Aos dezoito anos, Clarice foi brutalmente violada por um estranho embriagado.
Ela denunciou o crime e, mesmo sob o peso de uma pressão esmagadora e do medo, conseguiu enviar aquele homem influente para trás das grades.
No entanto, as sombras deixadas por aquele pesadelo eram profundas demais, a ponto de, nos anos seguintes, bastar que um homem se aproximasse para que ela perdesse o controle, tremendo, sentindo náuseas e chegando a vomitar.
Ela acreditava que sua vida estava arruinada; sentia-se quebrada, suja e convencida de que nunca mais conseguiria amar ou viver como uma pessoa normal.
Até que Arthur apareceu.
O herdeiro do clã mais poderoso da cidade decidiu, contra todas as expectativas, perseguir justamente aquela garota comum e marcada pelo passado.
Ele a respeitava, cuidava dela e, pouco a pouco, a resgatou daquele abismo sombrio.
No dia do pedido de casamento, ele se ajoelhou: "Clarice, me dê a chance de cuidar de você pelo resto da vida. Eu usarei tudo o que tenho para curar cada uma das suas feridas".
Clarice acreditou e entregou seu coração partido, sem reservas, nas mãos dele.
O casamento foi um evento grandioso que parou a cidade; todos diziam que Clarice devia ter salvo o universo para ser tão mimada por um homem como Arthur, passando de "Gata Borralheira" a uma dama da alta sociedade.
Clarice também pensava assim, sentindo-se a mulher mais sortuda do mundo por ter sido salva por tamanha luz após cair no abismo.
Até que, um dia, Arthur a levou a um banquete de gala. Ela não se sentia confortável em tais ocasiões e, após algum tempo, disse estar cansada e que desejava ir para casa.
Arthur pediu que alguém a levasse de volta enquanto ele permanecia no evento para fazer contatos.
Ao chegar no estacionamento, Clarice percebeu que havia esquecido o celular no lounge; ela retornou para buscá-lo, mas, ao passar por uma sala VIP com a porta entreaberta, ouviu uma conversa vinda do interior.
"Já faz cinco anos, Arthur. Esse seu plano de vingança já deveria estar chegando ao fim, não acha?"
"Sim." A voz de Arthur ecoou com o mesmo tom frio e profundo de sempre, mas carregada de uma indiferença que Clarice jamais ouvira: "Eu já assinei os papéis do divórcio. Em alguns dias, quando ela estiver mais apaixonada do que nunca, eu os entregarei e contarei toda a verdade".
"Nossa, cinco anos... Primeiro, você armou aquele acidente para destruir as mãos dela, garantindo que nunca mais tocasse piano. Depois, quando ela estava grávida e cheia de esperanças, causou aquele 'acidente' para que ela perdesse o bebê... Mas o toque de mestre foi passar esses cinco anos sem encostar nela, deixando que o Bernardo fizesse o serviço em seu lugar. Arthur, para vingar seu irmão, você realmente não teve limites".
"Ela mandou meu irmão para a prisão, onde ele morreu de um ataque cardíaco." A voz de Arthur era calma, mas cada palavra transbordava veneno: "Uma vida por outra seria pouco. Eu quero destruir tudo o que ela valoriza e fazer com que ela caia no inferno no momento em que se sentir mais feliz".
"E depois? Após o divórcio, você finalmente vai se casar com a Isabella, sua protegida de tantos anos?"
Isabella... Aquela herdeira linda e sofisticada que Clarice via ocasionalmente em festas e que sempre olhava para Arthur com um brilho complexo nos olhos? No fim, a pessoa que Arthur realmente amava era ela.
"Com certeza", respondeu Arthur de forma curta e definitiva.
"Faz sentido. Se seu irmão não tivesse morrido, você já estaria com a Isabella há muito tempo. Mas e você, Bernardo?" O grupo se virou para o homem ao lado, dono de uma beleza agressiva e um sorriso cínico: "Você fingiu ser o Arthur na cama dela por cinco anos. Com esse tempo todo, não sentiu nem um pouquinho de pena? Ver uma bonequinha dessas ser destruída pelo nosso grande Arthur não te dói o coração?"
Bernardo soltou uma risada baixa e despreocupada, um som que cortou a alma de Clarice como uma navalha.
"Pena?" A voz de Bernardo carregava seu desdém habitual: "Ela é apenas um brinquedo de segunda mão. Por que eu teria pena? Fiz isso apenas para ajudar meu irmão a descarregar sua fúria. Caso contrário, com tantas mulheres implorando por mim, você acha que eu perderia meu tempo dormindo com alguém como ela?"
Cada palavra era como um trovão atingindo os ouvidos de Clarice. Ela cambaleou para trás, quase caindo no chão.
Clarice mordeu o lábio inferior com tanta força que o gosto metálico do sangue invadiu sua boca; suas unhas cravaram na palma das mãos, mas ela não sentia dor física.
Apenas no peito havia uma dor excruciante, como se seu coração estivesse sendo rasgado e triturado, tirando-lhe o fôlego e as forças para ficar de pé.
Aquele homem... o homem que ela mandou para a prisão... era o irmão de Arthur?
Toda a dedicação de cinco anos, o carinho e a salvação... tudo era uma farsa cruel, uma vingança meticulosa e sádica.
O marido que ela tanto amava era o irmão do seu carrasco. Ele se aproximou e se casou com ela apenas para destruí-la. Ele arruinou suas mãos, tirando dela o sonho de ser pianista. Ele matou seu filho, deixando que ela carregasse a dor do luto.
Ele tinha tanto nojo dela que nem sequer a tocava. Todas as noites de intimidade desses cinco anos, cada abraço e cada beijo no escuro... pertenceram a outro homem, ao seu melhor amigo, Bernardo.
E ela, como uma completa idiota, afogou-se naquela armadilha de ternura, acreditando ser a mulher mais afortunada da Terra.