O pomo de Adão do Dr. Marcelo oscilou, e sua voz soou seca: — Sr. Arthur, eu já disse. A Srta. Clarice apenas me procurou para consultar alguns... problemas legais comuns de divórcio. Sobre a partilha de bens...
— Problemas comuns de divórcio? — Bernardo o interrompeu com um sorriso de escárnio, arremessando outro documento sobre a mesa à frente do advogado. — Então, o senhor poderia explicar por que, na semana seguinte à "morte" da Clarice, o senhor voou três vezes para a Suíça? E por que sua conta pessoal recebeu uma transferência internacional de cinco milhões de reais de origem desconhecida?
O rosto do Dr. Marcelo empalideceu instantaneamente, e seus lábios tremeram.
— Além disso — Arthur levantou-se lentamente, caminhou até o advogado e olhou-o de cima, com um olhar gélido e penetrante —, sua filha, naquela escola particular de elite na Suíça que custa oitocentos mil por ano, acabou de ter a anuidade renovada por mais três anos. Dr. Marcelo, com a sua renda, receio que o senhor não teria como arcar com isso, teria?
O corpo do Dr. Marcelo começou a tremer descontroladamente, e grandes gotas de suor frio rolavam de sua testa.
— Eu... eu... — Ele abriu a boca, mas não conseguiu articular uma frase completa.
— Dr. Marcelo — Arthur inclinou-se, apoiando as mãos nos braços da cadeira e aproximando-se dele. Sua voz era extremamente baixa, mas carregava um gelo aterrorizante. — Vou perguntar pela última vez. O que, exatamente, a Clarice pediu para o senhor fazer?
— Se não falar... — Ele fez uma pausa e endireitou o corpo. — Eu tenho meus métodos para fazê-lo abrir a boca. E garanto que sua filha, lá na Suíça, também não terá uma vida tão tranquila.
Essa última frase foi a gota d'água que quebrou a resistência do advogado. Ele ergueu a cabeça bruscamente, com o último vestígio de cor desaparecendo de seu rosto e os olhos repletos de pavor e desespero.
— Eu falo! Eu falo! — Ele gritou em colapso, com o corpo tremendo violentamente. — Eu conto tudo! Por favor! Não mexam com a minha filha! Ela não sabe de nada!
Arthur e Bernardo trocaram um olhar, sentaram-se novamente e fixaram os olhos nele. O Dr. Marcelo desabou na cadeira, como se todos os seus ossos tivessem sido removidos. Com o olhar vago, começou a relatar de forma fragmentada.
— A Srta. Clarice... ela me procurou para ajudar com três coisas.
— A primeira: o divórcio. O acordo ela já havia assinado há muito tempo e me mandou dar andamento ao processo o mais rápido possível.
— A segunda... — A voz do Dr. Marcelo baixou ainda mais, embargada pelo choro. — Ela me pediu para ajudá-la a... cancelar seu registro civil. Ela disse que não queria mais a identidade de Clarice. Ela queria que a Clarice sofresse uma... "morte acidental".
— Cancelar o registro?! — O coração de Arthur deu um solavanco e sua voz subiu de tom repentinamente. — Ela não morreu?! Onde ela está?! Para onde ela foi?!
Uma euforia gigantesca, como um tsunami, varreu-o instantaneamente!
O Dr. Marcelo balançou a cabeça chorando: — Eu não sei... eu realmente não sei para onde ela foi. Ela apenas me pediu para fazer a "morte" parecer plausível. Ela disse... que só queria sair daqui, deixar a cidade, deixar... o senhor. Começar de novo.
— O estado em que ela estava naquela hora... — O advogado fechou os olhos, e lágrimas escorreram. — Coberta de feridas, com um olhar... como se estivesse morta. Sem brilho nenhum. Ela me implorou, disse que era seu último desejo. Disse que não queria mais ser a Clarice, que estava cansada demais, com dor demais...
— Eu... eu simplesmente não tive coragem de negar. Sr. Arthur, se o senhor quiser me punir, eu aceito. Mas imploro, deixe minha filha em paz...
Arthur não deu atenção aos seus apelos. Ele apenas encarava o Dr. Marcelo, com os olhos injetados de sangue e a voz tremendo levemente devido à tensão e à expectativa extremas.
— Quando ela partiu... — Ele engoliu em seco com dificuldade, o pomo de Adão oscilando violentamente. — Ela... deixou algum recado... para mim?
Mesmo que fosse um insulto ou uma frase de ódio, qualquer coisa serviria.
O Dr. Marcelo silenciou por muito tempo. Um silêncio tão longo que Arthur chegou a pensar que não obteria resposta. Então, o advogado abriu os olhos lentamente e olhou para Arthur com um olhar complexo, misturando piedade e um toque de alívio. Ele repetiu as últimas palavras de Clarice, pausadamente:
— Ela disse...
— "A Clarice já deveria ter morrido há muito tempo."
— "Desde o dia em que acreditou em contos de fadas românticos."
As palavras ecoaram. Na sala de interrogatório, instalou-se um silêncio mortal. Arthur permaneceu imóvel, como se tivesse sido atingido por um raio invisível. Seu corpo estava rígido e seu sangue pareceu congelar no mesmo instante. Ele abriu a boca, querendo dizer algo, mas nenhum som saiu. Apenas no lugar do coração, sentia pontadas sucessivas de uma dor excruciante, como se estivesse sendo esvaziado e esmagado cruelmente! A dor era tanta que sua visão escurecia e seus ouvidos zumbiam.
Ele cambaleou dois passos para trás, encostando as costas com força na parede fria para evitar a queda. Bernardo também ficou paralisado, pálido e com o olhar vazio.
Ela não morreu. Ela estava viva. A euforia trazida por essa percepção durou apenas um breve instante antes de ser completamente submersa por um desespero e um medo ainda maiores e avassaladores.
Ela queria abandonar completamente a "Clarice". Abandonar todos os danos, dores e humilhações que eles lhe causaram. Abandonar... eles. Incluindo ele, Arthur. E incluindo ele, Bernardo. De agora em diante, não haveria mais Clarice no mundo. Apenas uma estranha que eles jamais encontrariam ou reconheceriam.
— Procurem...
Arthur ergueu a cabeça bruscamente. Seus olhos estavam tão vermelhos que pareciam prestes a verter sangue. Sua voz era rouca e fragmentada, mas carregava uma obstinação e uma determinação quase delirantes.
— Procurem por ela!
— Usem todos os contatos! Todos os recursos! Procurem no mundo inteiro!
— Ofereçam uma recompensa de cem milhões! Não! Um bilhão! Dez bilhões! Eu quero saber o paradeiro dela!
Carlos respondeu prontamente: — Sim, Sr. Arthur! Vou providenciar isso agora mesmo!