As palavras dela foram interrompidas bruscamente.
Arthur levantou a cabeça e o olhar que dirigiu a ela era gélido, desprovido de qualquer calor. Naquele olhar havia raiva, asco e uma espécie de opressão quase violenta que ela jamais vira antes.
— ... Arthur? — O sorriso de Isabella congelou em seu rosto e ela sentiu um pânico inexplicável brotar em seu coração. — O que houve? Por que me olha assim? Eu... eu fiz isso pelo seu bem...
— Pelo meu bem? — A voz de Arthur soou rouca, pronunciando cada palavra com esforço. — Quem te deu permissão para tocar nas coisas dela? Quem te deu permissão para... jogá-las fora?!
Ele ergueu a caixa de veludo suja que tinha em mãos, fixando o olhar em Isabella.
— Isso era dela! É... o pouco que restou dela!
Sua voz tremia levemente devido à agitação.
— Com que direito você as jogou fora como se fossem lixo?! Com que direito?!
Isabella recuou um passo, assustada com o grito dele. Seu rosto empalideceu, mas logo a mágoa e a fúria vieram à tona.
— Com que direito?! — Ela também elevou a voz, com os olhos marejados. — Arthur! Entenda de uma vez! Eu sou a pessoa que você ama! Nós crescemos juntos! Eu esperei por você todos esses anos! O que aquela Clarice significava?! Ela era apenas a irmã do seu inimigo! Um instrumento que você usou para se vingar! Um objeto de segunda mão sujo! Ela morreu e pronto! Não sente nojo de guardar as coisas dela?!
— Cale a boca! — Arthur a interrompeu com rispidez, as veias de sua testa saltando. — Não se atreva a falar dela desse jeito!
Isabella ficou atônita com a fúria dele. Ela olhou para os olhos escarlates de Arthur, repletos de dor e luta, e de repente sentiu que o homem à sua frente era um estranho. Um estranho que a apavorava.
— Arthur... — Sua voz ganhou um tom de choro, misturando raiva e desespero. — O que aconteceu com você? Ficou louco?! Ela morreu! Sua vingança está feita! Você deveria estar feliz agora! Deveria se casar comigo! Nós somos o par perfeito! Por que me trata assim por causa de uma morta, de um simples instrumento?!
Arthur olhou para o rosto dela banhado em lágrimas e ouviu seus questionamentos insistentes. Sua mente estava em caos e ele sentia pontadas agudas de uma dor sufocante no coração. Ele próprio não sabia o que estava acontecendo consigo. Só sabia que, ao ver os pertences de Clarice descartados como lixo, sentiu um pânico como se algo dentro dele tivesse sido completamente esvaziado.
— Eu não sei... — Ele balançou a cabeça lentamente, com a voz exausta e sofrida, levando a mão às têmporas latejantes. — Eu também não sei... o que há comigo...
— Vá embora. — Ele apontou para a porta, com uma voz baixa e uma determinação inquestionável. — Isabella, saia agora. Eu não quero... ver ninguém no momento.
Isabella arregalou os olhos e as lágrimas jorraram. Ela não conseguia acreditar que Arthur estava expulsando-a. Por causa daquela mulher que ele tanto odiara e que já estava morta!
— Arthur! Você vai se arrepender! — Ela gritou enquanto se virava e, como da última vez, saiu batendo a porta com força.
A mansão mergulhou novamente em um silêncio mortal. Arthur permaneceu ali, ainda segurando a pequena e suja caixa de veludo. Ele baixou o olhar para ela. Com as pontas dos dedos, acariciou levemente as duas letras quase apagadas no fundo da caixa.
C. L.
Clarice.
Essa mulher que ele passou cinco anos odiando e se vingando. Agora ela estava morta. Transformada em cinzas. Deixando apenas aquela... caixa vazia.
E aquele vazio em seu coração chamado "vingança bem-sucedida" parecia, naquele momento, estar sendo preenchido aos poucos por algo novo. Seria... arrependimento? Ou algo mais? Ele não sabia. Só sabia que, de fato, algo estava muito errado com ele.
Os dias de Bernardo ultimamente têm sido de pura confusão mental. Após o funeral, ele tentou retomar sua antiga vida de luxo e excessos, frequentando clubes e bares, trocando de mulher uma após a outra. Mas algo... não parecia certo.
Aqueles sorrisos sedutores, rostos delicados e corpos esculturais que antes despertavam seu interesse com facilidade, agora pareciam insossos sob seu olhar. Chegavam a ser... irritantes.
Certa vez, em um clube privado que costumava frequentar, amigos chamaram algumas garotas jovens e bonitas para acompanhá-los. Entre elas, havia uma garota vestindo um vestido branco simples, com cabelos longos sobre os ombros, aparência delicada e um ar de certa frieza. Ela estava sentada timidamente em um canto, sem falar muito, apenas erguendo o olhar ocasionalmente com uma expressão serena.
Bernardo, sem querer, vislumbrou o perfil dela. De certo ângulo... lembrava vagamente Clarice. Não era a fisionomia, mas aquela serenidade, aquele distanciamento e um toque de fragilidade quase imperceptível. Seu coração errou uma batida bruscamente.
A garota pareceu notar que estava sendo observada, ficando ainda mais inquieta e baixando a cabeça. Um amigo percebeu a estranheza de Bernardo e deu-lhe um cutucão, rindo:
— E então? O mestre Bernardo gostou desta? É bem pura, começou a frequentar o meio há pouco tempo. Quer que eu...
Bernardo não respondeu. Apenas fixou o olhar naquela garota. Mas, em sua mente, outra imagem surgiu involuntariamente. Era Clarice. Ela também ficava assim, sentada silenciosamente em um canto, de olhos baixos, as mãos mexendo inconscientemente na barra da roupa. Sempre que ele se aproximava, o corpo dela ficava rigidamente tenso e os cílios tremiam levemente.
Uma irritação inexplicável brotou subitamente em seu coração.
— Mande-a embora. — Bernardo gesticulou bruscamente, com um tom de impaciência e uma rispidez que ele próprio não percebeu.
O amigo e a garota ficaram atônitos.
— Bernardo...
— Eu disse para mandá-la embora! — Bernardo elevou o tom, com o olhar frio.
A garota empalideceu, levantou-se apressada e saiu do camarote de cabeça baixa. O clima ficou constrangedor por um momento. O amigo tentou descontrair:
— Calma, o mestre Bernardo não está de bom humor hoje? Vamos trocar por outra...
Bernardo não deu atenção. Pegou o copo de bebida forte à sua frente e entornou de uma vez.
O líquido ardente queimou sua garganta, mas não conseguiu aplacar aquele vazio cada vez mais nítido em seu peito.
Ele saiu do clube mais cedo. Dirigindo sem destino, vagou pela cidade. Sem perceber, acabou chegando a uma rua tranquila no centro.
À beira da calçada, havia um restaurante francês.