Minha cabeça latejou com um estrondo, como se uma corda tivesse se partido definitivamente dentro de mim. Stéfany continuava com suas desculpas teatrais:
— Me desculpe, Yasmin... tive uma pontada no peito e acabei derrubando a urna sem querer...
Levantei os olhos, atordoada; não havia um pingo de arrependimento nela, apenas um deboche escancarado. Os outros convidados perceberam que algo estava errado e começaram a gaguejar:
— Parece que são cinzas de verdade... tem até pedaços de ossos...
Lorenzo empalideceu e tentou me encarar, mas, no segundo seguinte, eu avancei contra Stéfany. Rolei com ela escada abaixo.
— Ah!
Stéfany parou de lado, com o rosto pálido, segurando a barriga.
— Minha barriga... meu filho!
Imediatamente, todos correram para socorrê-la. Eu, com a testa sangrando, subi os degraus e comecei a recolher, grão por grão, as cinzas da minha mãe. A amiga de Stéfany, inconformada, avançou furiosa e me agarrou pelo colarinho, desferindo golpes contra mim:
— Sua maldita! Se a Stéfany perder esse bebê, eu acabo com você!
Ela começou a pisotear as cinzas deliberadamente. Senti meu pescoço ser apertado com tanta força que quase sufoquei. Num impulso, eu a joguei no chão e comecei a desferir socos carregados de ódio:
— Socorro! Alguém me ajude! A Yasmin enlouqueceu, ela vai me matar!
Os gritos desesperados da mulher ecoaram pela mansão, e toda aquela arrogância de antes havia sumido. Eu estava como uma fera ferida, cega de raiva. Só me tiraram de cima dela quando o rosto da mulher estava coberto de sangue.
Lorenzo perdeu toda a sua compostura. Com a voz trêmula, ele me abraçou com força:
— Acalme-se, Yasmin! Você quer ser presa por assassinato?!
Mas eu não ouvia nada. Tudo o que eu via eram as cinzas da minha mãe espalhadas pelo chão. Ela sofreu tanto nas mãos do meu pai em vida e, agora morta, ainda era humilhada daquele jeito. Eu queria uma faca para matar todos eles. Num gesto desesperado, mordi a mão de Lorenzo com toda a minha força. O sangue jorrou instantaneamente.
Lorenzo soltou um grito de dor, as veias de sua testa saltadas, e me soltou enquanto segurava o ferimento:
— Yasmin, você enlouqueceu de vez! Eu... ah!
Arremessei um copo contra ele, que caiu atordoado no chão. Sem ninguém mais para me incomodar, abracei a nova urna com os restos que consegui salvar e deixei aquela mansão asquerosa tropeçando nos meus próprios passos.
Lorenzo recobrou os sentidos minutos depois. Ele tremia, não de medo, mas porque percebeu que as coisas haviam saído totalmente do controle. A casa estava vazia; logo alguém o encontrou e o levou para o hospital.
Após os pontos no ferimento serem feitos, Lorenzo ouviu a gritaria do lado de fora. Stéfany, vestindo roupas hospitalares, entrou no quarto com o rosto tomado por fúria e desespero, jogando-se nos braços dele:
— Lorenzo, nós perdemos o bebê! Chame a polícia agora, mande prender aquela louca!
Ela pegou o celular para ligar, mas Lorenzo o tomou de suas mãos. Sua voz era baixa e demonstrava um cansaço profundo:
— Esqueça isso.
Stéfany paralisou, como se tivesse sido atingida por um golpe fatal.
— O que você está dizendo, Lorenzo? Ela matou o nosso filho! Como você pode defender aquela vagabunda?!
Tomada pelo ódio, Stéfany começou a esmurrar Lorenzo enquanto as lágrimas escorriam. Ela achava que, com aquele filho, conseguiria subir de posição, mas o bebê se fora e o pai da criança parecia querer apenas abafar o caso. Lorenzo, sem qualquer expressão no rosto, agarrou o pulso dela e questionou:
— Se você não tivesse derrubado aquela urna de propósito, o bebê ainda estaria aqui, não estaria? Estou sendo misericordioso ao não cobrar isso de você, e você ainda ousa me questionar?
Ele a empurrou para o lado e saiu do quarto. Stéfany ficou em choque, mas não se deu por vencida e o seguiu:
— Foi aquela infeliz que disse que eu fiz de propósito? Você vai acreditar nela? Ela está me caluniando! Além disso, quem sabe o que tinha naquele pote... podia ser gesso, areia, barro...
— Chega!
Lorenzo parou bruscamente e gritou com ela. O mordomo já havia contado tudo: a mãe de Yasmin havia falecido há um ano. Naquela época, ele estava envolvido com uma modelo estrangeira e nem sequer notou o que acontecia. Lorenzo olhou para Stéfany com desprezo e soltou uma risada amarga. Como ela pôde pensar que ele se casaria com alguém como ela?
— Eu te mimava porque você era obediente, mas, se você é essa pessoa que estou vendo agora, eu não quero olhar na sua cara nunca mais.
Dito isso, ele se afastou, deixando Stéfany para trás, imóvel como uma estátua.