Bernardo lembrava-se deste lugar.
Dois anos atrás, no aniversário de Clarice.
Naquele dia, Clarice usava um vestido azul-claro e uma maquiagem leve; sob a luz suave, ela parecia extraordinariamente gentil e encantadora.
Ela pediu uma sobremesa chamada "Soufflé", dizendo ser o seu doce favorito. Naquela época, Bernardo desdenhou, achando-o doce e enjoativo demais.
Mas agora...
O carro parou lentamente em frente ao restaurante. Bernardo, sentado no veículo, olhou para a familiar porta de madeira entalhada e, como se fosse guiado por uma força estranha, abriu a porta do carro e entrou.
Não havia muitas pessoas no local, e a iluminação continuava suave. Ele sentou-se na mesa perto da janela, o mesmo lugar onde Clarice se sentara anos atrás.
O garçom entregou o cardápio. Sem sequer olhar, Bernardo disse diretamente: "Um Soufflé".
"Pois não, senhor. Por favor, aguarde um momento".
A espera não foi longa, mas Bernardo sentia-se inquieto. Ele observava os pedestres na rua através da janela, enquanto sua mente era um turbilhão de confusão. A imagem de Clarice surgia repetidamente em momentos inoportunos.
A maneira como ela comia em silêncio. Aquelas emoções complexas e difíceis de decifrar nos olhos dela quando, ocasionalmente, o encarava. A silhueta solitária e obstinada de Clarice acariciando secretamente as teclas do piano após ferir os dedos...
"Senhor, o seu Soufflé".
A voz gentil do garçom interrompeu seus pensamentos. Na delicada tigela de porcelana branca, o Soufflé fofo e dourado exalava um aroma doce e vapor. Bernardo pegou a colher pequena, pegou uma porção e a levou à boca.
Era doce. Extremamente doce.
Bernardo largou a colher, sentindo-se subitamente ridículo. Por que ele estava ali, pedindo a sobremesa favorita dela? Por nostalgia? Ou algo mais?
Ele não sabia. Apenas sentia que aquele sabor doce tornava a irritação e o vazio em seu peito ainda mais evidentes.
Ele permaneceu sentado no restaurante por muito tempo, até que a noite se tornou profunda. O toque do celular soou subitamente, parecendo estridente no ambiente silencioso.
Era Isabella. Bernardo olhou para o nome na tela, hesitou por um instante, mas atendeu.
"Bernardo..." Do outro lado da linha, a voz de Isabella estava pesada, claramente embargada pelo choro. "O Arthur... ele me expulsou hoje..."
Bernardo ouvia em silêncio.
"Ele perdeu a paciência comigo por causa daquela Clarice morta... e me mandou embora..." A voz dela tornava-se cada vez mais magoada. "Bernardo... o que eu faço? Será que o Arthur... será que ele se apaixonou pela Clarice? Ele não me ama mais?"
Bernardo segurava o celular sem dizer nada. Seu olhar recaiu sobre o assento vazio à sua frente. Era como se pudesse ver Clarice ali sentada, em silêncio, com os olhos baixos.
"Bernardo? Estás me ouvindo?" A voz de Isabella o trouxe de volta à realidade.
"... Sim." Bernardo respondeu com a voz um pouco rouca. "Isabella, não penses demais agora. O Arthur... talvez ele não esteja de bom humor ultimamente. Dá-lhe algum tempo".
"Mas..."
"Tenho coisas para resolver, preciso desligar." Bernardo a interrompeu de forma evasiva.
Sem esperar pela resposta de Isabella, ele encerrou a ligação. O restaurante mergulhou novamente no silêncio. Bernardo encostou-se na cadeira e fechou os olhos.
Sua mente estava ainda mais confusa. Clarice morrera. Arthur estava agindo de forma estranha. Isabella estava chorando. E ele...
Ele não sabia o que estava acontecendo consigo. Sentia apenas que, de repente, aqueles dias de excessos e libertinagem pareciam ter perdido toda a cor e o sentido.
Ele pegou o celular e o desbloqueou. Na tela, estava a imagem de fundo padrão. Deslizou os dedos e abriu a galeria. Em uma pasta extremamente oculta e protegida por senha, ele encontrou uma foto.
Fora tirada escondido. Na imagem, Clarice estava sentada na sala de música, de perfil para a câmera, com a cabeça levemente inclinada e os dedos acariciando as teclas do piano. O sol da tarde entrava pela janela, envolvendo-a em uma aura dourada e suave.
As linhas do seu rosto eram macias, seus cílios eram longos e sua expressão... era de uma paz profunda. Talvez até um pouco triste.
Quando teria tirado aquela foto? Nem o próprio Bernardo se lembrava mais.
Bernardo olhava para a foto na tela. Inconscientemente, seus dedos acariciaram suavemente o perfil dela na imagem.
Ele não sabia o que sentia. Apenas percebia que, ao olhar para aquela foto, a irritação e o vazio em seu coração pareciam ser, minimamente, preenchidos por algo.