《Cinzas do Passado: O Renascimento de Clarice》Capítulo 22

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No dia do julgamento, Arthur não compareceu.

Bernardo foi, sentando-se na última fileira da galeria. Ele observou, sem qualquer expressão no rosto, o momento em que Isabella foi levada pelos policiais judiciários — ela estava desolada, com o rosto banhado em lágrimas e soluços.

Isabella o viu e, como se agarrasse a última tábua de salvação, gritou desesperadamente: "Bernardo! Bernardo, me salve! Eu sei que errei! Peça ao Arthur, implore a ele! Peça para ele me soltar! Pelo bem de termos crescido juntos!"

Bernardo apenas a observou em silêncio até que sua voz desaparecesse além das portas do tribunal. Então, ele se levantou e partiu. Sem olhar para trás.

A poeira baixou. Isabella foi para a prisão. A família de Isabella sofreu um golpe devastador e nunca mais se recuperou.

Enquanto Arthur buscava loucamente por Clarice, ele iniciou outra forma de redenção, quase autodestrutiva. Ele comprou, por um preço altíssimo, a velha casa onde Clarice morara na infância, que já estava em ruínas. As paredes estavam descascadas e os móveis antigos, alguns já quebrados; o ar estava impregnado com o cheiro de poeira de anos.

Ele entrava ali sozinho, observando os adesivos infantis desbotados na parede, os vasos de plantas secos no parapeito da janela e aquela pequena cama de solteiro com lençóis de estampa floral. Era como se pudesse ver a pequena Clarice ali, sorrindo, chorando, crescendo.

Ele passou a financiar o departamento de piano da alma mater de Clarice e estabeleceu uma bolsa de estudos com o nome dela. Anonimamente, doou quantias astronômicas para diversas fundações de ajuda a mulheres e organizações contra a violência sexual em todo o país, destinadas especificamente a ajudar mulheres que sofreram abusos e violência.

Quanto a Bernardo, pouco depois de Isabella ser presa, ele foi sozinho àquele hotel. O mesmo hotel onde, anos atrás, o irmão de Arthur havia violado Clarice. Ele reservou aquele quarto por uma noite inteira. O quarto já havia sido reformado e não guardava vestígios daquela época.

Mas Bernardo sentou-se na beira daquela cama larga e permaneceu imóvel. Era como se pudesse ver a Clarice de dezoito anos, aterrorizada e desesperada. Vê-la lutar, gritar e, finalmente, ver o brilho de seus olhos morrer aos poucos.

E o que ele tinha feito a ela? Durante cinco anos, fingiu ser outro homem, continuando a violação e a humilhação contra ela. Ele acreditava ser uma vingança, um jogo. Mas, sem perceber, já estava afundado até o pescoço.

Ele tirou a carteira e, do compartimento mais interno, retirou aquela foto de Clarice na sala de música, tirada às escondidas. A foto já estava um pouco velha, com as bordas desgastadas. Ele fixou o olhar na imagem por muito, muito tempo. Então, enterrou o rosto nas palmas das mãos.

Seus ombros largos tremeram violentamente. Soluços abafados e dolorosos ecoaram baixo no quarto vazio do hotel. Ele sabia que estava errado. Errado desde o início. Os errados eram eles. Eram eles, aqueles canalhas pretensiosos que brincavam com o destino e os sentimentos alheios.

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E a vítima mais inocente havia partido daquele jogo absurdo e cruel da forma mais definitiva possível. Deixando-os ali, no inferno, sem nunca mais encontrarem a paz.

Um ano depois. Em uma pequena e discreta cidade no norte da Europa.

Um jovem videoblogger, enquanto filmava as paisagens locais, acidentalmente apontou a câmera para um abrigo temporário montado na beira da estrada. Dentro do abrigo, havia um piano vertical que parecia ter muitos anos.

Uma mulher oriental, vestindo um casaco de penas pesado e um cachecol xadrez, estava sentada ao piano. Ela mantinha a cabeça baixa, e a aba do chapéu cobria a maior parte de seu rosto; era possível ver apenas um pequeno pedaço de seu queixo alvo e seus lábios cerrados.

Seus dedos tocaram as teclas pretas e brancas. Uma melodia melancólica e serena fluiu como um riacho. Era a "Étude Op. 10, No. 3" de Chopin, conhecida como

Tristesse

(Despedida).

O blogger achou a imagem belíssima e, após editar o vídeo de menos de um minuto, postou em suas redes sociais com a legenda: "Encontro de inverno em uma cidade estrangeira, a misteriosa pianista oriental."

O vídeo inicialmente não atraiu muita atenção, circulando apenas em pequenos círculos. Até que um dia, um herdeiro que antes pertencia à elite de Jiangcheng, enquanto navegava entediado pelos vídeos, clicou nele por acaso.

No instante em que a música fluiu, ele paralisou. Aquela melodia... era familiar demais. Ele ampliou a imagem, observando atentamente o contorno embaçado do perfil da mulher que tocava. Quanto mais olhava, mais assustado ficava. Aqueles olhos, aquele maxilar... como podiam ser tão parecidos com os da ex-mulher de Arthur, Clarice, que "morrera" há mais de um ano?

O herdeiro hesitou várias vezes, mas acabou enviando o link do vídeo para um dos assistentes de Arthur. As famílias Pei e Liang estavam procurando por ela loucamente nos últimos anos; qualquer pista mínima poderia valer uma recompensa astronômica.

Quando o vídeo chegou às mãos de Arthur, eram três horas da manhã. Ele acabara de terminar uma conferência internacional; seus olhos estavam injetados de sangue e seu estômago doía levemente devido ao longo tempo em jejum e ao excesso de café. Carlos bateu à porta e entrou, com uma expressão solene que carregava uma excitação imperceptível, colocando o tablet diante dele.

— Sr. Arthur, veja isto.

Arthur franziu o cenho e deu o play no vídeo. Ruídos de fundo, câmera trêmula, luz amarelada, flocos de neve caindo. Então, o som do piano começou. Seu corpo travou instantaneamente. Seu olhar fixou-se no vulto embaçado na tela. Seus dedos se contraíram inconscientemente, com as juntas ficando brancas.

Era ela. Com certeza era ela. Mesmo sendo apenas um contorno vago, mesmo através da tela e de uma distância enorme, ele a reconheceria em qualquer lugar. Aquela familiaridade gravada em seus ossos não mentia.

— Localização — a voz de Arthur soou extremamente rouca, carregada de um tremor contido à força.

— Norte da Europa, país L, uma pequena cidade chamada Sostra. O vídeo foi gravado há meio mês.

Carlos fez uma pausa e seu tom de voz baixou: — Há três dias, ela partiu. Ninguém sabe para onde foi.

Arthur ergueu a cabeça bruscamente, com a vermelhidão nos olhos ainda mais aterradora: — Prepare o avião imediatamente! Agora! Já!

O jato particular pousou dez horas depois no aeroporto mais próximo da cidade de Sostra. Arthur e Bernardo chegaram quase ao mesmo tempo. Eles se encontraram na saída do aeroporto e trocaram um olhar; não disseram nada, mas em seus olhos havia a mesma angústia e uma centelha fraca de esperança.

Eles moveram todos os seus contatos para chegar àquela cidade remota e fria o mais rápido possível.

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