《Cinzas do Passado: O Renascimento de Clarice》Capítulo 15

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Bernardo lembrava-se deste lugar.

Dois anos atrás, no aniversário de Clarice.

Naquele dia, Clarice usava um vestido azul-claro e uma maquiagem leve; sob a luz suave, ela parecia extraordinariamente gentil e encantadora.

Ela pediu uma sobremesa chamada "Soufflé", dizendo ser o seu doce favorito. Naquela época, Bernardo desdenhou, achando-o doce e enjoativo demais.

Mas agora...

O carro parou lentamente em frente ao restaurante. Bernardo, sentado no veículo, olhou para a familiar porta de madeira entalhada e, como se fosse guiado por uma força estranha, abriu a porta do carro e entrou.

Não havia muitas pessoas no local, e a iluminação continuava suave. Ele sentou-se na mesa perto da janela, o mesmo lugar onde Clarice se sentara anos atrás.

O garçom entregou o cardápio. Sem sequer olhar, Bernardo disse diretamente: "Um Soufflé".

"Pois não, senhor. Por favor, aguarde um momento".

A espera não foi longa, mas Bernardo sentia-se inquieto. Ele observava os pedestres na rua através da janela, enquanto sua mente era um turbilhão de confusão. A imagem de Clarice surgia repetidamente em momentos inoportunos.

A maneira como ela comia em silêncio. Aquelas emoções complexas e difíceis de decifrar nos olhos dela quando, ocasionalmente, o encarava. A silhueta solitária e obstinada de Clarice acariciando secretamente as teclas do piano após ferir os dedos...

"Senhor, o seu Soufflé".

A voz gentil do garçom interrompeu seus pensamentos. Na delicada tigela de porcelana branca, o Soufflé fofo e dourado exalava um aroma doce e vapor. Bernardo pegou a colher pequena, pegou uma porção e a levou à boca.

Era doce. Extremamente doce.

Bernardo largou a colher, sentindo-se subitamente ridículo. Por que ele estava ali, pedindo a sobremesa favorita dela? Por nostalgia? Ou algo mais?

Ele não sabia. Apenas sentia que aquele sabor doce tornava a irritação e o vazio em seu peito ainda mais evidentes.

Ele permaneceu sentado no restaurante por muito tempo, até que a noite se tornou profunda. O toque do celular soou subitamente, parecendo estridente no ambiente silencioso.

Era Isabella. Bernardo olhou para o nome na tela, hesitou por um instante, mas atendeu.

"Bernardo..." Do outro lado da linha, a voz de Isabella estava pesada, claramente embargada pelo choro. "O Arthur... ele me expulsou hoje..."

Bernardo ouvia em silêncio.

"Ele perdeu a paciência comigo por causa daquela Clarice morta... e me mandou embora..." A voz dela tornava-se cada vez mais magoada. "Bernardo... o que eu faço? Será que o Arthur... será que ele se apaixonou pela Clarice? Ele não me ama mais?"

Bernardo segurava o celular sem dizer nada. Seu olhar recaiu sobre o assento vazio à sua frente. Era como se pudesse ver Clarice ali sentada, em silêncio, com os olhos baixos.

"Bernardo? Estás me ouvindo?" A voz de Isabella o trouxe de volta à realidade.

"... Sim." Bernardo respondeu com a voz um pouco rouca. "Isabella, não penses demais agora. O Arthur... talvez ele não esteja de bom humor ultimamente. Dá-lhe algum tempo".

"Mas..."

"Tenho coisas para resolver, preciso desligar." Bernardo a interrompeu de forma evasiva.

Sem esperar pela resposta de Isabella, ele encerrou a ligação. O restaurante mergulhou novamente no silêncio. Bernardo encostou-se na cadeira e fechou os olhos.

Sua mente estava ainda mais confusa. Clarice morrera. Arthur estava agindo de forma estranha. Isabella estava chorando. E ele...

Ele não sabia o que estava acontecendo consigo. Sentia apenas que, de repente, aqueles dias de excessos e libertinagem pareciam ter perdido toda a cor e o sentido.

Ele pegou o celular e o desbloqueou. Na tela, estava a imagem de fundo padrão. Deslizou os dedos e abriu a galeria. Em uma pasta extremamente oculta e protegida por senha, ele encontrou uma foto.

Fora tirada escondido. Na imagem, Clarice estava sentada na sala de música, de perfil para a câmera, com a cabeça levemente inclinada e os dedos acariciando as teclas do piano. O sol da tarde entrava pela janela, envolvendo-a em uma aura dourada e suave.

As linhas do seu rosto eram macias, seus cílios eram longos e sua expressão... era de uma paz profunda. Talvez até um pouco triste.

Quando teria tirado aquela foto? Nem o próprio Bernardo se lembrava mais.

Bernardo olhava para a foto na tela. Inconscientemente, seus dedos acariciaram suavemente o perfil dela na imagem.

Ele não sabia o que sentia. Apenas percebia que, ao olhar para aquela foto, a irritação e o vazio em seu coração pareciam ser, minimamente, preenchidos por algo.

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