Alice entrou no vagão com passos pesados, escolheu um assento na janela e sentou-se, encarando o exterior com um olhar vago. O vagão estava vazio, muito mais desolado do que no início da viagem.
Madeirinha, pousado em seu ombro, roçou o rosto nela com cautela: — Mestra, você está bem?
O estado mental dela parecia um pouco fora do normal. Alice sentia um misto de emoções; dizer que estava triste não parecia exato. Afinal, completar um cenário era motivo de alegria, por que estaria triste? Mas, por outro lado, sentia o coração pesado, sem ânimo para nada. Ela sabia apenas que o jogo ainda não terminara. A próxima estação ainda a esperava.
Enquanto isso, no mundo real, o enorme telão da praça central interrompeu subitamente toda a programação normal. A imagem chuviscou e transformou-se em estática. O fenômeno atraiu imediatamente a atenção dos pedestres.
— O que houve?
— Deve ser alguma transmissão do mundo do jogo.
Um senhor idoso concordou: — Acho provável, da última vez que transmitiram imagens de lá, começou assim.
No segundo seguinte, os chuviscos deram lugar a uma cena banhada em sangue. Na imagem, sob os pés de uma pessoa coberta de sangue, jaziam inúmeros cadáveres espalhados. Alguns estavam mutilados, outros irreconhecíveis e alguns ainda sofriam espasmos leves. A multidão entrou em choque.
— O que é aquilo?
— Um ataque terrorista?!
— Chamem a polícia! Rápido!
— Chamar a polícia para quê? Isso é no mundo do jogo, você acha que eles podem fazer algo?
— É verdade, quase esqueci desse detalhe.
Conforme a câmera dava um close, o rosto da pessoa tornou-se nítido. Era uma face delicada, aparentando recém-chegada à vida adulta, com um sorriso estranho nos lábios. Ela levantou a cabeça, como se soubesse que estava sendo observada, e encarou os milhares de olhos do lado de fora da tela.
— Não tenham medo, eles não são humanos.
— Fui eu quem os matou, mas saibam que, antes de eu matá-los, eles já tinham deixado de ser gente.
Fora da tela, houve quem gritasse de pavor e quem cobrisse os olhos dos filhos para evitar a cena sangrenta. Outros, indiferentes, sacaram os celulares para filmar e postar nas redes sociais. Alice continuava sorrindo dentro da tela. Aos olhos deles, o sorriso dela era mais assustador do que o chão repleto de corpos. Se não tivesse um rosto humano, pensariam que ela era uma entidade assassina implacável.
— Vejam a próxima rodada, serão bem-vindos — convidou Alice com entusiasmo.
A imagem foi cortada abruptamente, mergulhando a praça em pânico. Eles temiam que, quando a Alice da tela voltasse, ela se vingasse da sociedade. Houve até quem começasse a praguejar, torcendo para que ela não completasse o cenário e ficasse presa lá para sempre.
No mundo do jogo, Alice olhava impassível para as legendas que flutuavam no ar:
【Cenário 'Trem Expresso da Meia-Noite' concluído】
【Jogadores sobreviventes: 1/8】
【Estado do jogador: Valores emocionais anormais, recomenda-se descanso】
【Novo acréscimo: Avaliação de impacto no mundo real — Pânico em larga escala. Iniciando plano de contingência para limpeza de memória】
【Motivo da falha do plano: Detectado que a imagem foi retransmitida simultaneamente por 47 países】
【Resultado da avaliação: Memória irreversível】
【Mensagem do sistema: Parabéns, você conseguiu o que queria. Ficou famosa.】
E era uma fama global.
【Alice: Jogadora de Nível Médio】
【Pontuação de desempenho: 30/100】
Madeirinha perguntou, confuso: — Mestra, por que você disse aquelas coisas na tela? Isso é criar inimigos de graça. Vão te xingar muito.
— Eu queria que eles soubessem.
— Soubessem o quê?
— Que este mundo não tem apenas o lado que eles veem. Que saibam que há pessoas morrendo no lugar deles.
Ela esperava que eles entendessem que alguém, com a própria morte, estava garantindo a eles uma chance de sobrevivência.
— Mestra, você mudou. Parece que se importa com cada vez mais coisas.
Embora ainda mantivesse sua postura de ceticismo e não confiasse em ninguém, em algum momento ela começara a se importar. Importar-se com os jogadores mortos. Com os rostos que viraram estrelas. Com o amigo que desaparecera. Alice soltou um "hum" abafado, admitindo. Ao mesmo tempo, sabia que era perigoso. Quanto mais se importa, mais preocupações surgem. Mas ela não conseguia evitar!
O trem avançava sem pressa. Onde seria a próxima parada? Ela não sabia, mas queria encontrar a resposta definitiva. E então, ver aquela pessoa mais uma vez.
Ao retornar ao mundo real, o dia ainda não havia amanhecido totalmente. Alice estava à porta de casa, vestindo as roupas manchadas de sangue e apertando o clipe de papel deformado. Tinha que admitir: aquele pequeno clipe a ajudara muito em dois cenários. Aquele item era melhor do que o que estava em seu ombro...
Pensando nisso, Alice olhou para Madeirinha, que já estava mergulhado em um sono profundo.
— Que curioso, até um pedaço de madeira consegue dormir — murmurou para si mesma.
A chave girou várias vezes na fechadura antes de abrir. Ao entrar, Alice escorregou pela porta e sentou-se no chão. Madeirinha acordou com o solavanco, pulou do ombro dela para o seu joelho e tocou o rosto dela com sua mãozinha de madeira.
— Mestra.
— Hum.
— Você está bem?
— Hum.
Alice olhou para o teto, e a frase
"Da próxima vez, lembre-se de levar o macarrão"
ecoava em sua mente. Ela fechou os olhos. Naquele momento, todas as memórias voltaram por completo. Dois jovens sentados no telhado, observando as estrelas em harmonia.
Um dizia:
"Se um dia eu morrer, você vai se lembrar de mim?"
O outro respondia:
"Não, minha memória é ruim."
"Então eu te lembro todo dia, pode ser?"
"Pode."
Ao abrir os olhos, eles estavam úmidos.
A boa notícia: ela se lembrou de tudo.
A má notícia: lembrou-se um pouco tarde demais.
Ela esfregou os olhos, controlou as emoções e foi para o banho. Sob a água quente, as crostas de sangue seco derretiam e desciam pelo ralo. Alice encarou o próprio reflexo no espelho; o cansaço era evidente. Ela se perguntava o que as pessoas que a viram no trem estariam pensando agora. Seria ela um demônio? Uma assassina? Uma louca?
Lavou o rosto e deu tapinhas em suas bochechas: — Alice, não é hora de pensar nisso. Você não pode ter preocupações.
Sim, preocupações seriam apenas um fardo. Ela lutava contra os próprios pensamentos negativos. Quando saiu do banho, o dia já estava claro. Alice vestiu roupas limpas e sentou-se no sofá, jogando fora o macarrão frio que ficara na mesa. Não tinha apetite algum. Madeirinha não sabia como consolá-la, então apenas ficou ali, sentado com ela, para que ela sentisse que não estava sozinha.
Toc, toc, toc—
Alguém batia à porta. Alice ignorou.
Toc, toc, toc—
A pessoa insistia, batendo com mais força. Alice continuou imóvel.
Toc, toc, toc—
— Alice, eu sei que você está aí dentro.
Era uma voz masculina. Alice a achou familiar.