Beatriz parou diante de mim, segurando o guarda-chuva, e começou a falar calmamente. — Olá. Eu sei que você é a ex-namorada do Luccas e sei o que houve entre vocês no passado.
Ao ouvir suas palavras, fiquei paralisada. Beatriz continuou: — Mas Luccas e eu nos casaremos em breve. Espero que você não o incomode mais. — Ele não te deve nada e, sinceramente, você não está à altura de um homem tão bom quanto ele.
Dito isso, Beatriz virou-se e voltou para a empresa. Observei suas costas se afastarem enquanto um turbilhão de emoções me atingia. Novamente, senti aquela dor insuportável latejando em minhas costas.
Cheguei em casa completamente encharcada e precisei tomar um banho gelado. Enquanto a água fria escorria pelo meu corpo, a dor nas costas finalmente começou a ceder um pouco. Parei diante do espelho, mas não conseguia ver as manchas avermelhadas em forma de borboleta que cobriam minha pele. As palavras de Beatriz ecoavam na minha mente: "Você não está à altura de um homem tão bom quanto ele..."
Depois do banho, deitei-me na cama. Minha testa queimava; eu sabia que estava com febre outra vez. Com movimentos mecânicos, peguei um frasco de Prednisona na gaveta e engoli dois comprimidos. Eu estava prestes a fechar os olhos para descansar quando o celular tocou. — Olá, aqui é da Delegacia Sul. Você é parente de Júlio Jiang? — Sim, sou eu. — Ele está sob custódia aqui. Por favor, compareça à delegacia.
Júlio é meu irmão mais velho. Sempre que recebo notícias dele, é através da polícia. Já acostumada, vesti uma roupa e peguei um táxi para a delegacia.
Ao chegar, para minha surpresa, encontrei Luccas. Ele estava sentado no saguão, com uma expressão sombria e as roupas levemente amassadas. Confusa, não pude evitar me aproximar e perguntar: — O que você está fazendo aqui?
Luccas levantou a cabeça e respondeu friamente: — Você deveria perguntar ao seu irmão.
Nesse momento, Júlio, que estava sendo contido por alguns policiais ali perto, rugiu: — Luccas! Seu desgraçado sem coração! Quando você estava com a minha irmã, ela trabalhava em cinco empregos diferentes para sustentar você enquanto você só ficava em casa jogando. Agora que você faz sucesso, vai se casar com outra?! — Você não tem um pingo de consciência?
As palavras do meu irmão foram como um trovão na minha mente; de repente, entendi tudo. Um policial se aproximou de mim e disse: — Esta já é a quarta vez que seu irmão vem parar aqui só este mês. Ele está se tornando um cliente fixo. — Desta vez ele agrediu este senhor. Agora, ou ele consegue o perdão da vítima, ou ficará detido por alguns dias.
Olhei para o meu irmão, que bufava de raiva, e depois para Luccas. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Luccas me questionou: — Oito anos atrás, era assim que você falava de mim para o seu irmão?
Minha garganta travou. Na verdade, eu dizia ao meu irmão que Luccas se esforçava muito e que ganhar dinheiro com jogos era possível. Mas Júlio nunca acreditou. Sem ter como explicar, apenas me curvei diante de Luccas e pedi desculpas. — Sinto muito, meu irmão não deveria ter encostado em você. — Eu pagarei todas as despesas médicas. Por favor, perdoe-o, não deixe que ele vá para a prisão.
Quando éramos crianças, meu irmão roubava para cuidar de mim e acabou sendo esfaqueado no abdômen; ele nunca se recuperou totalmente. Por isso, ele não podia ser preso. Luccas olhou para mim impassível, com um brilho de deboche nos olhos. — Vocês realmente se merecem como irmãos. Prepare o dinheiro então; eu lhe enviarei a conta.
Dito isso, ele se levantou e foi embora.
...
Terminei o processo de fiança do meu irmão por volta das duas da manhã. Ao sairmos da delegacia, Júlio continuava resmungando sem parar. — Por que você aceitou pagar aquele canalha? Ele te traiu com outra mulher, por que eu não poderia bater nele?! — Oito anos atrás, ele me prometeu que se casaria com você e te daria um lar. E agora que ele é rico, te descarta para casar com outra...
Olhei para o meu irmão desleixado à minha frente e uma sensação de impotência me dominou. Eu o interrompi: — Júlio... você tem noção? Eu tenho 29 anos, quase 30. Outras pessoas na minha idade já estão casadas e com filhos. — E eu, agora, nem sequer tenho um lar de verdade. Vivo de aluguel em uma cobertura de trinta metros quadrados.
Júlio ficou atônito. Mas continuei falando: — Eu também queria um lar, Júlio. Eu queria um futuro. Mas você está sempre assim... como eu posso ter um futuro desse jeito?