Ao cair da tarde, Arthur estava no apartamento de Isabella, acompanhando-a no jantar. Sobre a mesa, cinco pratos e uma sopa delicadamente preparados — todos os favoritos de Isabella. Ela estava de excelente humor, servindo Arthur enquanto falava suavemente sobre as joias e exposições de arte que chamaram sua atenção recentemente.
Arthur ouvia, assentindo ocasionalmente, mas seus pensamentos estavam distantes. Ele pensava em Clarice. Nesses últimos dias, ele usou o pretexto de uma viagem de negócios para ficar morando na casa de Isabella, mas, por algum motivo, a imagem de Clarice sozinha em casa, pálida e silenciosa, não parava de surgir em sua mente.
O toque repentino do celular interrompeu seus devaneios.
— Sr. Arthur! Aconteceu algo terrível! Sua mansão está em chamas! O fogo é imenso e começou no quarto do segundo andar! Os bombeiros já chegaram e estão combatendo o incêndio, mas...
A voz do gerente da propriedade era urgente e confusa, acompanhada por sirenes estridentes e pelo barulho de vozes ao fundo. O coração de Arthur afundou e ele se levantou instantaneamente.
— Onde está Clarice? — sua voz estava tensa, e o primeiro pensamento saltou de sua boca.
Do outro lado da linha, houve uma hesitação, e o tom tornou-se ainda mais incerto: — Ainda... ainda não encontramos a senhora... O quarto foi o ponto de origem, o fogo está forte demais, a senhora pode... pode ainda estar lá dentro...
O celular escorregou da palma de sua mão, caindo com um estalo no chão.
— O que houve, Arthur? — Isabella assustou-se, largando os talheres e olhando para ele com preocupação.
Arthur não respondeu; ele virou-se e correu para fora.
— Arthur! Aonde você vai?! — Isabella o seguiu até a porta, mas Arthur já havia entrado no elevador. Ele não respondeu. Havia apenas um pensamento em sua cabeça: voltar.
Arthur dirigiu freneticamente. Ele avançou três sinais vermelhos, pisando fundo no acelerador; um trajeto que normalmente levaria quarenta minutos foi feito em apenas vinte. Antes mesmo de se aproximar do condomínio, ele viu de longe as chamas subindo ao céu e a fumaça densa. Seu coração afundava a cada segundo.
O carro freou bruscamente perto da linha de isolamento. Ele abriu a porta e correu, quase colidindo com Bernardo, que acabara de chegar. O rosto de Bernardo estava sombrio e havia suor em sua testa. Os dois se entreolharam, não disseram nada e observaram simultaneamente a mansão sendo devorada pelas chamas.
O fogo era excepcionalmente violento, com labaredas alaranjadas jorrando pelas janelas do segundo andar, lambendo o céu noturno.
— Ela... — a voz de Bernardo soou seca — está lá dentro?
Arthur não respondeu. Ele apenas fixou o olhar na janela do quarto engolida pelo fogo; seu rosto estava branco como papel e seus lábios formavam uma linha reta, com o maxilar rigidamente travado. Ao redor, ouviam-se os gritos dos bombeiros, o barulho da água e as discussões da multidão de curiosos.
Mas Arthur não ouvia nada. Havia apenas uma imagem em sua mente: Clarice presa no mar de fogo, sufocada pela fumaça densa, queimada pelas chamas, impotente, desesperada... e então, morta. Não. Não podia ser. Ela não podia morrer. Pelo menos... não morrer assim.
O tempo passou em agonia, minuto a minuto. O fogo foi finalmente controlado e extinto gradualmente. A mansão antes requintada restou apenas como uma estrutura carbonizada e escombros, soltando fios de fumaça azulada e exalando calor residual e odor de queimado.
Os bombeiros começaram a busca entre as ruínas. Arthur e Bernardo permaneceram imóveis do lado de fora da linha de isolamento, com os olhos fixos nos escombros. O ar parecia congelado.
Após um tempo indeterminado, alguns bombeiros saíram das profundezas das ruínas carregando uma maca. A maca estava coberta por um pano branco, mas o contorno de um corpo humano era visível sob ele — um cadáver carbonizado e encolhido.
Um bombeiro aproximou-se de Arthur com o rosto pesado: — Sr. Arthur, encontramos o corpo no banheiro da suíte principal do segundo andar... A avaliação preliminar indica ser uma mulher, com idade por volta dos vinte e cinco anos. Os detalhes exatos exigirão uma análise mais aprofundada do legista.
O olhar de Arthur caiu sobre a mão que aparecia sob o pano branco, igualmente carbonizada. No pulso, via-se vagamente um traço de metal. Era um anel. Uma aliança enegrecida pelas altas temperaturas, mas que ainda podia ser reconhecida pelo estilo. Era a mesma que ele dera a Clarice.
O corpo de Arthur oscilou quase imperceptivelmente. Bernardo segurou-o rapidamente, percebendo que Arthur estava tremendo ao agarrar seu braço.
— Você... — a voz de Bernardo também soou rouca, enquanto ele olhava para a maca e depois para Arthur — tem certeza? Não quer esperar pelo legista?
— É o anel dela — Arthur interrompeu-o, com a voz tão rouca que era quase inaudível. — Ela nunca o tirava.