Bernardo permaneceu em silêncio. Ao olhar para aquele corpo carbonizado e pensar na mulher que outrora fora vibrante, gentil e que se entregara a ele, agora reduzida àquele estado, sentiu o estômago revirar subitamente. Ele desviou o olhar.
Os bombeiros colocaram a maca na ambulância. O legista realizou uma perícia preliminar no local.
"A falecida é do sexo feminino, compatível com a idade e as características físicas da Sra. Clarice. A causa da morte foi inicialmente diagnosticada como asfixia por inalação; o corpo está severamente carbonizado e será necessário um exame de DNA para a confirmação final da identidade. No entanto, com base nas circunstâncias do local e nos pertences encontrados..."
Arthur não ouviu o restante das palavras. Ele apenas observou a ambulância fechar as portas e se afastar lentamente. O silêncio se instalou ao redor, restando apenas o som da água das mangueiras e os ruídos da limpeza do local.
Bernardo foi o primeiro a falar. Ele forçou um sorriso que não chegou aos olhos e disse com a voz seca: "... Ela morreu?"
Arthur silenciou por alguns segundos. Seu pomo de adão saltou enquanto ele engolia em seco.
"... Sim", respondeu ele em um sussurro quase inaudível.
Bernardo respirou fundo, como se tentasse convencer a si mesmo: "Melhor assim. Afinal... eu já pretendia revelar tudo mesmo. Isso... poupou trabalho".
Arthur não disse mais nada. Ele se virou e caminhou em direção ao seu carro. Suas costas estavam eretas e seus passos pareciam firmes. Porém, ao chegar ao veículo, ele tentou puxar a maçaneta três vezes antes de finalmente conseguir abrir a porta.
Bernardo permaneceu onde estava, sem segui-lo. Ele observou o sedã preto dar a partida, acelerar e desaparecer rapidamente na noite. Então, voltou-se para a direção por onde a ambulância com o corpo de "Clarice" havia partido. O vento noturno soprava, trazendo o calor residual e o odor de queimado das ruínas.
Subitamente, sentiu a garganta apertar e um aperto sufocante no peito.
"Droga". Ele praguejou baixo, sem saber exatamente contra quem. Em seguida, também se virou para o próprio carro e partiu em alta velocidade com o rugido do motor. Diante das ruínas da mansão, restaram apenas os destroços e a poeira que se dissipava gradualmente. Era como se nada tivesse acontecido.
O funeral foi extremamente simples, quase miserável. Ocorreu em um cemitério isolado no subúrbio, ao amanhecer, sob um céu cinzento e uma chuva fina e persistente. Os únicos presentes eram Arthur e Bernardo.
A lápide era de granito simples, adornada com uma pequena foto. Era a foto de casamento de Clarice. Na imagem, ela usava um vestido de noiva branco puro e segurava o braço de Arthur; seu rosto estava de perfil para a câmera, com um sorriso gentil e tímido, e olhos brilhantes que pareciam conter toda a felicidade do mundo.
Arthur, vestindo um terno preto, permanecia imóvel diante do túmulo. A chuva encharcava seu cabelo e ombros, mas ele parecia não notar. Bernardo estava parado a um passo de distância, igualmente em silêncio. Ao olhar para a foto na lápide, aquela irritação inexplicável voltou a borbulhar em seu peito.
Ele pegou o maço de cigarros, tirou um e ofereceu a Arthur. "Fume um", disse Bernardo, com a voz nítida sob o som da chuva. "Finalmente vingou seu irmão. Não deveria comemorar?"
Arthur não aceitou o cigarro. Ele sequer olhou para Bernardo. Seu olhar permanecia fixo na foto da lápide, naquele rosto sorridente e feliz de Clarice.
Após um longo tempo, quando Bernardo já achava que não obteria resposta, Arthur falou suavemente, com uma estranha flutuação na voz: "Ela tem medo do escuro".
Bernardo hesitou. O olhar de Arthur moveu-se para a floresta sombria atrás da lápide, onde a névoa tornava tudo obscuro sob a luz fraca.
"Enterrada aqui...", murmurou ele, como se falasse consigo mesmo. "Será que ela terá medo... à noite?"
O coração de Bernardo estremeceu. Ele observou o perfil de Arthur. A água da chuva escorria por seu maxilar bem definido; seu olhar estava vago, perdido na escuridão das árvores, com uma expressão de fragilidade e desolação que Bernardo nunca vira antes.
"Arthur", a voz de Bernardo soou grave, com uma tensão sutil. "Você está bem? Agora que ela morreu, resolveu fingir que é sentimental?"