, deixamos no chalé apenas como decoração, está todo desafinado."

Piano! O coração de Bernardo deu um solavanco.

"Posso ver o chalé?", ele entregou um maço de notas para a mulher.

Ela aceitou com um sorriso radiante.

O chalé ficava no quintal da pousada; era pequeno, velho e com a pintura descascada.

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Ao abrir a porta, um odor de coisa antiga misturado a uma fragrância feminina leve e limpa o atingiu.

O mobiliário interno era extremamente simples: uma cama de solteiro com o cobertor impecavelmente dobrado, uma mesinha, uma cadeira e um armário simples com a porta aberta e vazia.

No canto, de fato, havia um piano vertical antigo, com a tampa aberta e as teclas amareladas.

O quarto estava limpo, quase sem vestígios de que alguém morara ali. Ela partira de forma absoluta, resoluta.

Bernardo entrou passo a passo, percorrendo cada canto com o olhar. Na cama, na mesa, na cadeira... nada.

Ela era como um fantasma que passara apressadamente por ali, sem deixar rastro. Por fim, seu olhar caiu sobre o piano.

Ele se aproximou e deslizou os dedos pelas teclas frias. Sobre o suporte, havia uma partitura velha e amarelada. Ele a abriu casualmente.

A partitura era comum, uma coletânea de estudos. Em uma das páginas, algo estava guardado.

O coração de Bernardo falhou uma batida. Ele retirou o objeto com extremo cuidado.

Era uma pétala de gardênia, já seca e amarelada, sem qualquer umidade ou perfume.

A pétala era fina e frágil, parecendo que se desfaria ao menor toque. Mas fora bem preservada, guardada de forma plana entre as folhas de música.

Bernardo conhecia aquela flor. Gardênia.

A flor favorita de Clarice.

Antigamente, no jardim da mansão, ela plantara uma grande área delas.

No verão, o pátio inteiro ficava impregnado com a fragrância doce e fresca das gardênias.

Ela sempre gostava de colher algumas para colocar no vaso do quarto. Dizia que o cheiro das gardênias trazia paz a ela.

Bernardo segurava a pétala seca com as pontas dos dedos trêmulas.

Ele quase podia ver, naquele chalé simples e frio, ela sentada sozinha diante do piano velho.

Lá fora, o vento cortante de um país estrangeiro.

Ela abria a partitura, talvez tocava uma melodia triste e, então, retirava de alguma pequena bolsa essa pétala guardada, vinda de sua terra natal e há muito ressequida.

Observava-a por muito tempo. Por fim, guardava-a gentilmente entre as páginas da música.

Deixava-a para trás.

E então, partia.

Como um sopro de vento passando por aquela terra desolada, sem deixar marcas. Restando apenas aquela pétala como prova de que ela estivera ali.

Bernardo sentou-se lentamente na cadeira velha em frente ao piano, segurando a pétala.

O chalé não tinha calefação; estava gelado.

O vento assoviava pelas frestas da janela. Ele ficou ali sentado, olhando para aquela pétala frágil por muito, muito tempo.

Da tarde até o crepúsculo.

Do crepúsculo até o meio da noite.

O luar atravessava a janela desgastada, iluminando o chão frio e atingindo seu corpo.

Ele lembrou-se de muitas coisas. Lembrou-se da primeira vez que "fingiu" ser Arthur, da tensão e da excitação inexplicável ao entrar no quarto dela.

Lembrou-se dos tremores contidos dela sob seu corpo e de seus olhos firmemente fechados.

Lembrou-se do cenho franzido dela inconscientemente durante o sono.

Lembrou-se da última noite, quando ela, de olhos fechados e voz fraca, disse que a "menstruação descera", com o rosto pálido.

Lembrou-se dela deitada em uma poça de sangue após o acidente.

Lembrou-se daquele "incêndio".

Lembrou-se de como, no último ano, acordara sozinho em inúmeras noites, com um sentimento de sufocamento pelo vazio em seu lado e em seu peito.

Ele pensou que, provavelmente, estava recebendo o que merecia.

Quem brinca com os sentimentos acaba sendo jogado por eles.

Não, ele nem sequer tinha o direito de falar em "sentimentos".

Ele apenas... naquele jogo de vingança longo e distorcido, sem perceber, perdera o próprio coração.

E perdera a pessoa que ele deveria ter valorizado.

Ele devia a ela.

Arthur devia a ela.

O que eles deviam a ela não poderia ser pago nesta vida, nem na próxima.

Uma gota de líquido quente caiu, sem aviso, sobre a pétala seca.

A pétala estremeceu levemente.

Bernardo paralisou.

Ele levou a mão ao rosto. Seus dedos sentiram uma umidade gelada.

Ele... estava chorando?

Essa percepção trouxe-lhe uma sensação de absurdo e desamparo.

Há quantos anos ele não chorava?

Nem ele mesmo sabia.

Mas as lágrimas eram incontroláveis, caindo uma após a outra.

No dorso da mão, na pétala seca, no chão frio.

Sem som.

Apenas, na noite silenciosa, o soluço contido e fragmentado de um homem.

E lá fora, o vento gélido que nunca cessava.

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